Corporativismo e quadrilha
Redação DM
Publicado em 5 de outubro de 2015 às 22:54 | Atualizado há 11 anosUm dia desses me deparei com um caso que me deixou pasmo. Tratava-se de um rapaz que foi em uma delegacia aqui de Brasília registrar uma ocorrência de furto de um carro. Ocorre que os policiais que estavam de plantão nesta delegacia disseram que não iam registrar a ocorrência pois a polícia estava de greve. Existe uma lei que diz que em casos de crimes mais graves, como desse sujeito que teve o veículo furtado, a polícia é obrigada a registrar a ocorrência mesmo em greve, porém o policial que estava de plantão naquele dia se recusou a registrar a ocorrência, mesmo sabendo que por lei ele era obrigado a fazer o registro. O rapaz então aguardou o término da greve e registrou uma ocorrência de prevaricação contra os policiais que estavam nesta delegacia naquele dia. A prevaricação é um crime onde o funcionário público conscientemente retarda um processo para prejudicar ou beneficiar alguém. Foram feitas investigações sobre este ocorrido, entrevistaram todos os policiais que estavam na delegacia naquele dia, e todos eles, sem exceção, disseram que nunca viram tal rapaz e que não souberam de tal delito. Acontece que o rapaz no momento de registrar a ocorrência estava filmando quando os policiais negaram atendimento, e filmou inclusive o policial que estava conversando com o rapaz, sem que eles percebessem. Resultado, depois que todos os policiais foram ouvidos, o rapaz juntou o vídeo ao processo e ao fazerem a perícia descobriram que de fato um dos policiais que trabalham naquela delegacia havia rejeitado registrar a ocorrência de furto. Era possível identificá-lo pelo vídeo. Pior do que não registrar a ocorrência e não buscar o carro roubado é a atitude dos policiais da delegacia em mentir descaradamente e se proteger das acusações do rapaz. É uma atitude covarde, imunda, injusta, mas bem típica das corporações. Ficam uns protegendo os outros contra acusações procedentes. Ainda mais de quem deveria guardar a lei e os bons costumes. Sinceramente é nojento ver casos como esse.
As pessoas conhecem o termo corporativismo quando se trata de grandes empresas e o seu modo de atuação dentro do mercado. Só que o corporativismo nunca se restringiu apenas em relação as empresas, o termo corporativismo foi criado em função das empresas, mas esse termo explica nada mais que a parcialidade das ações e das justificativas. Então não é difícil perceber que o corporativismo também esta ligado ao modo como essas empresas são administradas. Também não é difícil perceber que o corporativismo esta presente nas relações interpessoais. Ou seja, o termo corporativismo não se restringe apenas a interesses econômicos como é comumente empregado, ela vai bem mais além. Uma vez eu vi um caso em que um órgão público precisava terminar uma obra que já havia muito tempo sido iniciada e para isso contratou um engenheiro que seria responsável por detectar os problemas da obra e porque ela nunca era concluída. O engenheiro foi contratado para essa finalidade e também para administrar esses problemas e concluir a tal obra. A medida que o engenheiro foi se ambientando em seu novo local de trabalho, ele começou a perceber que os empregados responsáveis pelo andamento da obra eram incompetentes para o serviço e não tinham iniciativa. Percebeu também que muitos deles não trabalhavam com a devida dedicação. Foi então que após algumas discussões com esses empregados, o engenheiro resolveu fazer um relatório do que acontecia nesta obra e pedir a demissão de alguns desses funcionários. Ao perceberem que o engenheiro ia pedir a demissão de alguns deles, eles se juntaram, armaram um plano para fazerem prova contra o engenheiro. Um dos funcionários ficou agindo com insubordinação e ofendendo o engenheiro e quando este o chamou para a sala a fim de demiti-lo os demais se juntaram dizendo que se ele fosse demitido todos também seriam. Fizeram isso na esperança de que o engenheiro se revoltasse e falasse alguma besteira. Um deles estava gravando o ocorrido. Mais tarde o engenheiro ficou sabendo que os funcionários eram apadrinhados de servidores deste órgão público, e por isso achavam que nunca seriam demitidos. Para piorar a situação, até os seguranças do local eram amigos desses funcionários. Tudo orquestrado para que o engenheiro perdesse a cabeça e eles fizessem provas contra ele. Neste caso temos um clássico exemplo de corporativismo nas relações interpessoais. Infelizmente nossos órgãos públicos tem histórias como essa aos montes, de pessoas que pensam que podem tudo por serem apadrinhados de alguém. Nada mais nojento que essas pessoas se juntarem (como uma quadrilha) para cometer tamanha injustiça. Além de serem funcionários incompetentes ainda queriam se valer de “poderes” para continuar exercendo seus cargos e se valer de uma armação ardilosa para continuar seus trabalhos inúteis.
Vestir a camisa da empresa é outro exemplo de corporativismo. A empresa esta intrinsecamente dizendo: ou você assume os valores da empresa ou você esta fora. Não existe negociação, não existe consenso, existe imposição, imposição pela força. No documentário The corporation, em determinado momento mostra dois empregados de uma grande multinacional que são demitidos da empresa por não acatarem a determinação de fazer um relatório que isentasse a empresa de vender produtos nocivos a saúde. Eles eram os responsáveis por esse relatório e se recusaram a mentir e distorcer os fatos em favor da multinacional. O lucro estava literalmente acima de tudo. Todos sabemos o quanto as multinacionais destroem e poluem o meio ambiente, o quanto vendem produtos carregados de agrotóxicos, carregados de açúcar, carregados de gordura saturada, pobres em qualidade, ricos em substâncias nocivas a saúde. Mas o que isso importa para eles? O que importa para eles são as vendas e o resto que se dane. É como se eles dissessem para esses empregados: sinto muito colegas, vocês são honestos demais para trabalhar aqui. Procurem um emprego que valorize a vida, que valorize a ética e os bons costumes, este lugar não serve para vocês. Afinal de contas, manda quem pode e obedece quem tem juízo. Não é mesmo?
(Daniel de Melo Costa, 36 anos, servidor público)