Recordes movidos a talento e globalização
Redação DM
Publicado em 3 de outubro de 2015 às 09:10 | Atualizado há 11 anosQuando Atlético e Real começarem a disputar o clássico de Madrid, hoje, às 15h30m, todos os olhares vão convergir para Cristiano Ronaldo. Natural. Faz quatro dias que chegou a 501 gols na carreira e igualou Raúl como máximo artilheiro da história do Real Madrid. A rapidez e naturalidade com que derruba marcas não é exclusividade dele. Messi, seu rival no posto de jogador mais admirado da atualidade, também coleciona recordes. Os números provam que o futebol vive a era de dois craques que elevaram o patamar do jogo, mas também convidam a uma reflexão. Testemunhamos uma mistura de talento acima do normal com o efeito mais visível da globalização no futebol: concentração de riqueza e produção de abismos entre os bilionários superclubes europeus e seus desafiantes.
É verdade que as disparidades existem, em parte, graças à existência de Cristiano Ronaldo e Messi, tão grande é a capacidade técnica que agregam a seus times. Mas eles também se beneficiam do abismo. Têm à disposição um ambiente competitivo de que seus antecessores não desfrutaram. Vivem uma era em que boa parte das ligas europeias é uma sucessão de duelos desiguais. O Campeonato Espanhol de 2003-2004 foi o último que não teve Real Madrid e Barcelona juntos entre os três primeiros. Desde então, o abismo entre mais ricos e mais pobres se ampliou.
O paralelo entre Cristiano Ronaldo e Raúl é esclarecedor. O português precisou de 308 jogos para chegar a 323 gols pelo Real Madrid. Raúl o fez em 741 partidas. É possível argumentar que, claramente, Ronaldo é um goleador muito mais implacável. Mas os dois viveram realidades distintas. Nas 16 temporadas de Raúl pelo clube, o Real Madrid fazia, em média 74,4 pontos por campeonato. Nas seis temporadas completas com Cristiano Ronaldo, entre 2009 e 2015, a média foi de 92. O time marcava, por ano, 75,8 gols no Campeonato Espanhol entre 1994 e 2010, na “Era Raúl”. Chegou a 108,3 nos seis anos com Cristiano.
Mas a transformação já estava em curso. Raúl assistiu ao começo da “era galáctica” do Real Madrid, ao início da concentração de estrelas. Em seus últimos anos no clube, pela primeira vez viu o time fazer mais de 80 gols em três campeonatos seguidos. Em sua temporada final, a primeira com Cristiano Ronaldo no elenco, foi batida a marca de 100 gols.
Claro que Cristiano Ronaldo contribuiu de forma expressiva para tais números. Mas numa conjuntura amplamente favorável aos clubes globais, verdadeiras seleções internacionais. Num círculo virtuoso, ao concentrarem astros atraem fãs no mundo todo. Ao fazê-lo, vendem propriedades comerciais em escala global. Dinheiro atrai astros, que atraem mais dinheiro. E as diferenças se acentuam. Nas 16 temporadas de Raúl, nada menos do que 11 clubes diferentes terminaram o Campeonato Espanhol entre os três primeiros. Nos últimos seis anos, só quatro clubes o fizeram. Raúl chegou a ser sexto colocado em 1996 e quinto colocado em 2000. Viu cinco times diferentes ganharem o Espanhol. Exageros à parte, a previsibilidade na disputa do título deu a ligas europeias traços típicos de Estaduais pelo Brasil.
Messi também “se beneficia” desta realidade. Com 24 anos, já era o maior artilheiro da história do Barcelona. Em 2012, quebrou o recorde de gols num só ano ao marcar 91 vezes. Aos 28 anos, já é o maior goleador da história do Campeonato Espanhol. Em suas dez temporadas de Barcelona, o time somou 87,9 pontos por campeonato, contra 72,6 nos dez anos anteriores. Antes de Messi, a média era de 75,3 gols por torneio. Passou a 97,1 com o argentino.
Entre uma época e outra, Messi passou de promessa a um dos maiores da história. Mas o Barcelona também mudou. Após o sexto lugar em 2002-2003, Joan Laporta foi eleito presidente. Em seu livro “A bola não entra por acaso”, Ferran Soriano, então vice-presidente, conta que o clube percebeu que o futebol não ficaria imune aos efeitos da globalização. E que uma política agressiva na busca por estrelas seria a condição para ampliar receitas em escala global e entrar na restrita elite que nasceria.
A carreira de Cristiano Ronaldo também corre em paralelo à ampliação das desigualdades. E seus números refletem isto. Em seis temporadas no Manchester United, o português marcou 118 gols. Ou seja, apenas 36% do que marcou pelo Real Madrid, também em seis anos. O número de jogos por cada clube é quase igual: 292 na Inglaterra e 308 na Espanha.
— Desafio um treinador que consiga ganhar a Liga dos Campeões com o Porto e com maioria de jogadores portugueses — disse recentemente José Mourinho, hoje treinador do Chelsea.
Expressava a certeza de que a capacidade econômica de competir no mercado por jogadores de elite pertence a poucos. Camisas de peso como Benfica, Porto, Ajax e Milan, por exemplo, passaram as últimas temporadas conformados com ambições modestas. Campeão em 2004 com Mourinho, o Porto ousou chegar às quartas de final da última Liga dos Campeões. Após vencer o Bayern de Munique em casa, foi massacrado na Alemanha: 6 a 1. O campo expressou a disparidade econômica. Terceiro maior arrecadador do mundo, com receitas de €487 milhões na temporada 2013-2014, o Bayern apenas cumpria as expectativas contra um rival que recebia menos de um quarto deste valor.