Rio viu nascer cultura esportiva em meados do século XIX
Redação DM
Publicado em 2 de outubro de 2015 às 07:58 | Atualizado há 11 anosRIO, 2 (AG) – “Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter estes pulmões”, gabou-se Escobar a Bentinho, numa noite de ressaca no Flamengo, em 1871. De fato o protagonista de “Dom Casmurro” ignorava os prazeres esportivos, assim como parcela significativa dos seus contemporâneos cariocas. O amigo, por sua vez, estaria entre os pioneiros nadadores do Rio. Nas linhas de Machado de Assis, Escobar acabaria morto no mar no dia seguinte ao jantar em que exibiu seus dotes de atleta. Fora da ficção, àquela época, nascia uma cultura esportiva na hoje cidade olímpica.
A capital do Império que quase dobrou de população entre 1872 e 1890 (de 275 mil para 523 mil habitantes) tinha então ares de transformação que favoreceram a disseminação das práticas. Assim como a natação, o remo, o ciclismo e as corridas a pé (primórdios do atletismo) ganhavam espaço naquele momento, em que tais modalidades começavam a ser associadas às ideias de progresso e civilização. Mais tarde, no início do século XX, já na República, essas práticas se juntariam ao futebol, o basquete e o vôlei e ganhariam mais registros fotográficos, como os que se veem acima.
– Embora a estruturação do campo esportivo no Rio tenha se iniciado na primeira parte do século XIX, com o turfe, é na segunda metade do século que isso de fato se constitui. A cidade está aspirando a determinados símbolos de modernidade e mudando profundamente. Na política, há a estabilização das organizações governamentais. Na economia, deixamos de pagar dívidas que vêm do tempo da Independência e ocorre uma grande colheita de café. Na cultura, começamos a estabelecer vínculos mais próximos com a Europa, com o aumento das possibilidades de comunicação – enumera Victor Andrade de Melo, coordenador do Laboratório de História do Esporte e do Lazer da UFRJ.
Professor do Instituto de Geografia da Uerj e líder do Grupo de Pesquisa Megaeventos Esportivos e Cidades, Gilmar Mascarenhas de Jesus diz que foi preciso também a chegada de novas ideias:
– O Brasil enfrenta uma dificuldade particular no surgimento de uma cultura esportiva por conta da herança escravista. Atividades musculares eram associadas a pobres. Para mudar isso, foi necessária uma mudança de valores trazida com toda a atmosfera do que se chama de modernidade.
Periódicos da época contam os feitos dos atletas de vanguarda. Em 9 de março de 1881, a “Gazeta da Tarde” noticiava um desafio aquático realizado dias antes. Saudado como “o primeiro nadador” do Brasil, o comerciante Joaquim Antonio de Souza venceu o relojoeiro alemão Theodor John em travessia entre a ponta da Armação, em Niterói, e o Morro da Viúva, no Flamengo. O brasileiro percorreu seis mil milhas (quase dez quilômetros) acompanhado por embarcações miúdas. Interrompeu o trajeto apenas duas vezes, para se aquecer com conhaque. Após quatro horas, foi abraçado por uma multidão que o esperava com “phreneticos hurrahs”, relata o jornal.
– Os desafios eram incríveis e movimentavam a população. Todos tinham medo que os participantes morressem, afogados ou atacados por algum peixe – conta o professor.
O temor é explicado pela falta de intimidade que até então cariocas tinham com o mar. Ainda era recente a difusão dos banhos, sobretudo em águas salgadas, continua Melo:
– Conforme a sociabilidade na praia vai se desenvolvendo também começa a ser construída uma relação mais direta entre a prática esportiva e o desenvolvimento de saúde e higiene. A natação é um pouco herdeira do discurso, mas o remo é o primeiro grande esporte tributário dessa noção.
O esporte era praticado por homens ligados a novos negócios urbanos, sob influência inglesa, conta. É em 1851 que começam a ser realizadas com alguma regularidade regatas organizadas por clubes, na Enseada de Botafogo. Mesmo ocorrendo no mar, alguns eventos eram restritos a sócios, longe do litoral e dos olhos dos que não podiam pagar convites. O remo, como outras modalidades, ascendia com um mercado de entretenimento, em que elites e estratos médios depositavam seus réis. Outra diversão dispendiosa era a bicicleta, usada para passeios antes de tornar-se objeto central de animadas competições. Apelidadas de “cavalos de ferro”, elas eram importadas da Europa. Em 1892, é inaugurado Vellodromo Nacional, na Rua do Lavradio, no Centro. Seria o primeiro espaço voltado exclusivamente para a “velocipedia”, como chamavam o ciclismo.
– O esporte fez parte, de forma intensa, da constituição de uma identidade carioca e do discurso sobre o que é ser carioca. Não é uma prática fortuita, uma vez que define novos rumos do que vai ser a vida citadino – afirma Melo.
Já Jesus lamenta que embora mais de 160 separem os primórdios dos esportes no Rio dos Jogos Olímpicos, persistam lacunas no campo:
– O carioca não tem acesso ao esporte: os clubes sociais entraram em crise, poucas escolas possuem quadra, as universidades também oferecem pouco. Receberemos os Jogos sem fazer o dever de casa.