‘A Baía de Guanabara foi subestimada’, diz primeiro velejador a dar volta ao mundo
Redação DM
Publicado em 30 de setembro de 2015 às 05:11 | Atualizado há 11 anosEntre um cigarro e outro, o inglês Sir Robin Knox-Johnston, de 76 anos, monitora da Marina da Glória a chegada dos barcos da Clipper Race na Baía de Guanabara. Criador desta competição bienal que permite a velejadores sem tanta experiência darem uma volta ao mundo, o simpático marujo sabe que seu conhecimento sobre os mares é fundamental para o sucesso dessa aventura que dura 11 meses em um percurso de 64 mil quilômetros.
Sir Robin fica no Rio até quarta-feira, quando os 12 barcos da competição e seus 690 velejadores de 44 nacionalidades seguem em direção à Cidade do Cabo, na África do Sul. Até lá, ele se arrisca no português — obrigado, por favor, café e cinzeiro são algumas das palavras que já domina — enquanto se mostra bem à vontade em trabalhar de frente para a Baía de Guanabara, uma conhecida sua há 45 anos.
— Acho que não existe lugar mais lindo no mundo para realizar uma competição de vela. Entendo a escolha da Baía como um dos palcos do Jogos do Rio — diz Sir Robin, falando que será impossível despoluir o local até a competição olímpica de vela. — As autoridades subestimaram o problema de poluição na Baía. Faltou senso crítico (do Comitê Olímpico Internacional) ao aceitar um compromisso (por parte do governo federal do Brasil) de que seria possível limpar a Baía em tão pouco tempo.
Primeiro homem a dar uma volta completa ao mundo sem escalas e sozinho a bordo de um veleiro (1968-69), Sir Robin tem propriedade empírica para falar sobre a qualidade das águas. E sua opinião é bem parecida com a de seu amigo Skip Novak. Em artigo publicado na revista especializada Yatching World, o velejador americano diz que o COI foi ingênuo ao acreditar que os político brasileiros iriam deixar a Baía de Guanabara limpa para 2016.
“Está muito clara a falha do COI ao acreditar neles (políticos brasileiros) em primeiro lugar”, diz um trecho do artigo de Novak na revista.
promessas políticas
A despoluição da Baía é uma das maiores dores de cabeça para a Rio-2016. A promessa inicial era tratar 80% do esgoto que é jogado na Baía. A um ano dos Jogos, o governo do Rio admitiu que não será possível cumprir esta promessa e disse que a Baía já estava com 49% do esgoto tratado.
Em meio às promessas, o tempo corre: faltam 309 dias para o megaevento. Em seu artigo, Novak lembra que esteve pela primeira vez na Baía em 1978 e, desde então, escuta promessas de despoluição da água. Sir Robin também está acostumados a ouvir sobre essas propostas. Afinal, ele conhece a Baía há mais tempo que seu amigo americano.
— A primeira vez que cheguei no Rio foi em 1971. A água da Baía não era limpa, mas tinha uma boa visibilidade. Lembro de mergulhar para resgatar o relógio de um dos meus marujos. Lembro também que era carnaval e dava para escutar as músicas que vinham da rua — disse ele, cantarolando uma indecifrável marchinha.
Sir Robin recebeu o título da coroa britânica em 1995. Foi um reconhecimento real por suas aventuras pelos seis oceanos ao longo da vida (ele já deu três voltas ao mundo).
— Me apaixonei pelo mar aos oito anos. Desde então, minha vida é levada pelo espírito aventureiro desse menino de oito anos — diz o marujo.