Desativada 2

Cultura em segundo lugar

Redação DM

Publicado em 17 de setembro de 2015 às 19:35 | Atualizado há 11 anos

Walacy Neto

Em momentos de crise, como estes de agora, os cortes financeiros do governo se tornam cada vez mais rotineiros. E nessas situações de risco é preciso apertar o cinto forte e esperar o choque, ou ao menos é o que os pilotos do país dizem. Ouvir essa frase significa, a priori, um enxugamento nas pastas do Estado: agronegócio, defesa, publicidade, infraestrutura, cultura etc. Destas citadas, a primeira a sofrer qualquer tipo de corte é a área de cultura. No Brasil, provavelmente se entende que esta seja dispensável e já que tem que tirar dinheiro de algo, que tire da cultura, e por que não? Em julho deste ano, a presidente Dilma Rousseff (PT) optou por um corte de 20% no orçamento do Ministério da Cultura e meio que quebrou as pernas das ações aí pra frente. Nesses dias, o atual ministro, Juca Ferreira, chegou a comentar que tentaria entrar em contato com Dilma para “sensibilizá-la” e reverter o corte. Algo que até hoje não resultou em algo positivo.

A cultura, em alguns momentos, é tida como o modo de se realizar determinada ação. A produção de alimentos, a forma como estes são colhidos, os tratamentos medicinais e o que há de específico em uma sociedade que não seria encontrado em outra. Da cultura, vêm os trejeitos de uma sociedade, ou seja, como um grupo se porta de maneira específica frente a uma ação rotineira. Olhando assim parece se tratar exatamente da identidade, a cara do povo.
Com outro olhar por sobre, a palavra cultura também pode ser utilizada para citar recortes que definem práticas relacionadas às artes e às ciências humanas de cunho antropológico e social. Simplificadamente: por esse termo a cultura seria as expressões artísticas que revelam o interior do homem moderno, em meio à sociedade. Vale também citar que o estudo da cultura e o tudo que a envolve é muito mais “líquido” em relação a outras ciências como matemática, física etc. E tudo que não é compreensível assim, no preto sobre o branco, cria uma aversão.

Daqui

Em Goiás, os cortes nesta área não são menores em relação aos que vemos no resto deste país, mas ao contrário. A cultura, como um pé de cana, sofre verdadeiras mutilações quase que anualmente. Por aqui a prática dos editais de lei de incentivo é um pão e circo para os produtores culturais e artistas. Com várias e várias páginas, solicitando diversos documentos que na maioria das vezes o solicitante se desdobra para encontrar e não consegue. Estes editais são verdadeiros enigmas. Em outros Estados, a tendência parece ser diferente do que se vê por aqui. Enquanto em Goiás as discussões sobre a dificuldade de preencher o edital do Fundo de Cultura deste ano eram vocalizadas pelos artistas, na cidade de São Paulo o Itaú Cultural lançava mais uma edição do Rumos. A proposta da edição é justamente facilitar o processo para o solicitante, diminuindo páginas, eliminando processos e mantendo um contato próximo para que o projeto realmente se concretize.

Goiânia

Movendo o olhar do Estado para a capital (e deixando de citar o corte de 50% nos fundos do Fica deste ano), também é possível encontrar a cultura em segundo lugar e o resto na frente. Recentemente, a Secretaria Municipal de Goiânia (Secult-Gyn) divulgou os resultados do Concurso Público da Lei Municipal de Incentivo à Cultura e existe muito a se falar sobre. Um exemplo seria a forma que a Comissão de Projetos Culturais (CPC) julgou um dos festivais mais relevantes do cenário musical independente de Goiânia: o Noise. Na resposta à solicitação do projeto, fora marcado como “sem relevância cultural” um evento que já foi considerado um dos principais movimentos de música atual fora do eixo Rio-São Paulo.

De fato, o Noise deve ocorrer devido aos organizadores pretenderem produzir o festival de maneira 100% independente este ano. Não que os outros sejam projetos com qualidade maior ou menor que o Noise, no caso de cultura, sempre se está em segundo lugar. E assim, tentando mostrar que o buraco é mais fundo do que se imagina, uma das casas de shows mais frequentadas da capital foi fechada outro dia e os motivos que deram tal fechamento ainda estão vagos demais. Enfim, para o governo a cultura entra muda e sai calada e isso tudo em segundo lugar.

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