Ser soldado
Redação DM
Publicado em 26 de agosto de 2015 às 22:06 | Atualizado há 11 anosO uso do uniforme na Policia Militar, como de resto em todo instituição, atende a duas premissas básicas: primeiro, despertar nos integrantes o espírito de corpo, ou pertencimento como modernamente se diz. Assim, ao envergar um uniforme, não sou um indivíduo que atende, mas uma Corporação que se dispõe para um determinado fim. Segundo, o uniforme iguala a todos. A hierarquia existe por questão de organização e funcionalidade, mas somos todos funcionários cujo esforço se dirige para um mesmo fim, qual seja, o objetivo institucional.
Em 1984, ao me mudar para Goiânia com o fito de ingressar na Policia Militar, era um jovem de 17 anos com pouco mais de 53 kg. Vindo de uma pequena cidade do interior, me assustei com os ônibus que trafegavam pela avenida anhanguera. Ingressar na PM transformou minha vida. Fui preparado para as atividades inerentes à Corporação e, para isto, passei por intenso treinamento. As atuais gerações, gestadas no ceio da constituição cidadã, onde os direitos se sobrepõe às obrigações, muitas vezes não entendem a necessidade do preparo. Mas ser soldado é isto: é estar pronto para superar limites e fazer o que for necessário para se alcançar os objetivos de prestar o melhor serviço. Antes de continuar, quero esclarecer que não há aqui nenhuma defesa de excessos ou violência em nome do treinamento. Mas da superação e do conhecimento dos limites de cada um. Com responsabilidade e segurança. Mas com esforço e dedicação.
Nos meus 30 anos de serviço não soube de um único caso sequer, nem mesmo por ouvir falar, de policial que saia de casa pensando em cometer alguma arbitrariedade, crime ou na possibilidade de não voltar vivo para casa. Não são estes os pensamentos que nos dominam. O pensamento que temos, se é que os temos pois muitas das vezes agimos por memória muscular, é de que a defesa do cidadão é nosso sacerdócio. Assim, ao vestirmos nosso uniforme sabemos que deixamos de existir como pessoa, embora existindo em nosso interior, para nos tornarmos uma Corporação que defende a liberdade, a vida, o direito individual. Aí, o homem abdica de sua individualidade para atender ao interesse coletivo. Homem ainda, mas servidor; servo; serviçal.
A População Brasileira se sente cada vez mais abandonada. E é óbvio que, sendo a PM uma organização estatal está na bacia das almas das instituições desacreditadas. Compreensível isto, já que são vários os casos de desvios. Contudo, chamo a população para atentar para o seu policial. Seu modo de vida. Sua dedicação. Os casos de desvios, como disse, se destacam, mas não são maioria. Ao contrário, são ínfimos e ganham repercussão a partir do momento que as tragédias são noticias; os atos heroicos não. São rotinas ou obrigação. Desta forma, o cuidado de seprar o joio do trigo nos permitirá uma visão mais realista dos fatos.
Quero usar este espaço hoje para homenagear, em nome do dia do soldado, a todos os companheiros que envergam uma farda. Heróis anônimos, já que suas ações se dão em nome da instituição, que superam, a cada dia e a cada instante, limites para servir às pessoas de bem. Ser soldado é abrir mão do eu para compreender o que é ser “nós”. É expor a família para atender a um estranho. É não se envaidecer com as promoções e as bravuras. É cumprir o dever.
Em São Paulo, vem ocorrendo um fenômeno interessante: Algumas igrejas estão adotando os quarteis. Vão para seu interior, ouvem os Policiais; aconselham; orientam; auxiliam. Estendem uma mão amiga àqueles homens, lhes dedicando um pouquinho de atenção. Estão criando a verdadeira policia comunitária. Tratam todos como iguais e revelaram aí uma grande lição: no quartel, somos todos soldados.
(Coronel Avelar Lopes de Viveiros, comandante do policiamento ambiental de Goiás)