Brasil

Uma forma sofisticada de corrupção: as consultorias

Redação DM

Publicado em 10 de agosto de 2015 às 22:19 | Atualizado há 11 anos

A “Operação Lava Jato” vem explicitando uma maneira sofisticada de corrupção que sempre ocorreu nas empresas públicas do país: as consultorias. Outrora usados sob a forma de trabalho temporário no sentido de sanar lacunas que o trabalho burocrático do dia a dia não consegue suprir, os serviços de consultoria se configuraram uma forma de acumulação primitiva de capital. Muitos trabalhos de “consultores” se tornaram uma forma sofisticada de justificar o pagamento por serviços não prestados ou para dar legalidade à imoralidade.

Vale dizer que o uso e abuso das tais “consultorias” são muito comuns em empresas estatais e pouco comuns naquelas  privadas. Não preciso dizer que esses serviços, geralmente, custam uma enormidade para os cofres públicos. Na iniciativa privada, tempo é dinheiro e, por essa razão, quando esta faz uso de consultores, estes são rigorosamente acompanhados – e, lógico, os resultados cobrados.

A experiência de mais de 30 anos nesse mundo de faz de conta estatal possibilitou a este escriba distinguir os tipos de consultores de araque que se tornaram, na verdade, verdadeiros drenos de dinheiro público para bolsos privados. Vejamos alguns destes tipos:

1- O consultor caixa-dois

É o tipo de “profissional” contratado para executar trabalhos de milhões. Geralmente, esse vem acompanhado de inúmeros pacotes tecnológicos (computadores, softwares e hardwares das mais diferentes complexidades).

O estrago que tais “profissionais” deixam nas estatais é enorme. Primeiro, pelo que se paga; segundo, pelo resultado que se obtém. Uma maneira bastante comum de aumentar o estrago são os chamados aditivos contratuais, que se tornam um verdadeiro dreno de dinheiro público para bolsos privados.

2- O consultor muleta

Esse tipo de consultoria se destina a suprir a incompetência latente de “profissionais” com influência direta para contratá-los. Pessoalmente, conheci esse tipo de consultor. Eles, além de terem seus contratos eternamente prorrogados, nunca conseguem o resultado de seus trabalhos cobrados. Pasmem: alguns são desviados da função para a qual foram contratados para se tornarem uma espécie de office-boy (ou office-girl) bem-remunerados. E lógico: tudo pago pela ineficiência estatal.

3- Os consultores parentes

Os consultores parentes são aqueles com vínculos familiares dentro das estatais. São eles a face mais visível do Estado burocrático, do Estado que tem donos de que tanto nos fala o sábio Raymundo Faoro, no clássico que escreveu (leia-se: Os Donos do Poder). Nesse tipo de consultoria o Estado é apoderado pela família. Nesse caso, o dreno de dinheiro público para fins privados se dá na eterna prorrogação de contratos: 5, 10, 15… anos e por aí vai.

O problema de tais consultores é que, sendo seus “trabalhos” absolutamente desnecessários, tornam-se uma espécie de praga que mina a carreira dos profissionais da casa, tão ou mais habilitados para desempenharem os serviços de tais “consultores”.

Em âmbito macro, o preço a pagar fica para a sociedade. Um preço que se paga não só minando a capacidade de investimentos da empresa, mas tornando-a o que hoje é: um obstáculo ao crescimento do Estado. Será que, num ambiente privatizado, esse mundo de faz de conta das consultorias desnecessárias se sustentaria?

 

(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético, autor, entre outras obras, do livro Uma Falência mais que Anunciada. O Caso da Celg)

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