De volta às aulas e a qualidade do ensino
Redação DM
Publicado em 5 de agosto de 2015 às 21:58 | Atualizado há 11 anosO ser humano é essencialmente contraditório. Tem a informação do que é certo mas age pela opção errada. Não me refiro nesta reflexão aos desvios de conduta, à opção pelo crime. Refiro-me ao cotidiano, aos cuidados pessoais com a própria saúde. O elenco das contradições é grande. Vai desde a necessidade da atividade física, trocada pelo sedentarismo, aos excessos na alimentação, tanto do que é saudável, quanto do que não o é.
Há inúmeras explicações e justificativas que, sabe-se, são meras desculpas para aliviar o remorso que emerge dos abusos. Não se incluem aí situações extremas, como as de miséria e pobreza, nas quais a necessidade não dá espaço ao luxo de opção. Refiro-me àquelas em que as pessoas têm esse privilégio. Entretanto, fazem rotineiramente a opção errada. Certo e errado, aqui, sem maniqueísmo, mas de acordo com o resultado de pesquisas sobre o tema.
Quanto aos males do sedentarismo e do fumo, por exemplo, há unanimidade. Opiniões contrárias não devem ser consideradas porque são contaminadas pela ignorância. No caso do cigarro, apesar de proibido em lugares públicos, o vício – e o poder econômico de quem o produz – conseguiu espaços próprios, os fumódromos, onde os viciados aliviam essa necessidade, tão descontraidamente que os inimigos da Operação Lava Jato instalaram escutas nessa área esfumaçada da Polícia Federal em Curitiba (Veja, 20/05/2015).
Há outras situações mais comuns no cotidiano, que, apesar das evidências, inspiram polêmicas: as ofertas e o consumo de bombons, salgadinhos, refrigerantes, enlatados e empacotados. Impõe-se aí uma distinção entre os consumidores: adultos e crianças. Os adultos têm consciência dos riscos e podem assumi-los e às suas consequências. As crianças, não. São vítimas indefesas do consumismo. Dependem dos adultos. Especialmente de suas famílias, seus professores e, lamentavelmente, das autoridades públicas.
Sou daqueles para quem os professores deveriam ser profissionais muito bem remunerados. O maior salário de todos. São eles, com a família dos alunos, os que têm a responsabilidade de educá-los, de estimular-lhes valores morais, de abrir-lhes as janelas do mundo, propiciar-lhes a informação e os instrumentos necessários a sua busca, para seu aperfeiçoamento pessoal e profissional.
As escolas, portanto, públicas ou privadas, deveriam receber de quem as patrocina os investimentos necessários para garantir a excelência da qualidade do ensino. Lamentavelmente o que se vê no País não é nada disso. Exceções são apenas isso, exceções. O nivelamento se dá por baixo. Em vez de investimento para garantir escolas de qualidade para todos, o Poder Público cria cotas para reparar sua incompetência.
Somos um País de mal-educados. Não são só corruptos os que confundem o bem público com o privado. Há os que danificam, destroem e furtam bens públicos, arrancam bancos, postes, luminárias e adornos públicos. Telefones, cabines públicas e até estruturas de paradas de coletivos são levados sem cerimônia. O trânsito não é só uma mostra da ineficiência e da omissão do Poder Público. É, também, uma sucessão interminável de instantâneos da falta de educação.
Na porta das escolas, os pais dão, diariamente, um péssimo exemplo de desrespeito no trânsito. Dentro das escolas, desrespeitam professores que tentam disciplinar e corrigir a falta de educação de filhos criados para preservar o preconceito e o autoritarismo.
As escolas refletem as contradições da cultura. Ensinam (?) às crianças hábitos saudáveis, mas lhes oferecem ao consumo exatamente o contrário do que pregam. Na hora do recreio, o lanche saudável cede lugar às guloseimas, frituras e bebidas açucaradas. Não é propiciado e muito menos estimulado o consumo de frutas e bebidas saudáveis. Não há preocupação quanto ao fato de que os produtos ofertados aumentarão as taxas de açúcar e gordura no organismo das crianças e causar-lhes danos de difícil reparação, senão irreparáveis, desde estragos nos dentes até complicações cardíacas, sem falar nos efeitos deletérios sobre outros órgãos.
Alguns dirão que a criança tem o direito de escolher. É verdade. Mas os pais, a família, os professores e a escola têm a obrigação de educar. Quando a escola disponibiliza, oferece e estimula o consumo de alimentos que fazem mal à saúde está comprometendo seu discurso, sua confiabilidade.
Se os adultos não conseguem superar as tentações do consumo, imagine-se o quanto são indefesas as crianças diante da oferta e da propaganda implacável de sabores atrativos elaborados precisamente para seduzir tão vulneráveis e indefesos consumidores.
A volta à escola após as férias seria um bom momento para que todos recomeçassem a pensar sobre isso e mudassem esses hábitos. Em contrapartida os pais poderiam desenvolver sua criatividade nas festinhas de aniversário de suas crianças e substituir os bombons que oferecem, inclusive nas famosas lembrancinhas, por alguma coisa que corresponda a tudo que ensinam e que realmente querem para seus próprios filhos.
(Carlos Nina, advogado, juiz estadual aposentado, ex-promotor de Justiça, mestre em Direito Político e Econômico – Mackenzie-SP)