Quando o corpo se torna uma prisão
Redação DM
Publicado em 4 de agosto de 2015 às 22:41 | Atualizado há 11 anosNa segunda metade do século XIX, há exatos 153 anos, nascia na cidade de Leicester, na Inglaterra, Joseph Merrick, que ficou amplamente conhecido na sociedade britânica por possuir uma série de deformidades por todo o corpo. Sua aparência, desfigurada pela doença, obrigou-o a recorrer ao único trabalho que ofereceu-lhe meios de sobrevivência: a autoexibição em circos britânicos como atração nomeada ‘O homem elefante’. Atualmente, Joseph é conhecido principalmente por entusiastas do cinema, depois de ter sua história narrada no filme O Homem Elefante, de 1980, do aclamado diretor surrealista David Lynch.
As deformidades de Joseph começaram a surgir quando ele tinha apenas três anos. Perdeu a mãe aos 10 anos, e foi abandonado pelo pai após ter sido rejeitado pela madrasta. Sua paixão pela escrita e comportamento cortez levaram-o a conhecer duas pessoas que amenizaram o sofrimento de ser encarado como aberração. A rainha Vitória da Inglaterra, sua amiga pessoal, que se encantava em perceber a sensibilidade do ser humano por traz de tantas deformações; e o médico Frederick Treves, que ofereceu-lhe ajuda médica e abrigo permanente no Hospital de Londres, onde trabalhava.
A particularidade física de Joseph Merrick era tão impactante socialmente que fez com que toda a sua percepção de mundo e de si mesmo girasse em torno de sua aparência. Constantemente revelava ao doutor Treves sua vontade de viver em uma clínica para cegos, para que pudesse viver ao lado de uma mulher que não se importasse com sua aparência. Nas cartas que ele escrevia, ele utilizava de um poema do inglês Isaac Watts, que dizia: “De facto, a minha aparência é algo medonha, mas censurar-me é censurar a Deus. Pudesse eu recriar-me novamente, não te decepcionaria. Pudesse eu abarcar o mundo de polo a polo ou abraçar o oceano num amplexo, seria medido pela minha alma, a base da mente do homem.”
Quadro clínico
Apesar de causar espanto aos olhos das pessoas, tendo sua aparência a aberrações durante toda sua vida, a doença de Merrick não afetava de forma alguma suas capacidades mentais. A dificuldade de comunicação dele morava na dificuldade de movimentar os lábios com total eficiência. As tentativas de diagnóstico quanto ao quadro clínico de Merrick ainda são inconclusivas, mesmo tendo passado mais de 150 anos de sua morte. Acredita-se que apenas com o avanço das tecnologias médicas será possível chegar a uma conclusão precisa sobre o caso.
Entre as especulações, são citadas algumas patologias: a Síndrome de Proteus, que causa o crescimento exagerado da pele, e consequente acúmulo e a neurofibromatose, caracterizadas por lesões neurológicas e dermatológicas. Merrick também possuia deformidades ósseas. Uma de suas mãos tinha três vezes o tamanho da outra não afetada. A única parte de seu corpo completamente livre de deformidades eram os órgãos genitais. John Merrick faleceu aos 27 anos, enquanto dormia, por conta de seu pescoço não ter suportado o peso de sua cabeça, numa tentativa de dormir na possição que as outras pessoas dormiam.
Cinema
A vida de Joseph Merrick foi adaptada para o cinema em 1980, tendo como base as escrituras do médico Frederick Treves, The Elephant Man and Other Reminiscences. Com direção precisa do aclamado David Lynch, foi um sucesso de bilheteria e de crítica, tendo recebido oito indicações ao oscar (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (John Hurt), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino, Melhor Trilha Sonora e Melhor Direção). O papel principal foi executado por John Hurt, que precisava passar por 12 horas de maquiagem para adquirir o aspecto desejado.
Levado com muita seriedade, o projeto desviava-se completamente de intensões satíricas e cômicas, visando interesses biográficos e a reflexão sobre a importância dada a aparência, e o sofrimento causado por pré-julgamentos. Em várias passagens do filme podemos observar que a maioria das pessoas que destratava Merrick não imaginava que ele fosse capaz de ter sentimentos humanos. No site Filmow, o usuário Maurilio Batista, postou na página de comentários do filme suas impressões “a incapacidade do ser humano em lidar com diferenças e aceitá-las é o foco deste filme destaque para as interpretações magníficas de seus protagonistas”.