Política

Radicalismo de Aécio assusta serristas e alckministas

Redação DM

Publicado em 12 de julho de 2015 às 02:07 | Atualizado há 1 ano

Nem tudo são flores no PSDB. Reeleito presidente do partido e com controle quase absoluto na legenda, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) corre o risco de ficar falando sozinho em 2018. E isto já aconteceu antes. Em 2006 o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP)  atropelou o ex-ministro José Serra (PSDB-SP) tomando-lhe a vaga de candidato à presidente. Serra deu o troco e pouco apareceu na campanha. A cena se repetiria em 2010, com Alckmin devolvendo a gentileza, praticamente desaparecendo da campanha serrista.

Em 2014, tanto Serra quanto Alckmin estavam desgastados para o embate nacional e recolheram-se a projetos regionais, sendo o primeiro eleito governador para o quarto mandato e Serra retornando ao Congresso Nacional com o mandato de senador. Aécio, preterido por Serra em 2010 ascendeu com apoio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Disputou e quase venceu. Esta derrota apertada, permitiu que não descesse do palanque, mantendo uma campanha permanente contra a candidatura vitoriosa da presidente Dilma Rousseff (PT), que se estende até os dias atuais.

Quem conhece a fundo o PSDB, desde suas origens com Mário Covas, José Serra, Sérgio Motta e Fernando Henrique Cardoso sabe que o partido hoje é totalmente diferente daquele nascido em 1988, fruto dos ideais republicanos e progressistas que garantiram a promulgação da Carta Magna, definida pelo presidente da Câmara Federal à época, Ulysses Guimarães (PMDB-SP) como “Constituição Cidadã”.

Aécio reuniu ao seu lado jovens deputados como Nelson Marquezan Filho (PSDB-SC), que simplesmente não querem diálogo com o passado, ou como definem, não querem nada com “os velhos do partido”. São lideranças ávidas de poder e que dão pouca ou nenhuma atenção ao que dizem Fernando Henrique Cardoso, José Serra ou Geraldo Alckmin.

Na direção nacional do PSDB, além da presidência, Aécio conta com uma tropa de choque nos principais cargos, como a primeira-vice-presidência, com o deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP), o tesoureiro, deputado Rodrigo de Castro (PSDB-MG) e demais vice-presidentes, entre eles os deputados federais Bruno Araújo (PSDB-PE) e Mariana Carvalho de Moraes (PSDB-RO). Portanto, controle do partido Aécio tem. Militância entre as jovens lideranças, idem. O que Aécio não tem é votos para se eleger presidente. Mesmo com todo este controle da máquina partidária, sozinho Aécio não ganha 2018. A história recente mostra isto.

 

A fatura mineira

Aécio não fez o dever de casa. Perdeu feio em Minas Gerais as eleições para o governo do Estado e a presidencial, no primeiro e no segundo turno. Por que isto aconteceu? Relatos de tucanos mineiros dão conta de que Aécio simplesmente se distanciou de sua própria base em Minas Gerais. Um destes tucanos, que pede reserva temendo represálias do “fuher” mineiro, relata que Aécio Neves terceirizou o governo e o comando da política mineira para três elementos: sua irmã, Andrea Neves, que cuidava da relação do governo com a mídia e também das relações, digamos, não republicanas. No plano administrativo, quem tocava o governo era o secretário de Planejamento  Antônio Anastasia. A relação política com deputados estaduais, federais, prefeitos e vereadores  ficava sob a batuta do secretário de governo Danilo Castro, que era rivalizado neste papel pelo deputado federal Marcus Caetano Pestana.

Por indicação de Aécio, Anastasia se tornaria vice e depois governador. Andrea continuaria comandando a mídia nos dois governos de Aécio e também no governo de Anastasia. Pestana se tornaria secretário de Saúde e Danilo continuou operando as demandas políticas. O que não deu certo no final? Por que Aécio afinal, perdeu o governo de Minas e tomou uma surra como candidato à presidência? É que deixou de ouvir os companheiros de primeira hora. Seu grupo em Minas Gerais cindiu-se quando ele preteriu Danilo Castro e Marcus Pestana como candidatos à sucessão de Anastasia e trouxe de volta à política o ex-ministro e ex-prefeito de Belo Horizonte, Pimenta da Veiga, cuja última eleição que tinha disputado havia 26 anos, quando fora eleito deputado federal pela última vez. Pestana foi cuidar de sua reeleição e pouco fez por Pimenta, assim como Danilo que elegeu o filho, Bruno de Castro um dos deputados federais mais votados por Minas Gerais.

 

A conta paulista

Aécio Neves (PSDB) teve 6,8 milhões de votos a mais que Dilma Rousseff (PT) em São Paulo. O tucano somou 15.296.289 votos contra 8.488.383 da petista. E isto só foi possível porque o PSDB paulista se uniu, pela primeira vez em torno de uma candidatura. Apadrinhado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o senador mineiro somou aos seu palanque os votos dados a Geraldo Alckmin, que venceu as eleições para o governo, já no primeiro turno, e também os votos dados à eleição de José Serra ao Senado. Para se ter uma ideia, em 2002, Serra, que não teve o empenho do governador Geraldo Alckmin, perdeu para Lula em São Paulo, ficando com 9.073.187 votos contra 101.264.282 do petista. Em 2006, Alckmin venceu Lula apertado pelo placar de 11.696.938 contra 10.684.776. E, em 2010, a diferença pró-tucanos também foi pequena, com Serra recebendo 12.308.483 e Dilma, 10.462.447.

Pelos números dá para se ter uma ideia da inabilidade de Aécio no seu próprio quintal e da importância das lideranças paulistas para o futuro do PSDB. FHC, Serra e Alckmin deram quase sete milhões a mais de votos para Aécio que perdeu por mais de 500 mil votos em Minas Gerais onde Dilma Rousseff garantiu 5.979.422 votos contra 5.428.821 votos. “Aécio perdeu em Minas Gerais quando não conseguiu unir o partido no seu próprio Estado e corre o risco de perder de novo em 2018 porque não está garantida, ainda, a união  do PSDB ao seu projeto”, atesta um tucano de alta plumagem.

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O isolamento de Alckmin, Serra e Marconi

Sem o grupo paulista do PSDB, Aécio não vence sem São Paulo e corre o risco de perder de novo em Minas Gerais, onde o governador Fernando Pimentel faz uma boa gestão  administrativa e, politicamente, cuida de desmontar o legado aecista pedra por pedra.

Embora explícita minoria no diretório nacional, Alckmin e Serra ainda controlam postos-chave, O secretário-geral do partido, deputado federal Sílvio Torres (PSDB-SP) é alckmista, assim como o terceiro-vice-presidente, senador Aloysio Nunes é serrista, enquanto o segundo vice-presidente, o deputado federal Giuseppe Vecci (PSDB-GO) é marconista. Até que ponto, Alckmin e Serra e também o governador de Goiás, Marconi Perillo, pode confiar num governo liderado por Aécio Neves, quando os principais quadros que o cercam lhe são hostis. “Para os Aécio-boys, os novos deputados tucanos que cercam Aécio, desagrada a simples menção dos nomes de Alckmin, Serra, Fernando Henrique e de Marconi. Consideram que o tempo deles já passou. E Marconi, embora ainda jovem, é rotulado pelos aecistas pelo episódio da CPI do Cachoeira”, explica o dirigente tucano.

 

O grupo paulista

Assim como Serra foi cristianizado por Alckmin, e Alckmim foi cristianizado por Serra, Aécio pode ser isolado pelos dois.

Na origem do PSDB existiam, basicamente dois grupos. Um formado pelo governador paulista Franco Montoro, que seria depois liderado pelo governador Mario Covas, grupo este de caráter personalista, dadas as histórias de ambos, e outro, ideológico, comandado por elementos egressos da AP – Ação Popular, a esquerda católica dos anos 1960, formada pelo ex-presidente da UNE, José Serra, pelo sociólogo Fernando  Henrique Cardoso e pelo “trator” Sérgio Mota. No governo FHC, este triunvirato comandou a política do partido e consolidou as principais propostas que prevaleceram no governo e no Congresso Nacional durante os oito anos de mando tucano na presidência (1995-2002).

O legado de FHC-Serra e Serjão hoje é rejeitado pelos Aécio-boys e tem sido desmontando pela bancada que é hoje comandada pelo próprio Aécio, que induziu os parlamentares tucanos a votarem contra a reeleição e o fator previdenciário, projetos aprovados no período FHC. A radicalização faz os Aécio-boys aprovarem teses que seriam rejeitadas no tempo em que os tucanos verbalizaram ideias sociais-democratas, como o apoio maciço da bancada federal do PSDB à redução da maioridade penal. Que o diga FHC, que em seu governo instituiu o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), idealizado pela então ministra da Ação Social Lúcia Vânia. Aliás, esta pode ser uma das razões para saída da senadora de Goiás do PSDB, além de reclamações de Lúcia da pregação misógina de Aécio contra a presidente Dilma (e dizem contra ela própria em rodas de conversas tucanas).

 

Onde fica Alckmin?

Mas, onde fica Geraldo Alckmin? A qual grupo histórico ele pertence? Por incrível que pareça, o governador de São Paulo não constituiu um grupo próprio no PSDB.  Ele foi alçado candidato a vice-governador de Mário Covas, em 1995 por indicação de José Serra. O “médico de Pindamonhangaba”, que como deputado federal foi eleito com votos do interior paulista, nunca se preocupou em organizar a máquina partidária, tarefa esta que Serra, Sérgio Motta e outros elementos egressos da AP e do partidão (PCB) se ocuparam nas décadas de 1980, 1990 até o início do século XXI.

Para ser candidato a presidência, contra Aécio Neves, Geraldo Alckmin precisa do apoio de José Serra e do governador Marconi Perillo para enfrentar a hegemonia de Aécio Neves no PSDB. Ele leva a vantagem de ter nas mãos o segundo maior orçamento da República e poder reunir uma frente de governadores tendo como articulador Marconi Perillo, unindo à sua candidatura os demais governantes tucanos do Pará, Mato Grosso do Sul e Paraná. Se Marconi é jeitoso, no trato com os mandatários tucanos, Serra ainda é o nome que tem ascendência sobre os ideólogos tucanos. Preteridos pelos Aécio-boys este triunvirato pode tomar outro rumo em 2018. Se não suplantarem Aécio na máquina partidária, e conseguentemente, na indicação do partido como candidato a presidência, o trio pode “cuidar da própria vida” e deixar Aécio morrer na praia em 2018 quando seria derrotado numa virtual disputa com Lula, que faria o seu terceiro e último mandato,uma vez que a idade e a eliminação do instituto da reeleição, impediriam um quarto mandato do petista.

Aécio controla o PSDB, mas não controla os humores dos principais  expoentes do partido. Nada impede que Alckmin-Serra-Marconi se fechem em copas, com Serra sucedendo Alckmin no governo de São Paulo e este e seu colega goiano irem fazer dupla no Senado.

 

 

Radicalismo causa estragos

 

O discurso golpista de Aécio, incomoda os democratas do PSDB e já causa estragos naqueles que poderiam ser futuros aliados. Os Aécio-boys, ávidos de poder, empurram seu “fuher” para um discurso cada vez mais golpista e irresponsável, defendo a tese de deposição não somente da presidente Dilma, mas também de seu vice, Michel Temer, e convocação de eleições em 90 dias, quando Aécio seria eleito como salvador da pátria. Tal “atalho”, incomoda o PMDB, que controla a Câmara, o Senado e a vice-presidência, e também os partidos aliado ao Planalto, que têm no PSD do ex-prefeito Gilberto Kassab (SP) um dos principais expoentes. E, não custa lembrar, Kassab é amigo de José Serra e também de Luiz Inácio Lula da Silva.

Aécio, senador mineiro e morador do Leblon, que tanto gosta do mar e parece não ter aprendido as lições do tio-avô Tancredo Neves, corre o risco de morrer na praia, outra vez. Como profetizou o deputado federal Silvo Costa (PSC-AL), em discurso na Câmara Federal nesta semana, analisando o resultado da convenção do PSDB, “Aécio é o menino do Rio. Perdeu as eleições e foi chorar tomando um chopp em Ipanema”. Na avaliação dos democratas do PSDB, “Aécio está garantindo a reserva da mesma mesa para 2018”.

 

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