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Obama de olho na História

Redação DM

Publicado em 25 de junho de 2015 às 00:18 | Atualizado há 11 anos

WASHINGTON — Do ponto de vista político, a decisão da Suprema Corte é central na agenda do presidente Barack Obama para o restante de seu mandato, que termina em 21 de janeiro de 2017. Com o próximo ano dominado pela corrida presidencial, 2015 aparece como última fronteira para o democrata amarrar seu legado na Casa Branca. Com baixa popularidade — 51% dos americanos o desaprovam, contra 44% que o avalizam —, Obama não espera necessariamente colher frutos ainda comandante-em-chefe; está olhando para os livros de História.

A reforma da saúde foi o passo mais ambicioso na política de bem-estar social nos EUA desde a criação dos programas de ajuda aos mais pobres, Medicaid, e aos idosos, Medicare, pelo democrata Lyndon Johnson, nos anos 1960. Custou grande parte do capital político do primeiro mandato e a maioria na Câmara em 2010, quando o Obamacare animou o surgimento do Tea Party.

A implementação da lei foi problemática e há reveses. Como estabelece também padrões rígidos de cobertura, preços subiram em vários mercados, tanto de seguros quanto dos co-pagamento na hora de fechar a conta da consulta ou do hospital. A maioria dos especialistas alega, porém, que com o tempo a concorrência e o maior número de consumidores vão corrigir distorções e favorecer o consumidor.

O ganho corrente, porém, já é inegável: mais de 7 milhões de pessoas estão inscritas no mercado federal e mais de 10 milhões estão alistados pelos estados porque têm subsídios. Gente que antes não tinha seguro de saúde, especialmente americanos brancos e pobres do Sul. Isso abre outro caminho frutífero para os democratas, já que a região é hoje majoritariamente republicana. Além disso, quanto mais tempo passa, mais a lei se consolida, complicando planos da oposição de revertê-la.

O campo econômico é outro ao qual Obama se dedicou com afinco no último ano para colher resultados duradouros. Contra a maioria do Partido Democrata, ele avança bravamente no Congresso para conseguir, ainda esta semana, autorização para concluir as negociações da Aliança Transatlântica, com a Europa, e a Aliança do Transpacífica, com 13 países das Américas e da Ásia. Os acordos de livre comércio são considerados essenciais para acelerar a engrenagem da economia americana, a maior do planeta, e neutralizar a China.

Obama também vem se firmando, com o reconhecimento de organizações especializadas, como um líder atuante no meio ambiente. Comprou todas as brigas com os republicanos para cortar emissões de gases poluentes e aumentar a eficiência de produtos e energética nos EUA. Nos últimos seis meses, também fechou acordos com a China, a Índia e o G-7 visando à negociação internacional contra o aquecimento global que terá seu ápice na COP-21, conferência em Paris em dezembro.

O Brasil é parte desta estratégia ambiental. Na próxima terça-feira, a Casa Branca espera que Obama e a presidente Dilma Rousseff, que terão reunião oficial de trabalho, façam um pronunciamento sinalizando posições conjuntas para a Cop-21, com metas e compromissos. Se der certo, o democrata terá consolidado uma postura nova dos EUA, baseada na parceria, e alinhado os principais atores globais em mudanças climáticas.

Por último, como todo “pato manco” (termo utilizado nos EUA para presidentes na reta final de mandato), Obama tem grandes ambições na política externa. O primeiro capítulo do legado ele escreveu com a retomada das relações com Cuba, em dezembro. Além de remover barreira histórica com a ilha, ele refundou as bases de relacionamento com toda a América Latina.

Porém, sua maior tacada é a negociação de contenção do programa nuclear do Irã, que tem capítulo importante semana que vem. Dia 30 de junho acaba o prazo para a formalização, com todo o detalhamento técnico, do acordo avalizado pelas superpotências ocidentais, que pretende inviabilizar por ao menos uma década e meia a capacidade de Teerã produzir uma bomba nuclear.

É a parte mais difícil do legado que Obama pretende deixar. O presidente já disse que não aceitará qualquer acordo, mas há dúvidas sobre exatamente o que é aceitável para o seu governo — o que mereceu alerta de cinco ex-assessores, que enviaram carta a ele esta semana. O aiatolá Khamenei deu indicações há dois dias de estar voltando atrás em elementos-chave do acordo, complicando o tabuleiro do xadrez diplomático.

Uma vitória plena no caso do Irã parece mais distante ou apresentando uma fatura muito cara. No entanto, se Obama obtiver um acordo satisfatório para a maioria dos analistas, poderá ser lembrado no futuro como o presidente dos EUA que reconfigurou o balanço político do Oriente Médio. Não será nada mau para um comandante-em-chefe que, atualmente, tem imagem menos favorável do que a de George W. Bush — aquele que iniciou as guerras do Afeganistão e do Iraque.


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