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A CURA MORA NA DOENÇA

Redação DM

Publicado em 3 de maio de 2015 às 00:28 | Atualizado há 1 ano

 

 

Rariana Pinheiro,Da editoria DMRevista

Ela é muitas vezes confundida – erradamente – com tratamentos fitoterápicos (aqueles que usam as plantas medicinais) e estão sempre dividindo opiniões no meio científico. Sua eficácia já foi negada – mais recentemente em uma pesquisa do Conselho de Saúde Australiano. No entanto, é também defendida com resultados favoráveis por uma legião de profissionais da saúde. De quem estamos falando? Da homeopatia, claro. Sob constantes questionamentos, é o segundo sistema médico mais utilizado no mundo. Conheça um pouco mais sobre este universo.

Para entender a homeopatia é preciso saber que ela envolve também raízes filosóficas e até holísticas. E, seu tratamento trabalha sempre com as possibilidades naturais de cura do próprio organismo. Ela baseia-se ainda na chamada “Lei dos Semelhantes”, de Hipocrátes (tanto que a palavra homeopatia é de origem grega que significa doença semelhante). Assim, defende que as mesmas substâncias provocadoras das doenças também podem tratar seus sintomas.

Outra vertente muito utilizada na homeopatia é a de “analisar não só a doença, mas o doente”. Assim, leva em conta não apenas as queixas físicas, mas, principalmente, a forma que o paciente pensa, seus hábitos, predições familiares e até como a pessoa reage aos acontecimentos da vida. Dessa forma, ganha também características holísticas, por interpretar doenças e enfermidades, causadas pelo desequilíbrio da energia vital no organismo de quem as apresenta.

 

De onde veio

Estes conceitos podem – e devem – ser creditados ao médico poliglota alemão Christiano Frederico Samuel Hahnemann. Foi ele quem desenvolveu e criou a homeopatia há mais 200 anos. Contam que este homem andava descontente com os métodos terapêuticos agressivos empregados naquela época, em que métodos como as sangrias eram utilizados a revelia em tratamentos.

Descontente, ele abandonou a Medicina e se dedicou a traduções. Mas ao trabalhar no livro de Medicina chamado Matéria Médica, de Willian Cullen, o pesquisador logo volta a suas origens, pois ficou indignado quando o autor da obra atribuía o sucesso da quina no tratamento da malária pela substância ser amarga.

Curioso, começou a procurar suas próprias constatações sobre a substância. Como já conhecia o adágio “semelhante cura semelhante”, de Hipócrates, decidiu aplicá-lo à Medicina e ingeriu a quina para ver o que acontecia. Logo percebeu em seu organismo uma reação tóxica muito parecida com os sintomas da malária. E pensou: há uma semelhança entre a doença e o medicamento.

Dessa forma, sua conclusão foi que a quina atua na febre malária, porque doses desta desencadeiam sintomas similares da malária. E, comprovou na prática o que Hipócrates havia descoberto séculos antes: o mesmo agente que causa uma moléstia é capaz de curá-la. Assim lançou um dos pilares da homeopatia.

Entusiasmado, testou diversas substâncias e reuniu uma série de estudos minuciosos, com observações detalhadas de sintomas produzidos nas diferentes experimentações de seus amigos. Em 1805 retornou à prática médica, como homeopata, com o passar dos anos sua doutrina adquiriu muitos adeptos. Em 1810 editou seu livro básico Organon da Arte de curar, nesta obra expôs toda a sua teoria e métodos terapêuticos.

Já em 1811 publicou o primeiro volume de Matéria Médica Pura; passando a sua doutrina na universidade local. Em 1835, aos 80 anos, mudou-se para Paris, onde ganhou reconhecimento e glória e recebeu autorização oficial do governo francês para exercer a Medicina homeopática.

 

Por aqui

A homeopatia atravessou gerações e chegou no Brasil no dia 21 de novembro de 1840, por meio do médico francês Jules Benoit Mure. Por isso esta data se comemora, no País, o “Dia da Homeopatia”.

Neste País, é considerada como especialidade médica desde 1980, reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, tendo sido incluída no Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2006. O Reino Unido, França e Alemanha também usam a homeopatia em seus sistemas de saúde pública.

No entanto, medicamentos homeopáticos somente podem ser prescritos por médicos, veterinários e odontólogos, e ser manipulados ou adquiridos em farmácias sob a responsabilidade do farmacêutico homeopata.

 

Eficácia

Um estudo do Conselho Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da Austrália, publicado este ano, colocou novamente a homeopatia em situação desconfortável, pois dizia que o tratamento em questão não deve ser usado para tratar problemas de saúde crônicos ou graves.

“Pessoas que escolhem a homeopatia podem colocar sua saúde em risco se rejeitarem ou postergarem tratamentos para os quais há evidências de segurança e eficácia”, dizia o documento.

Por sua vez, em nota, a Associação Médica Homeopática Brasileira (AMHB) não se amedrontou e disse perceber a pesquisa como parte de um jogo de interesses, em que prevalece indistintamente em todos os setores da gestão da saúde. “Sentindo-se incomodado de alguma forma com nossa proposta terapêutica humana, eficaz e barata, vem à tona para denegrir esta prática e seus praticantes (médicos especialistas), além de reduzir à condição de ingênuos e ignorantes os milhões de indivíduos beneficiados pela homeopatia ao longo de seus 210 anos de prática”, rebateu a AMHB.

 

  • SAIBA MAIS

“Há tentativas de desacreditar a homeopatia”

É o que também acredita a médica Jeane Lustosa sobre a pesquisa australiana que colocou em dúvida os benefícios da homeopatia. Ela é especialista em pediatria pela Sociedade Brasileira de Pedriatria e Especialista em homeopatia pela Associação Médica Homeopática Brasileira e Associação Médica Brasileira. Em conversa com o DMRevista,  ela disse que o ideal seria que todos conhecessem todas as formas de tratamento e pudessem utilizá-las com critério. Veja a conversa a seguir:

 

DMRevista — O que a fez escolher também pela homeopatia?

Jeane Lustosa (foto) — Busquei a homeopatia há cerca de 30 anos, quando como pediatra percebia que algumas crianças viviam constantemente doentes e com infecções de garganta, infecções urinárias, etc. Elas melhoravam e voltavam a adoecer fazendo uso de antibióticos inúmeras vezes. Aí procurei fazer cursos de homeopatia. Pois a homeopatia faz uma abordagem diferente, porque visa estimular o sistema imunológico pelos caminhos que o próprio organismo percorre. Muitas vezes um paciente que está debilitado e tendo, por exemplo, infecções repetidas, com o tratamento homeopático, em grande maioria dos casos, a doença se torna menos frequente e desaparece. Mas tratamos o doente e não a doença.

 

DMRevista — Existe maior procura pela homeopatia. Que pacientes a procuram? São aqueles que já tentaram de tudo na Medicina convencional?

— A procura é grande e tem aumentado. Existem pais que possuem temor dos efeitos colaterais da homeopatia. E existem pais que a procuram, pois já tentaram de tudo da alopatia (termo criado por Samuel Hahnemann e se refere ao tratamento convencional). Tambem existem pais “naturalistas” que não querem a alopatia. É bom lembrar que, pelo próprio Estatuto da Criança, ela tem direito à melhor Medicina do seu tempo. Assim, há que ser ponderado e conhecer a Medicina, sabendo propriamente avaliar o que se aplica a qual paciente. Por exemplo, a alopatia evoluiu muito no controle da asma. Pode-se associar o tratamento homeopático não privando a criança de ambos os benefícios. O ideal seria se todos conhecessem todas as formas de tratamento e pudessem utilizá-las com critério.

 

DMRevista — A revista científica The Lancet publicou um artigo no qual disse que não existem provas de que os remédios homeopáticos funcionam mais do que placebos. Como os médicos que trabalham com a homeopatia veem este estudo?

— Por razões políticas, econômicas há tentativas de desacreditar a homeopatia, que no entanto é reconhecida no Brasil como especialidade médica. O “efeito placebo” ocorre também na alopatia e existem estudos que mostram que até 40% de cura podem se dever ao efeito placebo. No entanto, a homeopatia continua existindo há mais de 200 anos no Brasil. Recentemente fiquei assombrada com seu uso pelos franceses na Espanha em Portugal. Em Londres existe o hospital homeopático, o maior laboratório de homeopatia do mundo.

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