Garota do Rio
Redação DM
Publicado em 13 de setembro de 2021 às 12:12 | Atualizado há 5 anos
Anitta se internacionalizou. Na esteira do sucesso que o funk faz no exterior, tornando-se o gênero brasileiro mais escutado pelo mundo, a cantora carioca usou sample do clássico bossanovista “Garota de Ipanema”, composição assinada por Vinícius de Moraes e Tom Jobim, na música “Girl From Rio”: é com o single – entre batidas de trap, numa letra em inglês sobre “um Rio diferente”, o das comunidades, que está presente em sua vida – onde ela mostra suas reais intenções para um novo disco, ao que tudo indica de mesmo nome, a ser lançado nos próximos meses.
É certo que Anitta hoje virou um dos símbolos da música brasileira, e estabelecer comunicação com o público, seja pelas suas polêmicas ou criatividade, virou uma marca registrada dela. O novo clipe, apesar de contar com arranjos que passam longe de lembrar a estrutura harmônica pela qual nossa música é reverenciada lá fora, faz referências ao Rio de Janeiro. “Garotas gostosas, de onde eu venho, não parecemos modelos/ Marquinhas de biquíni, cheias de curvas, e uma energia que brilha/ Você vai se apaixonar pela garota do Rio”, sapeca a artista brasileira, nos primeiros versos. Sim, “Girl From Rio” é um grande clichê. E, se tocar nas rádios – ou qualquer playlist nas plataformas de streaming – pelo mundo, será passível de imaginar um gringo desavisado que não tenha qualquer conhecimento sobre música brasileira achando que o pastiche lançado em forma de single por Anitta represente de fato a brasilidade. Do vocal à letra, tudo ali soa aos nossos tímpanos como arapuca de estúdio que poderia ser composta para ser cantada por Justin Bieber ou Cardi B, por exemplo.
Em entrevista em maio à rádio Los 40, do Chile, a cantora brasileira disse que a bossa nova sofria preconceitos em seu início, assim como o funk também. “A bossa nova, antes de ser esse ícone do Brasil, sofreu muito preconceito por ser uma música urbana. Quando a bossa nova nasceu esse era o tipo de música urbana do Brasil. E sofria muito preconceito por conta de suas letras e sonoridade. É o mesmo que acontece hoje como funk”, afirmou Anitta, cujas redes sociais contam com postagens sobre personalidades da cultura brasileira, como a atriz Fernanda Montenegro.
Ou seja, há um esforço em divulgar o Brasil pelo mundo. O que, por si só, é louvável. No entanto, é preciso considerar um leve desencontro de informações históricas: a bossa nova, gênero musical da zona sul carioca, que teve João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes como principais expoentes, era vista pela crítica como uma evolução do samba que, mistura ao jazz americano, revolucionou os padrões da MPB até então. Vale sacar os acordes e a batida imprimida por Gilberto em “Chega de Saudade”, uma das composições célebres do movimento bossanovista.
Quem sofreu o mesmo preconceito foi o samba. É aí que encontramos certa semelhança entre com o funk. Para conquistar público ao redor do mundo, Anitta dispensou os parâmetros de brasilidade da música com a qual se tornou figura de sucesso na indústria fonográfica. Se é possível encontrar em “Girl From Rio” uma estética parecida com “Vai, Malandra”, a estrela brasileira encontrou no Rio de Janeiro o trampolim que lhe impulsionou para o estrelato, lugar em que ela se sente – é verdade – confortável. E onde, agora, encontrou para a história ao se apresentar ontem no VMA.
A premiação, uma das mais importantes do universo pop, contou com uma performance da brasileira justamente de seu single que tem como pretensão levar o Rio para o mundo. Com “Girl From Rio”, foi a primeira vez que uma cantora brasileira subiu ao palco do MTV Video Music Awards. Ela ainda fez propaganda para uma rede de fast food que patrocina o prêmio, que tem um lanche vegano e livre de aditivos artificiais cujo nome é Anitta e Larissa Machado e será vendido nos EUA.
DOCUMENTÁRIO
Em dezembro do ano passado, “Anitta, Made In Honorário” chegou ao Netflix com o status de chocar a caretice ao mostrar uma cantora que abaixava a calça jeans diante da câmera para o farmacêutico lhe aplicar nas nádegas, sempre como manda as diretrizes do funk, com a bunda devidamente empinada, uma injeção de corticoide. Num Brasil obscuro e conservador, ao estilo da terra do sem fim comandada por Jair, Anitta não tem culpa dos seus escândalos, um tanto divertidos, que envolvem – meu Deus do céu! – beijar a boca de um homem e uma mulher simultaneamente.
Para quem quiser acompanhar um pouco a carreira da cantora, os bastidores estão em detalhes, muitas vezes com certo quê de crueldade. Com um compromisso com o retrocesso nos costumes e na civilização também, “Made In Horário” pode perturbar os mais comedidos. “Dei pra muita gente, mas porque é bom, não pra conseguir favores”, dispara a artista, no filme. E há espaço para dramas, infelizmente comum numa sociedade patriarcal e machista, como o estupro: “Da minha vontade e necessidade de ser uma mulher corajosa, que nunca ninguém pudesse machucar.”
Se Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Jobim, Mutantes, Jorge Ben Jor e Michel Teló arrebataram multidões em shows internacionais, é com Anitta que a nossa música – agora – será exportada para o exterior. E não há nada demais em optar por dispensar as tradições da canção brasileira em detrimento de uma roupagem, digamos, mais palatável – ou, por que não?, pop. Anitta, vamos dar nossos braços a torcer, conseguiu essa façanha, e o mundo é dela Ou melhor, o funk é a música brasileira mais exportada lá fora, e somos a sociedade que mais ouvimos nossa própria música. Talvez nem lembremos daqui dois ou três anos de “Girl From Rio”, mas a verdade é que na gringa a faixa deve ter seu público cativo. E isso há de valer alguma coisa.
‘Girl From Rio’
Cantora: Anitta
Duração: 3 minutos e 53 segundos
Gênero: Funk, trap ou pop
Disponível nas plataformas de streaming