Tratamento de criança com paralisia cerebral é impedido pela fronteira com a Argentina
Redação DM
Publicado em 20 de julho de 2021 às 14:25 | Atualizado há 5 anos
Octavio Gabriel Gorosito Mattos tem somente quatro anos de idade, mas já venceu inúmeras batalhas. Desde os dois meses de idade, o menino argentino faz fisioterapias em Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, em busca de qualidade de vida contra múltiplas lesões cerebrais.
O pequeno e os pais moram em Porto Iguaçu, na Argentina, cidade que une o país ao Brasil, pela Ponte Tancredo Neves. No entanto, a fronteira está fechada por conta da pandemia há quase um ano e meio.
Segundo a mãe Camila Vanesa Mattos, o menino tem sido impedido de fazer o tratamento na clínica que fica a poucos quilômetros de onde vive.
De acordo com o G1, o veículo aguarda retorno do Itamaraty para esclarecer o motivo da criança não ter autorização para entrar no Brasil.
“Octavio tem paralisia cerebral severa. Não fala, não anda e não se comunica. Ele fazia reabilitação neuromotora na clínica de Foz do Iguaçu. Não era de graça, mas em Porto Iguaçu não existe esse tipo de tratamento, só em Posadas, que fica a 300 quilômetros de distância, e ele não pode viajar tanto porque tem convulsões. Então, o lugar mais próximo é Foz do Iguaçu, que fica a 20 minutos.”
O governo Argentino ainda não divulgou uma previsão para a reabertura das fronteiras terrestres entre os países.
A mãe do pequeno ainda revelou que após mais de um ano solicitando passagem à embaixada da Argentina, recebeu autorização para sair do país pela Ponte Tancredo Neves.
No entanto, a liberação não foi concedida pela embaixada brasileira, pois a Argentina não permite o livre trânsito de moradores de cidades-gêmeas durante a pandemia.
“Espero que entendam e saibam que é a vida de uma criança que não tem muitas expectativas desde que nasceu, pois temos lutado para superar diagnósticos e prognósticos. Agora estamos incapacitados pela desumanização e falta de empatia de um país, ao qual apenas pedimos para nos deixar entrar”, disse a mãe.
O veículo ainda entrou em contato com as embaixadas argentina e brasileira e aguarda resposta sobre a liberação.
A fisioterapeuta Márcia Cristina Dias Borges, que acompanha o caso de Octavio desde bebê, alertou que o tratamento semanal é essencial para a qualidade de vida do menino.
Octavio fez a fisioterapia na clínica pela última vez em 12 de março de 2020. A falta de estímulos por muito tempo, faz o corpo voltar a ficar rígido e regredir seu desenvolvimento respiratório.
“O Octavio está vivo por nossa causa, pois eu vi esse menino praticamente morrer lá na clínica quando chegou para mim, então ele é a nossa vitória. Eu não consigo, não entra na minha cabeça, de que pode acontecer alguma coisa com ele por nós termos sido impossibilitadas de ajudá-lo por uma simples fronteira fechada”, contou.
“Não estamos pedindo ajuda financeira, apenas humanitária! Não queremos que o Brasil pague pelo tratamento, só queremos poder cruzar a fronteira”, afirmou a mãe.
A fisioterapeuta ainda explicou as lesões cerebrais foram consequência de um parto complicado, que demorou muito, no qual Octavio teve uma parada cardiorrespiratória.
“Ele ficou em processo de ressuscitação por muito tempo e aí, por conta disso, o cérebro dele não recebeu oxigênio adequado. Ele fez múltiplas lesões cerebrais e com isso também tem microcefalia.”
Márcia informou que, após o fechamento da fronteira, começaram o tratamento por teleatendimento, mas como a fisioterapia neurofuncional e cardiopulminar são muito específicas, não foi possível permanecer com o atendimento a distância.
Sem saída
Segundo Camila, a família não sabe mais o que fazer, as duas opções da embaixada brasileira são inviáveis.
“O Brasil não autoriza a entrada de argentinos. A embaixada argentina no Brasil, que está no Itamaraty, nos disse que a única opção é mudarmos para Foz do Iguaçu. Mas isso é impossível, porque vivemos em Porto Iguaçu”.
Após receber autorização da embaixada argentina, a família tentou ir para Foz do Iguaçu. A equipe da clínica esperou pela criança com cartazes de boas-vindas e comemoração, no entanto, não conseguiram passar pela fronteira.
Camila e o marido já foram vacinados contra a Covid-19. E esperam que a burocracia seja deixada de lado, que priorizem salvar a vida do Octavio.
“Nos sentimos frustrados por saber que não podemos dar ao nosso único filho o que é mais essencial para ele, para a qualidade de vida dele.”
Entrada no Brasil
A entrada de estrangeiros no Brasil está sendo regulada pela portaria da Casa Civil da Presidência da República e dos Ministérios da Justiça e Segurança Pública e da Saúde.
O Itamaraty informou que a fronteira entre Brasil e Argentina está fechada para pessoas que fazem tratamento no Brasil por causa da portaria em vigor. Os casos autorizados em razão de saúde são situações excepcionais em que o ingresso precisa ser autorizado especificamente pelo governo brasileiro.
Sendo assim, nessa situação, deve haver um pedido feito por nota verbal pela Embaixada da Argentina em Brasília.
A família de Octavio mostrou todos os contatos feitos com o Itamaraty, especificando como questão humanitária, conforme indicação da portaria em vigor. No entanto, de acordo com a mãe, o retorno foi negativo para autorização excepcional.
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