Brasil

O ópio do título

Redação DM

Publicado em 18 de maio de 2016 às 03:17 | Atualizado há 10 anos

Na última quinta-feira fui a Morrinhos a fim de ouvir o depoimento do mano Alaor na Academia Morrinhense de Letras, em cumprimento do programa Memória Viva que a entidade instituiu. No quilômetro 546 da BR-153, passei alguns minutos na Pamonha Felicidade, ali estabelecida desde 1951, justamente o ano em que vim da minha cidade para Goiânia para dar sequência aos estudos e tentar ingresso no Jornalismo. É a mais antiga de Goiás e creio que do Brasil. Passou de pai para filho em 1977. Da inicial e exclusiva produção de pamonhas passou gradativamente para variedade de produtos e hoje disponibiliza permanente excepcional estoque de doces, queijos, requeijões, biscoitos, pamonha de doce, pamonha de sal e pamonha de sal com linguiça e pimenta. Arrisco-me a acrescentar um etcétera.

A parede frontal às portas da entrada tem um quadro em destaque com uma camisa do Vila Nova. Pergunto a um moço atendente se o dono é vilanovense.  Ele responde que sim e acrescenta: “Eu também”. E orgulhoso: “somos campeões da Série C !”.

Esse orgulho do jovem aficionado do futebol me desperta a lembrança desse fenômeno característico do torcedor brasileiro:  não importa a qualidade do futebol que se joga, o que importa é conquista de título, mesmo que este não seja expressivo, e, em certos casos bastante frequentes, seja até fajuto.

O futebol brasileiro é no momento uma espécie de segunda divisão do futebol mundial.  No entanto, até hoje o torcedor do Atlético Mineiro vive a cantar de galo pela conquista – na base da mais pura sorte, diga-se –  desse produto de marketing que é a tal Libertadores da América. Todo são paulino não se cansa de se proclamar tricampeão mundial, por ter ganho três vezes a competição que geralmente em Tóquio é anualmente disputada entre os vencedores do Torneio da UEFA e da própria Libertadores. Ora, essa competição está tão longe de significar grande coisa que até o Olímpia do Paraguai foi o seu ganhador e por duas vezes vice-campeão. Aliás, uma prova de que a Libertadores não é também grande coisa: o próprio clube paraguaio foi campeão dela por três vezes – isto é, é tão tricampeão como o São Paulo, título que tanto orgulha, como dito linhas volvidas, a torcida do tricolor paulista.

Outra prova de que título não exprime qualidade, sendo em grande parte uma enganação, é o caso do Santa Cruz de Pernambuco. Estava na Série D quando, há dois anos, se sagrou campeão pernambucano. E neste ano ganhou não só a Copa do Nordeste quanto o mesmo certame estadual, com isto retornando à Série A do futebol brasileiro. Há dois anos, o Ituano foi campeão paulista, vindo a ser um fracasso em todas as competições posteriores. Em 2013, o Flamengo, surpreendentemente, porque vinha amargando sucessivos reveses, ganhou a Copa do Brasil, com a vitória final de 1 a 0 sobre o Cruzeiro. Logo em seguida sua torcida sofreu durante várias rodadas do campeonato brasileiro o amargor do espectro do rebaixamento. A conquista da Copa do Brasil lhe valera participar da Libertadores, mas seu time era tão fraco que já na terceira rodada se viu eliminado da competição sul-americana.

Tudo isto é consequência das gravíssimas falhas que avassalam o futebol brasileiro, tema para vários outros artigos.

 

(Eurico Barbosa, escritor, membro da AGL e da Associação Nacional de Escritores, advogado, jornalista e escreve neste jornal às quartas & sextas-feiras – E-mail: [email protected])

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia