Brasil

Educar uma criança e domar ou adestrar um burrinho é a mesma coisa

Redação DM

Publicado em 16 de maio de 2016 às 21:49 | Atualizado há 10 anos

Eu começo este artigo com algumas questões  que são no mínimo provocativas ou apelantes para a capacidade pensante e crítica de cada um. No concernente à educação, será que educar significa ausência de limites? Será que educação rima com domação? Educar uma criança, um adolescente seria semelhante em seus efeitos e resultados no ato de  domar um animal irracional?

Vamos começar pelo mundo dos irracionais. Para quem é oriundo do meio rural, vive ou tem alguma atividade no campo sabe bem do que se quer dizer. Vamos imaginar uma cria qualquer, um burrinho, um potro, um bezerro. Como se consegue adestrar, amansar ou domar um desses filhotes (  seres em desenvolvimento)? Quem conhece sabe. Este processo se faz com atitudes e manobras no sentido de refrear, de conter todos os reflexos e instintos selvagens desse animal em crescimento, em formação física e instintiva. Penso ser esta uma questão consensual.

Vamos tomar o cavalinho como exemplo. Na domação desse chucro e arredio bicho, o adestrador adotará que estratégias? Literal e metaforicamente com o uso de freios, no uso de comandos, de gestos, de cabrestos, de rédeas, de arreios, de exercícios físicos;  e até  recompensas pelas etapas aprendidas. E todas essas atitudes se fazem à exaustão, repetidamente. O sucesso dessa domesticação e amansamento se faz com a persistência do domesticador (educador).

O processo de domesticação ou domoção de um animal irracional significa o que? O refreamento, a contenção dos impulsos agressivos, da rebeldia, dos instintos primitivos e selvagens do animal.

Trazendo tais princípios para o comportamento humano. O que é educação? São todas as estratégias preconizadas no sentido do desenvolvimento físico, orgânico, funcional, intelectual e moral aplicadas à criança e adolescentes com vistas ao seu aprimoramento como pessoa racional e dotada de alto potencial de inteligência.

Se compararmos o processo educacional do indivíduo humano com o animal não há muita diferença; o que torna os humanos diferenciados dos animais são a razão e inteligência altamente elaboradas em relação aos irracionais. Mas, todos nascemos com instintos de agressividade, rebeldia e rusticidade de um potro, de um asno ou cachorro.

A educação humana não se pode encerrar em apenas uma formação intelectual, na transmissão de conhecimento, em desenvolver aptidões e instrução da criança e adolescentes, mas primeiramente e sobretudo em estabelecer limites, com freios morais e éticos, à semelhança do que se faz na doma e amansamento de qualquer irracional. Todos; os humanos, o potrinho, o burrinho nascemos animais. Nascemos com muitos instintos, reflexos e pulsões de mesma natureza dos irracionais, com potencialidades para o bem, para gestos virtuosos e generosidade. Ou ao contrário com a mesma energia para o mal, para os vícios e toda forma de egoísmo e vilania. Uma educação norteada por regras, disciplina, freios morais, ensinamentos  cívicos e éticos é que vai fazer a diferença. Ninguém nasce sabendo virtudes. Ela deve ser ensinada e exercitada, ensina Aristóteles.

Melancolicamente, a julgar pelo que temos assistido nestes tempos modernos, de tantas mídias digitais e de tantos apelos ao consumo de futilidades ,fica no ar e em suspenso a grande questão: que educação é essa recomendada às nossas crianças e adolescentes nesses tão propalados tempos modernos ? Ao que parece, os pais, educadores e psicólogos perderam-se nesses tempos e termos  do tudo pode , do  é proibido proibir,  do abaixo as nãos!

Crianças, adolescentes e jovens perderam o respeito, a generosidade e a continência diante dos pais, dos idosos e professores. Que evolução  e modernidade são  essas, quando não há mais limite de comportamento?

É certo que nascemos animais! Mas, não temos o direito de deixar nossos filhos, crianças e jovens crescer e viver como animais. Com uma educação de regras , respeito e disciplina à maneira dos tempos pré-virtuais , das escolas e famílias da pré-Internet podemos fazer jus aos atributos que orgulhosamente portamos de animais superiores, inteligentes e racionais.

É  possível que construamos filhos melhores;  com isso deixando pessoas melhores para  um mundo melhor, governado por gente melhor, mais humanas, educadas, mansas, pacificas e civilizadas.   maio/2016.

 

(João Joaquim, médico e articulista do DM – www.drjoaojoaquim.com  [email protected])

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