Brasil

Os classificados e os sem classe

Redação DM

Publicado em 12 de maio de 2016 às 02:26 | Atualizado há 10 anos

Uma das ocu­pa­ções per­ma­nen­tes da hu­ma­ni­da­de é a clas­si­fi­ca­ção das coi­sas. Por­que de fa­to es­se ex­pe­di­en­te dos hu­ma­nos fa­ci­li­ta a co­mu­ni­ca­ção, o en­ten­di­men­to e com­pre­en­são de nos­sa pró­pria exis­tên­cia. Ali­ás, tal ma­nei­ra da re­la­ção en­tre os se­res e ani­mais ini­ciou lá no Éden , quan­do Deus deu no­me aos bi­chos. Os ma­mí­fe­ros, os an­fí­bi­os, as aves, os ir­ra­ci­o­nais, os rép­te­is e as­sim em fren­te.

Nós ho­mens e mu­lhe­res fo­mos clas­si­fi­ca­dos de ra­ci­o­nais. Darwin e seus se­gui­do­res ado­ta­ram os ter­mos ap­tos, e mais ap­tos, os mu­tan­tes e não mu­tan­tes, adap­ta­dos e de­sa­dap­ta­dos  e as­sim até o fim do mun­do.

Por fa­lar em se­gui­dor, olha aqui uma clas­si­fi­ca­ção dan­tes , de sem­pre e que  ago­ra  ga­nhou ener­gia e cor­po na era da hi­per­mo­der­ni­da­de. Des­de a an­ti­gui­da­de tí­nha­mos os se­gui­do­res de Abra­ão, de Moi­sés, de Con­fú­cio, de Bu­da. Nas­ceu o sal­va­dor e pas­sa­mos a ter os se­gui­do­res de Je­sus Cris­to. Já em tem­pos da era in­dus­tri­al ti­ve­mos os se­gui­do­res de Sta­lim, de Mus­so­li­ni, de Hit­ler etc. Te­mos aqui no Bra­sil os se­gui­do­res de um Edir Ma­ce­do, de Lu­la, de um Pres­tes, de um Us­tra, de um Bol­so­na­ro.

Na épo­ca da hi­per­co­nec­ti­vi­da­de, vol­ta­mos aos tem­pos dos se­gui­do­res. São aque­les que de for­ma inin­ter­rup­ta (to­dos on-li­ne e gru­da­dos nas mí­di­as) acom­pa­nham os clas­si­fi­ca­dos ído­los, he­róis, ex­po­en­tes des­se e ou­tro seg­men­to so­ci­al, pro­fis­si­o­nal e dís­pa­res  se­to­res des­se mun­dão de meu Deus e de to­dos os hu­ma­nos. E aqui à gui­sa de al­guns des­ses fi­lões de ído­los e he­róis po­de­mos lem­brar os ído­los e he­róis, que  por  al­guns di­as ou  mes­es se pas­sam co­mo tais, de al­gum  BBB da Re­de Glo­bo, e re­a­lity shows de ou­tras emis­so­ras; de al­gum ga­lã da no­ve­la das 21:00 ho­ras; de al­gum cra­que mi­li­o­ná­rio do fu­te­bol; de um can­tor ser­ta­ne­jo ou funk etc. Ou se­ja; o que não fal­tam são os se­gui­dos e se­gui­do­res. Os “ami­gos” e usu­á­rios das re­des so­ci­ais sa­bem mui­to bem o que se­ja ser se­gui­dor des­sas e ou­tras per­so­na­li­da­des.

Por fa­lar em clas­si­fi­ca­ção, da ma­nia dos seg­men­tos da so­ci­e­da­de ci­vil em clas­si­fi­car as coi­sas e pes­so­as, eu não pos­so omi­tir-me nu­ma no­mi­na­ção de gen­te. Ela sur­giu na hi­per­mo­der­ni­da­de. To­dos já ou­vi­ram fa­lar na cha­ma­da ge­ra­ção X; tal clas­se X re­fe­re-se àque­las pes­so­as nas­ci­das an­tes de 1980. Mais es­pe­ci­fi­ca­men­te an­tes da in­ter­net. Eu por exem­plo. Nas­ci nes­sa le­va de pes­so­as. Em meus tem­pos de co­lé­gio, te­le­gra­fia e da­ti­lo­gra­fia eram aqui­si­ções de lu­xo. Te­le­fo­ne fi­xo era re­cur­so da bur­gue­sia e in­di­ca­dor de sta­tus so­ci­o­e­co­nô­mi­co. Res­pei­tar os pa­is e mais ve­lhos era edu­ca­ção vin­da do ber­ço.

Quan­ta di­fe­ren­ça dos clas­si­fi­ca­dos de úl­ti­ma ge­ra­ção (de que fa­lo já). Ho­je te­le­fo­ne ce­lu­lar é ob­je­to des­car­tá­vel. O jo­vem mo­der­no po­de ter quan­tos nú­me­ros, de qua­is ope­ra­do­ras de­se­jar. De ca­da nú­me­ro se com­pra um chip no ca­me­ló­dro­mo. Não há ne­nhum con­tro­le de qual­quer ór­gão go­ver­na­men­tal. O nú­me­ro de ce­lu­la­res ul­tra­pas­sou em mui­to o de ha­bi­tan­tes. O IB­GE já de­sis­tiu de con­tar. Vi­rou pi­ra­ta­ria na­ci­o­nal. Com a in­ter­net veio a clas­se da ge­ra­ção Y. São os nas­ci­dos en­tre 1980 e 1990. Ini­ciou-se a tur­ma ou ga­le­ra dos co­nec­ta­dos. No co­me­ço era a so­ci­e­da­de dos in­ter­nau­tas, dos chats, dos ami­gos do Orkut e dos  e-mails. Os jo­vens Y, ain­da o são, 25 anos a 35 anos, ain­da li­am ou di­gi­ta­vam men­sa­gens, tro­ca­vam idei­as por con­fe­rên­cias e chats on-li­ne etc.

Com a eclo­são das re­des so­ci­ais, a par­tir dos anos 2000, sur­giu uma no­va clas­se de pes­so­as, a ge­ra­ção Z. Se al­guém lem­brar de ze­ro não es­tá de to­do er­ra­do. Z tam­bém de zo­ar, de aza­rar, de zo­ei­ra.  Mui­tos jo­vens da ge­ra­ção Y mi­gra­ram pa­ra Z; ha­ja aza­ra­ção.

As tão mas­si­fi­ca­das re­des so­ci­ais; fa­ce­bo­ok,  what­sApp,  twit­ter e ins­ta­gram; são as que de­ram azo e asa à ge­ra­ção Z. Se a ge­ra­ção y foi a res­pon­sá­vel pe­lo cha­ma­do in­ter­ne­tês, a Z en­ter­rou es­se di­a­le­to. To­da a co­mu­ni­ca­ção ago­ra é au­dio­vi­su­al. Nin­guém mais di­gi­ta, te­cla ou lê.

Tu­do se re­su­me a um to­que. Só áu­di­os e ima­gens pa­ra tu­do. Se­rá que vi­rão ou­tras ge­ra­ções. O pi­or é que aca­ba­ram as le­tras do al­fa­be­to. Bom! Po­de-se re­co­me­çar Z1, Z2…..

O que re­ma­nes­ce de cer­to e me­ren­có­rio é que os atri­bu­tos dos jo­vens X se tor­na­ram al­go ca­re­ta e mo­ti­vo de mo­fa e des­pre­zo pa­ra a ga­ro­ta­da e jo­vens clas­se  Y e Z. Vi­ve­mos tem­pos on­de fi­lhos man­dam e es­car­ne­cem dos pa­is e pro­fes­so­res, quan­do não os agri­dem mo­ral e fi­si­ca­men­te, se jul­gam no des­plan­te de ter pri­vi­lé­gios, de ter os me­lho­res per­ten­ces da mo­da co­mo tê­nis, co­mi­das das me­lho­res e rou­pas de gri­fe. Ci­vi­li­da­de , ci­da­da­nia, es­tu­do e tra­ba­lho  pas­sam lon­ge de seus ide­ais. Pa­re­cem mes­mo um ze­ro à ma­nei­ra co­mu­nis­ta. Maio/2016.

 

(Jo­ão Jo­a­quim, mé­di­co, ar­ti­cu­lis­ta DMwww.drjo­ao­jo­a­quim.com  jo­ao­jo­a­quim@drjo­ao­jo­a­quim.com)

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