O grande golpe
Redação DM
Publicado em 11 de maio de 2016 às 02:33 | Atualizado há 10 anos
Pelos dicionários, golpe tem vários significados. Não interessam os significados de impacto, pancadas e outros vários sinônimos. Com o sentido de “golpe político”, também não se chega a um acordo. Quem é contra o impeachment da Presidente Dilma, que é minoria, dirá que trata-se de flagrante “golpe” contra a democracia. Para os que são a favor do impeachment, que constitui maioria dos brasileiros, nada há “golpe”. Ninguém muda o pensamento de ninguém, enquanto uma parte da população fica perplexa, observando o que acontece e irá acontecer.
Mas o “grande golpe” que aqui se pretende comentar é outro, não percebido pela maioria da população, e que irá produzir efeitos a longo prazo, talvez em dez anos. Trata-se da fuga de jovens “superdotados” que deixam o País por falta de opções para desenvolver suas potencialidades, procurando outros países onde possam encontrar campo propício para suas idéias. Isso ocorre de maneira quase que imperceptível, mas de forma contínua.
O Brasil tem excelentes cientistas já na idade adulta, que se destacam em vários setores, valendo citar, entre outros, as pesquisas realizadas na busca de curas para determinadas doenças, notadamente “vacinas”. Esses abnegados heróis não têm condições de abandonar o trabalho, apesar da falta de incentivo e descaso do poder público, porquanto já tem raízes plantadas com famílias constituídas. Esquecendo os adultos de lado, o “grande golpe”, diz respeito aos jovens superdotados.
Mesmo entre aqueles que, por razões várias, não deixam o País, é difícil encontrar um jovem que, apesar de não ser superdotado, queira seguir a carreira política. Político é entendido como sinônimo de “mau caráter”, embora não se possa generalizar. Isto porque, embora minoria, existem políticos decentes. Raciocinam os jovens que abraçar a política seria envolver-se em corrupção. E nenhum jovem que pretende um trabalho idôneo e constituir família almeja um futuro de conseqüências imprevisíveis. Como resultado, não existe sangue novo na política, e sim verdadeiras múmias, que ao se aposentar nas atividades deixam os cargos políticos como herança para parentes. O que existem de políticos filhos de velhos políticos chega a estarrecer.
A fuga de superdotados acontece, e muito, entre pesquisadores. Os que no Brasil permanecem, apesar das adversidades, são idealistas que por um sentimento de patriotismo enfrentam todos os aspectos negativos. Pesquisa é um trabalho a longo prazo, e pode acontecer de não se obter resultados positivos. Mesmo que isto ocorra, a pesquisa foi desenvolvida, não se podendo exigir que sempre alcance os resultados buscados.
Na evasão, embora existam razões políticas e religiosas, o fator econômico é preponderante. Com a crise econômica que assola o País, o número de desiludidos aumenta gradativamente. Pode-se dizer que a ideologia política tenha alguma influência, embora mínima. A falta de apoio estatal é a principal causa. Não há investidamente satisfatório no setor de pesquisas, e como conseqüência prossegue a fuga de cérebros que buscam melhores condições, com laboratórios bem montados que permitem a busca da verdade, tanto para o bem como para o mal. Para a ciência não se deve questionar dogmatismos religiosos nem ideologias. O resultado da falta de política adequada resulta em um sociedade pobre de idéias, o que acontecerá a médio e longo prazo. Aliás, pode-se dizer que já está acontecendo.
Um outro lado da questão é a possibilidade de jovens que tem seus sonhos frustrados voltarem seu potencial para o mal, envolvendo-se em drogas e outras atividades ilícitas, o que não raro acontece com aqueles que buscam alguma forma de competição, ou disputa, para realizar alguma coisa, normalmente além de suas competências ou habilidades, procurando superar obstáculos considerados instransponíveis. Vale citar, como exemplos, os denominados “haquer” que usam a inteligência para o mal, não porque são maus por natureza e sim em razão de não encontrar espaço disponível para a desenvolver a prática de boas ações. O que importa para eles, em primeiro plano, é o “desafio”.
O problema é tão grave, a longo prazo, que não se pode focar apenas nos chamados “jovens prodígios”, mas também em alguns verdadeiros garotos na idade. O descaso da falta de política para os superdotados irá resultar um País cada vez mais pobre de idéias.
Voltando ao início deste artigo os comentários aos “golpe político” continuam: é golpe afirmam uns, não é golpe dizem outros. E o Brasil como um todo cada vez mais vai para o buraco. A população está totalmente desnorteada, e não se sabe até onde vai chegar tantos desmandos. Enquanto isto, em Goiás, os bandidos da OAB Forte, apesar dos inúmeros crimes praticados, continua impunes e a OAB omissa.
(Ismar Estulano Garcia, advogado, ex-presidente da OAB-G0, professor universitário, escritor)