Irmãos difíceis
Redação DM
Publicado em 29 de janeiro de 2016 às 23:38 | Atualizado há 10 anos
Maurício foi visitar um parente difícil.
Lá chegando, encontrou-o resmungando, enquanto almoçava alcoolizado, como sempre.
– O que deseja aqui? Falou, ao recém-chegado ao que este respondeu:
– Ia passando por aí, e vim saber se você está bem, se precisa de alguma coisa.
E João bradou, enquanto comia:
– Não preciso de você e de ninguém da nossa família!
O visitante ficou calado e sereno.
Conhecia de sobra aquele primo inutilizado pelo álcool, e dele escutava acusações e ofensas com a mesma naturalidade que se estivesse recebendo louvaminhas ou abraços.
– Você é metido a ser o bom da família, não é? Falava o doente. Todos o respeitam, hein? Pois eu lhe digo: você é ridículo, farsante, idiota! Um palhaço!
Levou outro bocado à boca e, mastigando, bradava furiosamente, contrariado com a serenidade do parente:
– Esse imbecil não presta nem para reagir! E ordenou: vai embora! Nunca precisei de você nem quero precisar!
– Está bem, João… Até logo. E saiu, calma e tranquilamente.
Foi aí que a esposa do infeliz, que a tudo assistira, falou-lhe:
– João, você bebe tanto que chegou mesmo a se esquecer de que faz oito anos que não trabalha! E durante todo esse tempo, de onde você pensa que tem saído dinheiro para manter essa casa e as nossas crianças?
– Você não lava roupa o dia inteiro? Indagou o marido.
– E o que ganho dá, acaso, para tanta despesa? E você não se lembra de que todo dinheiro que ganho na lavação de roupa tenho que dá-lo a você para custear a sua pinga, evitando, assim, que peça na rua ou que roube?
O homem ficou enfurecido. Mas temia a esposa, que sabia se defender.
– Então, de onde vem esta comida? E mostrou o prato que retinha na mão.
– Dele! E as roupas que vestimos e o aluguel da casa, e os remédios das crianças, tudo, enfim!
Ao ouvir estas explicações, o marido inflou-se de íntima contrariedade, franziu a testa e despejou, com palavras acres e medidas, o ácido cruel das suas mais doentias insinuações contra a esposa:
– É ele quem nos dá tudo?
– E você não sabia?
E João maldosamente:
– O que o faz ser tão generoso conosco? E carregou a palavra generoso, fitando a companheira com aquele olhar de suspeita e indagação, como se pretendesse referir-se a um segredo que ele simulava desconhecer.
A bondosa mulher percebeu o veneno sutilmente adicionado àquelas palavras, mas fingiu nada entender, para evitar contrariedades, e respondeu, forçando naturalidade.
– Ele sabe da nossa pobreza.
– E tira proveito disso?
– O que ele recebe em troca é só ingratidão. Ela disse.
– Só? E ironizou: ele está bem recompensado…
A mulher se retirou com a tranquilidade das almas nobres…
Das almas que não são atingidas pelo que vem de baixo, assim como se fossem aves de potentes asas, que nunca são atingidas pela agressividade dos homens.
Os pusilânimes, ébrios e doentes da alma, habituados, somente a ferir corações com a lâmina da calúnia, e a jogar, nas atitudes alheias, um pouco da lama interior que trazem, assim procedem sempre…
E o fazem, às vezes, conhecendo a inocência de suas vítimas: dominados pela inveja, pelo orgulho, pela humilhação que sentem nesses instantes, ou simplesmente pelo sadismo e demais torpezas da alma.
Outros, ainda, o fazem acreditando nas suas mais absurdas insinuações, baseados nas suas conclusões retorcidas e precipitadas.
Todos eles, no entanto, são credores da nossa paciência, do nosso entendimento e do nosso perdão.
Enfim: não sabem o que fazem. É isto.
(Iron Junqueira, escritor)