Uma luz na história
Redação DM
Publicado em 29 de janeiro de 2016 às 22:53 | Atualizado há 1 ano
Ainda sobre a publicação do livro Uma Luz na História, da escritora Nina Tubino, voltamos à sequência do mencionar nomes de goianos olvidados na obra, se bem que isso não tira os méritos do hercúleo trabalho da escritora gaúcha, brasiliense de coração.
Já citamos vários nomes nesse espaço, mas outros nomes advirão. Hoje apresentamos a síntese biográfica do deputado João D’Abreu, autor do épico discurso Nova Capital para o Brasil, proferido na Assembleia Constituinte de 1946.
Destaque-se o fato que o deputado João D’Abreu, nascido em Taguatinga e forjado prócer político em Arraias, foi membro Sindicato dos Jornalistas do Rio de janeiro e também da Associação Goiana de Imprensa.
Sua amizade com Jaime Câmara foi muito acentuada. Registra-se que havia fundado um periódico em Arraias, “A Bigorna”, antes de atuar como deputado em Villa Boa.
Alguns leitores, em contato com a editoria do DM, manifestaram desejo de saber mais sobre o deputado joão D’Abreu. Daí porque publicamos a sua biografia do livro da escritora Maria Cavalcante Mertinelli, de saudoa memória.
JOÃO D’ABREU –A SAGA DE UM LÍDER
Fragmentos do artigo escrito no Jornal do Tocantins – 30 de junho a 1º de julho de 1995 pela biografa de João d’Abreu: Maria Cavalcante Martinelli.
Ex-governador de Goiás de 9 de agosto a 9 de setembro de 1937, nascido em 4 de julho de 1888, João d’Abreu, líder político tocantinense que é citado pela Enciclopédia Delta Larousse, completaria, agora, 97 anos se não tivesse falecido, em Goiânia, em 27 de outubro de 1976. Natural de Taguatinga, João d’Abreu fez o curso primário em Arraias e concluiu os estudos secundários na cidade Goiás. Foi prefeito de Arraias de 1912 a 1913, após haver se diplomado em odontologia pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1911. Mais tarde, ele bacharelou em ciências jurídicas e sociais pela Faculdade de Direito de Goiás, em 1937, pela qual foi professor de ciências das finanças e economia política, sendo seu diretor substituto em 1941.
Eleito para a Assembleia Constituinte de 1946, João d’Abreu seria deputado federal de 1946 a 1958, sendo eleito vice-governador goiano em 1958, cargo que ocupou até 1960. Atuou como presidente da Comissão Parlamentar da Amazônia, foi membro do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro e da Associação Goiana de Imprensa, além de ter fundado o periódico “A Bigorna”, em Arraias, na primeira vez em que foi chefe do Executivo municipal. Presidente do Conselho de Administração do Banco do Estado de Goiás de 1963 a 1966, João d’Abreu encerrou a sua longa militância política como prefeito de Arraias de 1968 a 1972. A partir daí permaneceu como um interlocutor arguto, um conversador brilhante, uma testemunha viva e um sábio conselheiro para aqueles que o procuravam em sua casa da Alameda Botafogo, em Goiânia, até a sua morte em 1976.
Em vida João d’Abreu recebeu muitas homenagens, mas uma ele guardou com carinho especial até o fim dos seus dias. Foi à homenagem que recebeu quando completou 83 anos e que foi realizado e promovido pelo empresário e jornalista Jaime Câmara. A homenagem foi prestigiada por grandes números de familiares, amigos, políticos, jornalistas e intelectuais de Goiás. O falecido desembargador Maximiano da Mata Teixeira fez um discurso que marcou pela emoção com que foi proferido.
João d’Abreu foi vizinho do jornalista Jaime Câmara, na cidade de Goiás, onde cimentaram e solidificaram uma amizade que perdurou por longos anos. Ele admirava a capacidade empreendedora de Jaime Câmara, reconhecida a relevância de seu trabalho jornalístico e sua dedicação em prol do desenvolvimento de Goiás. João d’Abreu dizia que a amizade com Jaime Câmara era “guardadea como joia do nosso escrínio de ouro”.
Uma prova da profunda amizade que unia o veterano político e o jornalista é que Jaime Câmara, em uma época de difícil acesso ao antigo Nordeste Goiano, se deslocou de Goiânia para Arraias, no final da década de 60, para ser paraninfo de formatura dos ginasianos do Instituto Nossa Senhora de Lourdes. João D’Abreu, na época, era o prefeito de Arraias e se sentiu gratificado pelo gesto do amigo em prestigiar a sua cidade e incentivar a juventude de sua região.
João d’Abreu foi uma das lideranças que batalharam pela construção de Goiânia, de Brasília e a criação do Estado do Tocantins.
João d’Abreu, líder carismático, catedrático, parlamentar e executivo, tocantinense da melhor gema, citado na Enciclopédia Delta Larrousse, completaria 97 anos, na próxima terça-feira, dia 4, caso estivesse vivo. Tijoca, como era conhecido entre os íntimos, nasceu em Taguatinga, começou encerrou sua carreira política como prefeito de Arraias, depois de ser governador, vice-governador, parlamentar, professor universitário e articulista dentre suas inúmeras atividades. Batalhador pela construção de Goiânia e de Brasília e um dos pioneiros da causa tocantinense, João d’Abreu permanece vivo na memória como um batalhador de melhores dias para o povo tocantinense.
João d’Abreu, político ético, humanista convicto, professor emérito, batalhador pela construção de Goiânia e pelo erguimento de Brasília e lutador incansável para carrear recursos, abrir as coisas e melhorar as condições de vida da região que hoje é o Tocantins, caso estivesse vivo, teria completado 97 anos, na próxima terça-feira, dia 4 de julho. Ele não viveu até o momento de se consolidar a luta libertária do povo tocantinense como a criação do seu Estado. Mas, como cidadão do antigo norte goiano, João D’Abreu, foi um digno escudeiro de Teotônio Segurado pela luta de toda uma vida em prol do desenvolvimento do que é hoje o Estado do Tocantins.
O tempo é o senhor implacável das mudanças e também do esquecimento. Os mais moços poderão indagar quem é João D’Abreu? É um homem cuja vida é uma saga em prol de uma causa que abraçou e da qual nunca se afastou um palmo até o fim de sua vida: é de ser um apóstolo do serviço, do bem e da justiça de seus conterrâneos. É um cidadão que nada quis para si, mas com para o seu povo, os nortenses, atuais tocantinense, com os trabalhos de sua longa e fecunda existência. É um homem que se sensibilizou com os problemas do seu povo pelo qual lutou até a exaustão de suas forças físicas e intelectuais. Desapareceu a sua forma física, mas permanece como um monumento o registro das obras do líder carismático, do grande “sertanejo nortense”, que pontificou no seu tempo, incapaz de acumular riquezas, distribuindo com os que lhe vinham bater às portas os seus proventos de servidor público, parlamentar e professor.
O pioneirismo de João D’Abreu, em defesa da criança do Estado do Tocantins é sobejamente conhecido. Inicialmente, na Assembleia Legislativa de Goiás, onde jamais deixou de advogar os interesses daquela zona. Já em discurso pronunciado na sessão parlamentar do dia 11 de julho de 1935, salientava a vastidão daquele território ocupado por 21 municípios por onde afluem dois grandes caudais: Araguaia e Tocantins de que são tributários outros rios que se prestam à navegação e cujo o povo é desprovido dos menos benefícios da civilização.
Ao reivindicar emendas do Estatuto Público do Estado de Goiás, em prol do Norte, colocou esta alternativa: “Não há outro caminho a seguir… ou ampará-lo; trazê-lo à comunidade do sul… ou perdê-lo. Os estados limítrofes já fazem as suas investidas para absorvê-los.”
Cita ainda, o vaticínio do Visconde de Taunay, que antevia o Estado de Goiás deparado em duas zonas distintas, com possibilidade de progresso para ambas: a do sul, usufruindo da prosperidade de São Paulo e a do norte por meio da navegação dos grandes rios, Tocantins e Araguaia.
Carreira
A carreira política de João D’Abreu começou como intendente Municipal (hoje prefeito) de Arraias (1911), seu primeiro cargo eletivo, foi todo ele um crescente de conquistas à medida que o eleitorado que soube conquistar, conduzir e conservar, não o decepcionava, sufragando-lhe o nome em três pleitos Federais consecutivos, além de mandatos estaduais e municipais, até a conquista do cargo de vice-governador, por votação direta. Na época, ele foi indicado por todos os partidos políticos militares no Estado e considerou a sua candidatura e eleição como uma maneira de continuar o seu trabalho em prol da sua gente e da sua região.
Em discurso de posse do cargo, disse: “Seremos de agora em diante, o vice-governador e a bancada nortense um só bloco, um organismo, uma força viva e coesa em torno das reivindicações de nossa gente… Nossa bandeira é o Norte – nossa luta só tem um sentido: torna-lo melhor, transformá-lo de região subdesenvolvida e carente de tudo num centro produtor em um núcleo irradiador de progresso e de civilização.”
Já na Assembleia Legislativa de Goiás em 1936, como Constituinte teve atuação meramente não só como parlamentar dinâmico e operoso, mas como vice-presidente da Casa. A agitada sessão de destituição do Presidente do Poder Legislativo, na cidade de Goiás, em 1936 e, posteriormente, a mudança do Órgão para a nova capital, Goiânia, marcaram positivamente, o seu mandato de deputado.
Aquele episódio foi descrito, com muita propriedade, pelo acadêmico Jaime Câmara em sua consagrada obra – Os Tempos de Mudanças convertendo-se aquela memorável sessão de 29-09-36, em marco consolidador de Goiânia e confirmando a sua autêntica liderança no meio parlamentar. Dirigindo o Poder Legislativo soube conduzi-lo com segurança, realizando um trabalho fecundo e profícuo. Coube a ele, na qualidade de presidente, transferi-lo para a nova Capital, conseguindo instalá-lo em prédio próprio construindo em prazo recorde de 60 dias, à Avenida Tocantins, esquina da Rua 12, centro, onde hoje funciona a Loteria do Estado de Goiás. A primeira reunião, da 3ª sessão ordinária da 1ª Legislatura da Assembleia Legislativa, realizou-se na nova Capital, no dia 15 de Abril de 1937, presidida pelo deputado João D’Abreu.
Investido das funções de presidente do Poder Legislativo, como tal, substituiu o governador Pedro Ludovico Teixeira que se deslocaram para o Rio de Janeiro, onde permanecida por algum tempo, tratando de assuntos do Estado, em agosto de 1938. Os atos oficiais praticados pelo governador em exercício, deputado João D’Abreu, se restringiram ao expediente de rotina.
Com o fim do Estado Novo regime de exceção comandado por Vargas, retornou o país a pleno regime democrático, constituindo-se os três poderes da República. Eleições à vista, novamente o eleitorado nortense foi conclamado a comparecer às urnas em defesa do nome de João D’Abreu. E certamente, os eleitores do norte não o decepcionaram, elegeu-se deputado à Constituinte Federal de 1946, com expressiva votação e, por mais duas vezes, em pleitos consecutivos dentre as ações desenvolvidas por ele, no Congresso Nacional, destacam-se:
1 – A permanência na nova Constituição, de um mandamento autorizativo da transferência da Capital Federal para o Planalto Goiano e, em cuja Comissão de mudança da Capital, como membro nato, bateu-se ardorosamente pela causa, oferecendo emenda para fixação dos prazos e que aprovada, fixação, passou a figurar no art. 4º da 3ª Constituição brasileira.
2 – Membro da Comunicação de Valorização da Amazônia batalhou pela criação do Banco da Amazônia e a implantação de suas agências em Goiás.
3 – Defensor ardoroso da inclusão, na Constituição, de um órgão permanente, encarregado de trazer os benefícios do Plano de valorização da Amazônia até o paralelo 13, conseguiu ver realizado seus esforços com a criação da SPVEA.
O então deputado Siqueira Campos, hoje governador do Estado do Tocantins pela segunda vez, discursando em homenagem póstuma a João D’Abreu, na sessão do Congresso, nos 13 de setembro de 1977, em Brasília, ressaltava a liberdade dele, assim: “Sua atuação parlamentar ficou marcada indelevelmente pela obstinada luta em prol da interiorização da Capital do Brasil…” Naquela sessão discursou, também, deputado Iturival Nascimento do MDB goiano, recebendo apartes de colegas de outros estados que eles se associaram nesta justa homenagem. Juntamente com Jalles Machado de Siqueira, Alfredo Nasser, Wagner Estelita Campos e Benedito Vaz, um dos baluartes da transferência da Capital para Brasília. E igualmente um dos pioneiros do Tocantins.
Obras para o
Tocantins
Discursando por ocasião da inauguração do Hospital São João Batista, em Taguatinga, para o qual consignou verbas orçamentárias no Congresso Nacional e incrementou a sua construção e instalação, na sua cidade natal, ele mesmo enumerou os benefícios trazidos à outrora região nortense, hoje Tocantins.
Atuando em todos os municípios da região, deixou em cada um deles a marca de sua passagem com a preocupação de não ter realizado o que desejava como dizia em discurso: “O que temos feito é muito pouco diante do que deve ser feito. É apenas uma pequena parcela da nossa grande dívida para com o Norte, de onde somos filhos…”
Teve a sua atenção voltada para o homem nortense, para o sertanejo lavrador, o garimpeiro, o comerciante, estudante e professor, religioso e leigo, a todos eu foram alvo dos seus cuidados, sempre com o fito de canalizar algum auxílio para as regiões de origem. Daí, então, o motivo da sua preocupação em dotar os municípios, as pequenas comunidades ou núcleos populacionais, da região nortense para onde não só carreou verbas, auxílios ou benefícios, propiciando melhoramentos às pequenas povoações, como incentivo e promovendo a aplicação das verbas, com o seu apoio material e sua obstinação.
Consignou verbas no orçamento da União destinadas a: escolas e colégios, paróquias e hospitais, entidades filantrópicas, asilos, postos de saúde, agências postais telegráficas, cooperativas, estradas pontes, campos de pouso, energia elétrica e água encanada, clubes e incentivos aos esportes, casas de religiosas, e orfanatos, postos agropecuários e clubes agrícolas e escolas rurais, além de preocupar-se com os recursos humanos qualificados que conseguia trazer para a região: médicos, professores, juízes de direito, promotores, construtores e comunidades religiosas para a direção de colégios que conseguiu fundar e instalar em cidades do então setentrião goiano: Arraias, Taguatinga e Dianópolis, todas, hoje, no Estado do Tocantins.
Luta pelo babaçu e Cooperativismo Apaixonado pelo sistema cooperativista, nele inserido como Diretor do Departamento de Assistência ao Cooperativismo – Deac – e preocupado com o baixo padrão de vida do povo nortense a quem ele prometera ainda nos verdes anos de sua juventude, dedicar toda sua vida, procurando colaborar para a sua recuperação e integração social, via nestas condições, o meio de explorar aquela oleaginosa – o babaçu – e melhorar as condições de vida de seus coestaduanos.
Por mais de trinta anos empunhou esta bandeira, empenhando-se nesta causa através de ações, palestras, conferências, entrevistas, relatórios, discursos no Parlamento, ora dirigindo o órgão estadual, ora fundando cooperativas em municípios goianos.
Fundou, em 1948, com vistas à exploração do babaçu e à valorização do homem rurícola, a Cooperativa dos Babaçueiros do Norte Goiano, com sede em Tocantinópolis que, por falta de apoio oficial, não se desenvolveu a contente. Em 1962 assume, ele próprio, a presidência da Cooperativa implantando novas técnicas de exploração dos babaçuais, com aproveitamento das palmeiras para obtenção de subprodutos.
Conseguiu a inclusão do norte de Goiás na Região Geoeconômica do Babaçu, determinada pelo Conselho Nacional de Economia.
Em 1949, participou da Conferência de Araxá-MG, promovida pelas Associações Rurais, convocada pelas classes produtoras do País, onde todos os estados da Federação se fizeram representar João D’Abreu foi o delegado de Goiás, pronunciando, à ocasião, substanciou a palestra, quando defendeu a tese do aproveitamento do babaçu, como sucesso para o carvão e para o petróleo. Mencionou estatísticas interessantes, apontado à oleaginosa, como reserva estimulada em 7,5 bilhões de unidades produtoras, cobrindo uma área de 300 mil km2, com uma produção de 375 milhões de toneladas/ano, aproximadamente.
Levou ao conhecimento dos integrantes daquele conclave, a exitosa experiência da Cooperativa dos Babaçueiros de Tocantinópolis, pugnando, ao final do encontro, pela criação de uma Comissão de Defesa do Babaçu como passo inicial de uma política de produção de combustível de base vegetal, capaz de acelerar a conquista da emancipação econômica do Brasil.
O estudo desta oleaginosa foi incrementado no governo Jânio Quadros que instituiu, em agosto, de 1961, um Grupo e Trabalho encarregado de estudar e propor as providências úteis ao incremento da produção, industrialização e exportação do babaçu. João D’Abreu foi escolhido pelo Ministro da Agricultura, para representar Goiás no referido Grupo de Trabalho. Idêntica distinção lhe estava reservada pelo Governador Mauro Borges que o designou, através do decreto de 6 de julho de 1961, para integrar o mesmo grupo. Ao final dos trabalhos a ação de João D’Abreu, como presidente da equipe, mereceu destaque.
(Walter Menezes, ex-presidente, conselheiro permanente da Associação Goiana de Imprensa e diretor do Jornal da Cultura Goiana)
