A grande crise de ordem que assola o mundo
Redação DM
Publicado em 27 de janeiro de 2016 às 23:39 | Atualizado há 10 anosEstamos vivendo os tempos apocalípticos de desordem total – uma verdadeira “kali-yuga” –, como diria os hindus, que vai marcando tetricamente o final de um longo ciclo do planeta.
Em nível internacional, a estupidez da guerra ainda persiste demonstrando ter o homem evoluído muito pouco ou quase nada, em termos de civilização, o que denota o predomínio da simples inteligência luciferina, longe ainda de atingir os padrões da racionalidade (o ser humano ainda continua apenas inteligente e jamais racional).
Sob o pretexto de combater os regimes ditatoriais do norte da África e do oriente médio, as potências ocidentais lideradas pelos Estados Unidos, sedentas de domínio sobre a produção de petróleo, fizeram duas guerras no Iraque (atualmente em estado caótico), incentivaram a chamada primavera árabe, que conduziu a Líbia a uma verdadeira anarquia de conflitos tribais, antes sob o controle do regime de Kadafi, e levou a Síria a uma sangrenta guerra civil contra o governo de Bashar apoiado pela Rússia, que também é interessada na exploração do petróleo sírio. Esta guerra que se prolonga, há vários anos, além de provocar milhares de mortos, causa o maior êxodo de refugiados de todos os tempos a inquietar a Europa.
Vai-se eternizando o conflito entre palestinos e judeus. Israel, em sua contumaz intolerância, não admite a criação do Estado da Palestina e continua praticando com excessos a “lei do olho por olho e dente por dente”, e assim, por cada israelita que morre, mais de 20 palestinos são mortos.
Em face da caótica situação do Iraque e do enfraquecimento da autoridade do governo sírio, surgiu na região o chamado Estado Islâmico que vem praticando as maiores atrocidades terroristas.
No âmbito de todas as nações, a degradação dos valores morais causa a proliferação do vício e a consequente ampliação do tráfico e consumo de drogas que vão liquidando a humanidade, sem nenhuma eficácia no combate a elas, muito embora ainda exista uma pequena vanguarda de idealistas que insiste em apontar novos rumos para o homem que, segundo Chesterton, “há muito já andava perdido em seus caminhos e agora perdeu o próprio endereço”.
O Brasil, talhado, segundo a profecia espírita, para ser o “coração do mundo e a pátria do evangelho, no novo céu e na nova Terra” da previsão apocalíptica, ainda se vê acorrentado a uma estrutura política dominada pela corrupção crônica, que aumentou consideravelmente em virtude do projeto de manutenção de poder levado a efeito por um partido, que, há mais de 12 anos, assumiu a chefia do governo, impedindo, assim, o tão salutar revezamento na chefia da nação.
A bandidagem na prática de assaltos a bancos assumiu uma situação de guerra, que jamais poderá ser contida por simples aparatos policiais.
Os desregramentos na condução de veículos vêm causando a insegurança no trânsito do país que sucateou sua malha ferroviária, para se submeter ao predomínio de um rodoviarismo imposto pelo “lobby” do pneu. É preciso voltar o transporte de pessoas e cargas através da via férrea. Leis mais severas e um judiciário mais enérgico precisam punir os infratores que ferem e matam nas ruas e nas estradas.
As manifestações populares não podem ser toleradas com a presença de mascarados – verdadeiros vândalos que praticam criminosos atentados ao patrimônio público e privado.
Um grande absurdo está acontecendo em Goiás, que precisa ser repelido urgentemente. Trata-se da ocupação de escolas por alunos contrários à orientação administrativa instituída pelo governo estadual visando a um melhor funcionamento da rede escolar, através de uma gestão compartilhada com Organizações Sociais, que proporcionará mais modernidade e eficiência, sem a burocracia que emperra a prestação do serviço público.
Lamento ver o tradicional Lyceu de Goiânia, a casa de Barão de Ramalho, um dos mais antigos educandários do país, já que ele é o antigo Lyceu de Goiás criado na mesma época do Colégio Dom Pedro II do Rio de Janeiro, ora ocupado por estudantes rebeldes, num acintoso esbulho, ao que tudo indica sob influência de facções políticas contrárias ao atual governador.
Se tais estudantes são realmente alunos do Lyceu, merecem o necessário corretivo, de acordo os seus estatutos. Fui professor naquele educandário, quando o praticante de indisciplina grave era rigorosamente punido, às vezes até com cancelamento de matrícula (expulsão), após o devido processo legal assegurando o direito de defesa ao infrator, o que inviabilizava qualquer êxito numa eventual impetração de mandado de segurança, cuja lei, em se tratando de ato disciplinar, não permite o juiz adentrar ao mérito, mas tão somete examinar questões extrínsecas.
Às vezes aconteciam greves dos estudantes, com justa causa, como a do ano de 1965, em virtude da então diretora ter exigido a obrigatoriedade do sapato marca “Vulcabrás” no uniforme dos alunos. Houve mudança na direção, com a nomeação do grande educador Genesco Bretas, ex-professor do estabelecimento nos seus antigos e gloriosos tempos.
O ilustre prof. Bretas, com total apoio do então governador Otávio Lage, realizou uma ótima administração, merecendo, por isso, o maior respeito de alunos, professores e funcionários. Certa feita, porém, teve que enfrentar uma situação difícil: um tumulto na reunião do grêmio estudantil “Félix de Bulhões”, que resultou em atritos e quase vias de fato motivados por debates envolvendo o regime militar reinante, mas sem qualquer conotação subversiva.
Aí então a diretoria, como era de costume, convocou reunião do Conselho dos Professores para as devidas providências. Ficou decidido abrir o inquérito, através de uma comissão, da qual eu fazia parte. Antes de começarem os trabalhos, compareceu ao colégio um procurador do Estado incumbido de prestar assistência, segundo o qual, conforme combinado com o diretor, à medida que fossem tomando os depoimentos dos alunos envolvidos, cópias seriam remetidas ao comando do 10° Batalhão de Caçadores, unidade militar sediada em Goiânia, e ao Comando Geral de Investigações (CGI).
Discordei e logo pedi meu afastamento da comissão, primeiramente porque, na qualidade de bacharel em direito e militante da advocacia, não via necessidade da presença de um procurador do Estado; depois, porque a remessa de expedientes aos órgãos federais me parecia algo inconveniente. Resultado: o emérito Prof. Bretas desistiu de realizar o inquérito e fez drásticas advertências aos alunos para que não se repetissem mais os acontecimentos ocorridos, no que foi atendido, durante todo o tempo em que esteve na diretoria.
Como diretor que fui, por pouco tempo, do Ginásio Estadual José Rodrigues Naves de Goianira, cuja fundação se deu com minha presença e do abnegado prof. Pedro dos Santos Umbelino (primeiro diretor) e do grande benfeitor da cidade, Naves Junior (José Navinho), pude experimentar o quão difícil é a administração, tendo em vista a burocracia estatal diante das mínimas coisas. Na falta de uma simples lâmpada, me via obrigado a adquiri-la com meus próprios recursos, porque a requisição de materiais algumas vezes demorava ser atendida.
Corretíssima, portanto, a culta e operosa secretária da Educação, Raquel Teixeira, ao tentar modernizar a administração escolar com parceria de OS. Aluno que deseja realmente estudar e o professor bem intencionado, que pretende cumprir o seu sagrado ministério de ensinar, não vão ser prejudicados. A gratuidade permanecerá e o Estado continuará pagando os professores e fiscalizando o funcionamento das unidades escolares, porque a gestão compartilhada jamais significará terceirização, mas parceria e melhor qualidade em benefício de todos, como reconhecem todos os entendidos, inclusive o ilustre senador Cristóvão Buarque, ex-ministro da Educação, em recente pronunciamento.
Ao invés do esbulho da ocupação de prédios públicos, os estudantes deveriam procurar entender melhor a implantação da parceria com as OS, debatendo o projeto, para maior discernimento. Urge, pois, o quanto antes, desocuparem os imóveis, evitando, assim, que o Judiciário faça prevalecer o império da lei para assegurar a posse do Estado sobre a coisa destinada ao ensino público.
Democracia, em que tudo se permite, não é democracia, é anarquia.
(Vivaldo Jorge de Araújo, ex-professor de História e Língua Portuguesa do Lyceu de Goiânia, escritor e agente aposentado do Ministério Público do Estado de Goiás)