O folgadão
Redação DM
Publicado em 25 de janeiro de 2016 às 22:42 | Atualizado há 10 anos
Com uma tira de loteria o carroceiro ganhou quatrocentos cruzeiros, e muito feliz, vendeu a carroça e o cavalo, exclamando à esposa:
– Isso de ser carroceiro, já era!
Deitou-se e foi descansar “por uns dias”, enquanto ria dos prudentes conselhos da companheira:
– Compre de novo cavalo e carroça e vai trabalhar homem! O dinheiro acaba e o estômago não espera…
Mas o folgadão não se animava, conjecturando: “Não quero nem ver cavalo na minha frente!”
Um dia, porém, a mulher o despertou mais cedo que de costume, e lhe disse:
– Levante-se e vai providenciar comida para os seus filhos, pois não temos nada hoje para o almoço.
– E o dinheiro?
– Que dinheiro, homem! Já viu dinheiro render juros dentro da barriga?
O chefe da casa levantou-se preocupado, lavou o rosto, preparou-se e saiu, para fora, pensando em como ganhar a vida. Acho que ninguém sentiu tanta saudade dum cavalo, como o nosso amigo, nesse instante.
Viu uma plantação de milho no quintal do vizinho e arriscou pedir-lhe umas espigas emprestadas, prometendo pagar-lhe no fim de semana. E sem condições para trabalhar, pois não encontrava emprego, rompeu mais uns dias vivendo daquilo que os amigos lhe davam.
Certa feita o vizinho foi à sua casa:
– Vim cobrar-lhe os milhos.
O homem explicou sua situação, queixou-se da vida e, por fim, disse que ainda não estava em condições de pagá-lo; que precisava, antes, arranjar um serviço.
– Pois eu tenho um trabalho ótimo para você, aqui mesmo no quintal de sua casa.
– É mesmo? Como assim?
E o visitante emprestou-lhe uma enxada, dizendo-lhe:
– Tome! Vá plantar alguma coisa e me devolva o que me deve…
E arrematou, afastando-se:
– Se você plantar milho poderá, quem sabe, ficar ‘Milhonário’.
Para combater a miséria, nada melhor do que dois braços e uma ferramenta.
O dinheiro, quando é adquirido com muita facilidade, com mais facilidade ainda escapa das nossas mãos.
A pobreza, em muitos casos, não está no ambiente externo que nos cerca, mas no clima interior que mantemos.
Há pessoas tão negligentes que não podem ganhar além do mínimo, que se acomodam; e a maior fortuna que eles têm, é a pobreza que as estimulam ao trabalho.
Quantas vezes a necessidade
não tem soerguido os fracos,
erguendo-os de sua condição
rente ao pó?
E quantas vezes a fome
não tem conduzido o negligente
ao arado?
E quantas vezes a boa situação,
não tem paralisado braços
antes fortes e resolutos?
Se a necessidade, portanto,
faz o homem lutar,
o trabalho engrandece
e o torna feliz.
(Iron Junqueira, escritor)