Cotidiano

Em busca dos pais e de redenção no Vietnã

Redação DM

Publicado em 15 de janeiro de 2016 às 05:10 | Atualizado há 11 anos

Ho Chi Minh, Vietnã — Durante quase meio século, Margot Carlson Delogne chorou a morte do pai. Ela enfrentou o alcoolismo, usou uma pulseira sinalizando que seu pai havia morrido em combate e teve ódio do vietnamita que derrubou o avião que o levava em 1966.

Agora, ela se via em uma longa mesa de reuniões na cidade, em frente a seis homens e mulheres vietnamitas que também perderam os pais lutando pelo outro lado da mesma guerra. Esse foi o quarto encontro do mesmo tipo em um período de oito dias e as emoções começavam a transbordar.

— Não sabíamos se esse encontro iria abrir velhas feridas, se ficaríamos tristes e com raiva tudo de novo — afirmou, antes de começar a chorar. — Ficamos tristes muitas vezes, mas nunca sentimos raiva.

O encontro realizado em dezembro fez parte de uma odisseia de esperança e redenção para Margot, de 51 anos, que nasceu em uma base militar do Texas e agora vive em Walpole, Massachusetts.

Ela viajou para o Vietnã com outros cinco filhos adultos de pais americanos que morreram ou desapareceram durante a guerra. Sua missão era a de encontrar o lugar onde seus pais lutaram e morreram, conversando com os filhos de norte-vietnamitas e veteranos vietcongues.

No início, as reuniões eram formais entre os filhos de militares americanos e norte-vietnamitas que morreram durante a guerra, de acordo com as autoridades vietnamitas. Esses encontros foram realizados em um ano em que os dois países, quatro décadas depois de uma guerra que causou mais de 2,5 milhões de mortes, entraram no terceiro decênio de relações normalizadas.

Atualmente, os EUA veem o Vietnã como um parceiro estratégico contra a China e recentemente deram fim a uma antiga lei que impedia a venda de armas para o país.

Além disso, o comércio bilateral é atualmente avaliado em US$30 bilhões, e o Vietnã é um dos membros da Parceria Transpacífico, um acordo comercial liderado pelos EUA envolvendo uma dúzia de países banhados pelo Oceano Pacífico. Empresas norte-americanas, incluindo McDonald’s e Starbucks, abriram as portas no país em busca da classe média emergente.

Bui Van Nghi, secretário-geral da Sociedade Vietnã-EUA, a organização do Partido Comunista responsável pela viagem de 11 dias, afirmou que o encontro representa mais um passo em direção ao processo de normalização.

— Se quisermos desenvolver o relacionamento entre os nossos países, precisamos de mais compreensão mútua — afirmou.

Durante quatro reuniões realizadas em várias partes do Vietnã no mês de dezembro de 2015, envolvendo seis norte-americanos e mais de 20 filhos e filhas de soldados vietnamitas, barreiras construídas ao longo de décadas finalmente começaram a ruir.

Em Ho Chi Minh, Susan Mitchell-Mattera, de 51 anos, enfermeira de Carson, na Califórnia, tocou algumas notas na gaita que seu pai, James C. Mitchell Jr., carregava antes de ser morto no Delta do Mekong, em 1970. Ela a encontrou recentemente em um baú que sua mãe não teve coragem de abrir por 46 anos, afirmou.

A história tocou Nguyen Thi Hong Diem, de 47 anos, que vive em Ho Chi Minh. Seu pai e sua mãe eram soldados vietcongues e também morreram em batalha no Delta do Mekong.

— Sinto que compartilhamos a mesma dor — afirmou.

Perto dali, Vu Ngoc Xiem, de 66 anos, olhava atentamente para os americanos, com o rosto contorcido pela raiva. Por fim, teve forças para falar, apoiando as mãos sobre a mesa. Quando ele tinha 14 anos, as bombas americanas mataram seu pai. Quatro anos depois, as bombas atingiram sua escola e apenas 19 estudantes sobreviveram.

Durante boa parte da sua vida, tudo o que ele queria era vingança. Agora, frente a frente com os filhos de seus inimigos, começava a ter dúvidas.

— Precisamos compreender. O Vietnã é um país que ama seu povo e ama a paz.

O desejo de vingança desapareceu, afirma.

— A vingança não vai nos ajudar. Eu acredito plenamente que é possível fazer algo mais útil para nossos países e nossos povos.

Enquanto os americanos viam o ódio de Xiem se converter em aceitação, muitos reconheceram o sentimento. Suas palavras correspondiam a seus próprios sentimentos conflitantes.

Os americanos também buscaram consolo aproveitando a viagem para visitar os lugares onde seus pais morreram ou desapareceram durante a guerra.

Ronald R. Reyes, de 47 anos, seguiu uma trilha até a base de uma montanha em Khe Sanh, onde seu pai, o soldado Ronald Reyes, foi morto durante o cerco norte-vietnamita de 1968, uma batalha histórica que ajudou os americanos a perceberem que a guerra era inútil.

Reyes, que é consultor de hipotecas no Vale do Simi, na Califórnia, sentou-se no chão e folheou o álbum de fotografias que seu pai levava consigo durante a guerra.

— Eu voltei, e o país está cuidando bem de mim.

Margot, que trabalha com marketing no setor de saúde, afirmou que não tinha certeza de como ou onde seu pai, o capitão da força aérea John W. Carlson, havia morrido.

O jato F-5C que ele pilotava foi derrubado no dia 7 de dezembro de 1966, a cerca de 63 quilômetros de Ho Chi Minh, que na época era conhecida como Saigon. Sua irmã passou anos em busca de pistas, mas não teve muito sucesso.

Entretanto, pouco antes de sua viagem para o Vietnã, ela contou que o Departamento de Defesa dos EUA havia enviado um artigo com coordenadas próximas ao vilarejo de Long Nguyen, onde os investigadores acreditam que o avião tenha caído.

Reyes colocou as coordenadas no Google Earth e saiu do hotel acompanhado de três americanos em um micro-ônibus.

Depois de mais de 48 quilômetros em uma rodovia monótona de quatro faixas, o motorista parou em uma estrada de cascalho estreita entre duas enormes seringueiras.

Margot e Reyes saltaram do carro e caminharam por entre as árvores. A trilha digital acabou 198,1 metros depois, em uma cova rasa do tamanho de um cômodo.

Reyes afirmou que a cova não parecia ser natural.

Margot entrou e caiu de joelhos, chorando muito durante alguns minutos, enquanto o sol iluminava seu rosto e o vento balançava as folhas das árvores. Então, falou com o pai, que gostaria de ter encontrado depois de adulta.

— Eu não sei onde você está fisicamente. Talvez esteja aqui, talvez aqui perto — afirmou com a voz trêmula. — Mas sempre senti sua presença ao meu lado quando escolho ficar sóbria dia após dia, quando enfrento meus medos e faço coisas que me assustam, como estar aqui neste momento. Eu vejo a beleza desse lugar, vejo as pessoas, e vejo os efeitos das bombas. E não entendo como uma pessoa tão amável, gentil e bonita poderia entrar em uma guerra contra este lugar.

Ela cavou um pequeno buraco com as próprias mãos no solo negro, e enterrou o bracelete que usava para lembrar que havia perdido o pai em combate.

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