Símbolo da coexistência na Cisjordânia agoniza com aumento da violência
Redação DM
Publicado em 10 de janeiro de 2016 às 05:13 | Atualizado há 11 anosGUSH ETZION, Cisjordânia – Durante uma recente tarde de sol, um novo supermercado israelense abriu as portas nesse cruzamento da Cisjordânia que já serviu de ponto de encontro para israelenses e palestinos, mas que agora mais se parece com um campo de guerra. O supermercado, parte da rede Shufersal Deal, vai concorrer com a Rami Levy, uma loja israelense que é uma das âncoras do shopping center do local.
Além de produtos em promoção, a Rami Levy defende a ideia da coexistência nessa parte da Cisjordânia ocupada por Israel, divulgando com orgulho que metade de seus 120 funcionários é judia e a outra metade, palestina.
Ainda assim, mesmo em meio à onda de violência recente, o gerente do novo mercado oferece uma proposta completamente diferente: 99% dos funcionários são colonos judeus. Embora qualquer pessoa possa comprar na loja, ele conta que poucos árabes — veteranos da rede Shufersal — foram contratados.
— Essa foi uma decisão minha — afirmou o gerente, Rami Kaminsky. — Espero que as pessoas fiquem mais confortáveis com o fato de que meus funcionários são judeus.
A Rami Levy foi uma das pioneiras no comércio no cruzamento Gush Etzion, abrindo as portas há seis anos, quando a única empresa do local era um posto de gasolina. O centro comercial que surgiu desde então inclui uma loja de alimentos naturais, uma padaria, um restaurante e uma oficina mecânica onde tanto judeus quanto palestinos podem consumir e conviver.
Os líderes do assentamento judeu promoveram o centro meio improvisado como um símbolo da coexistência pacífica e como evidência de que israelenses e palestinos são capazes de conviver nos territórios invadidos. Porém, nos últimos dois meses, os palestinos realizaram cerca de dez ataques nos arredores do cruzamento de Gush Etzion, usando facas, armamentos e até veículos como arma.
Soldados israelenses mascarados e armados até os dentes agora montam guarda no local, que foi equipado com barreiras de concreto.
Uma ótica fechou as portas por vários dias, já que os vendedores judeus tinham medo de vir trabalhar. Os clientes palestinos desapareceram do cruzamento, e os que chegam ao local são instruídos a estacionar o carro do lado de fora. Essa restrição foi imposta depois que um palestino chegou de táxi no fim de outubro e atacou uma mulher israelense entre a Rami Levy e a padaria, esfaqueando-a nas costas. Ela sobreviveu. Mas outra mulher foi esfaqueada até a morte em outubro, num ponto de ônibus.
Vendedores e moradores da região se questionam se essas pessoas escolheram o cruzamento porque o fato de ser um espaço de convivência o tornou um alvo fácil.
Gush Etzion, um local com mais de uma dúzia de assentamentos israelenses, fica ao sul de Jerusalém, na região de Belém. É um dos pontos descritos como “consenso nacional”, uma área da Cisjordânia arrancada da Jordânia durante a guerra de 1967 e que muitos israelenses acreditam que sempre fará parte de Israel, tendo um lugar de destaque na psique nacional como espaço de tragédia e triunfo. Alguns judeus têm evitado o cruzamento nos últimos tempos devido à violência.
Eli Sharon, vice-gerente da Rami Levy, afirmou que vários relacionamentos nasceram ali e que na maior parte do tempo é tudo normal.
— Mas quando ouvimos tiros lá fora, todo mundo fica em pânico: judeus, árabes e soldados — disse.