Economia

Viajar e casar em tempos de crise exige planejamento

Redação DM

Publicado em 10 de janeiro de 2016 às 04:08 | Atualizado há 10 anos

RIO – Na alegria e na tristeza. Na bonança e… na crise econômica. No início do ano, quem planeja fazer uma festa de casamento em tempos de arroxo no orçamento deve jurar fidelidade ao controle de gastos. Vale o mesmo para tirar da gaveta um projeto de grande viagem ou um intercâmbio cultural. A receita é fazer escolhas acertadas, que garantam o melhor custo/benefício e, principalmente, caibam no bolso. A favor do consumidor pesa o fato de os segmentos de eventos e viagens terem vivido um nos últimos anos. Com a grande oferta de profissionais, produtos e serviços, há maior oportunidade de se chegar a um valor do tamanho do orçamento.

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— Grandes eventos não são acidentes. Você tem tempo para planejar. É preciso orçar o sonho pessoal em valores atuais e avaliar se o preço cabe no bolso, considerando o prazo para arcar com o custo. Então, começa o ajuste do orçamento. O segredo é separar uma caixinha e colocar as economias numa aplicação financeira — ensina o professor Mauro Calil, fundador da Academia do Dinheiro.

Em tempos de crise, alerta ele, é preciso cuidado para não inverter prioridades:

— Escolha certa é combinar o desejo com a possibilidade de concretizá-lo. Na crise, é preciso avaliar cada gasto. Com a insegurança no emprego, ninguém pode prescindir de um “colchão financeiro”.

A regra é não mexer nessas economias, que podem ser usadas como socorro. No dia a dia, pequenos cortes de gastos, como abrir mão da sobremesa no restaurante, podem virar ajuda de peso em um ano. Ele descarta aplicar na caderneta, que tem rendimento abaixo da inflação, e sugere aplicações conservadoras de melhor rentabilidade, como opções de fundos DI. A estratégia de investimento varia de acordo com o custo do projeto pessoal e o prazo para planejar e pagar.

Daniel Sousa, especialista em finanças e professor do Ibmec-RJ, lembra que, em eventos que vão mudar a vida da pessoa, como casamento, é preciso considerar o que vem depois.

— Os noivos têm de ter atenção ao que virá depois. Eles terão novos gastos.

1 milhão de casamentos ao ano

Em 2014, o mercado de festas movimentou R$ 16,8 bilhões no país, contra R$ 14,8 bilhões dois anos antes. O Brasil bateu a marca de 1 milhão de casamentos ao ano. A previsão para 2015 era de 1,094 milhão.

— Desde agosto, foram menos eventos e de menor porte. Os orçamentos estão mais detalhados, os clientes elegem prioridades e retiram opções para ajustar o custo — diz Ricardo Dias, presidente da Associação Brasileira de Eventos Sociais (Abrafesta). — Percebemos um freio de ao menos 20% em eventos. Mas, ao mesmo tempo, tem cada vez mais pessoas se casando.

Para festas, a lista de convidados é ponto de partida: vai nortear o custo do evento. O gasto médio por convidado, para um casamento na Zona Sul do Rio, é de R$ 550, diz a cerimonialista carioca Vanessa Aune:

— Com a crise, as pessoas estão fazendo festas menores para manter o patamar desejado. Recomendo começar pelas prioridades: local, música e gastronomia.

Negociar com fornecedores, cortar brindes, contratar cerimonialista só para o dia da festa, pegar leve na decoração, usar flores da estação, escolher um lugar que ofereça um pacote completo de serviços são algumas formas de economizar.

— Quanto maior a antecedência, melhor para pesquisar preços e negociar. A crise impactou fornecedores e profissionais do setor. A saída é negociar preço e oferecer outras opções — conta Manoela Cesar, do blog Colher de Chá Noivas.

A engenheira Carolina Rodriguez prepara o casamento para dezembro:

— Calculamos o quanto vamos gastar e seguimos isso cegamente. Minha prioridade era o local da festa. E optei por ter cerimonialista que, apesar do custo, facilita em orçamentos e orientações.

A jornalista Cláudia Rodrigues, que se casa em março, preferiu uma casa de festas que oferece todos os serviços:

— Fechamos o contrato com a casa de festas em agosto de 2014, que já inclui DJ e gastronomia. Decidimos alugar, ao invés de comprar apartamento, deixei de comprar roupas e saio menos.

Já a advogada Paula Machado, que se casou em junho numa casa em Santa Teresa, focou em música, bebida e fotos:

— Priorizamos boas música e bebida. No caso da bebida, compramos de um distribuidor e em promoções.

Para embarcar numa grande viagem, sobretudo internacional, a regra também é calcular gastos na ponta do lápis. Só em 2015, a valorização do dólar frente ao real beirou 50%. Agora, a tributação de 25% sobre remessas de pagamentos para o exterior, válida desde o dia 1º, torna o investimento mais salgado.

— Não há como fugir da tributação. Esperamos que a atual cobrança de 25% seja revista para 6,38%. Alertamos os passageiros do imposto. A crise não impede as viagens, basta adequar o custo do roteiro — diz Edmar Bull, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav).

Esta semana, a Receita vai publicar um ato disciplinando o assunto.

Pacote de cursos no exterior ficam 55% mais caros

Bull recomenda a escolha do destino mais competitivo — trocar os EUA pelo Canadá, por exemplo, em razão do câmbio mais favorável —, encurtar a estada, pesquisar preços, aproveitar promoções.

A crise levou o farmacêutico carioca Fabio Espínola, que trabalha numa multinacional americana no Rio, a realizar o sonho antigo de estudar inglês no exterior.

— Com dois filhos, crise e alta do dólar, este sonho parecia distante. Para superar minha deficiência com o idioma e garantir minha empregabilidade, decidi investir. Escolhi viajar para o Canadá e na baixa temporada. Tomamos um empréstimo e usei milhagem para a passagem — diz ele, que embarca para Toronto em abril.

A busca por qualificação profissional é crescente e persiste na crise como aposta em empregabilidade, conta Marcelo Melo, presidente da Belta, que reúne as agências de viagens educacionais no país. Mas, com inflação e dólar caro, o segmento está desaquecendo:

— Em 2014, as viagens educacionais para o exterior cresceram 15%. Ano passado, na melhor hipótese, ficou estável. Com o dólar alto, os programas estão mais caros. A tributação vai pesar mais. Isso pode limitar as viagens apenas aos mais ricos.

Um programa de estudos no exterior de US$ 3 mil saía a R$ 7.800 em dezembro de 2014. Mês passado, custava R$ 11.500. Agora, com a tributação, subirá para ao menos R$ 12.127, alta superior a 55% em pouco mais de um ano. A estudante Bruna Valle, de 16 anos, passou dois meses estudando inglês na Califórnia, ano passado:

— Foi muito planejado. Passei dois anos economizando para fazer o intercâmbio. Lá, gastava menos que a maioria dos meus colegas com alimentação. Se fosse hoje, teria de viajar com bem menos dinheiro do que levei.

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