Brasil

Elitismo e baixaria na assistência médico-hospitalar

Redação DM

Publicado em 9 de janeiro de 2016 às 23:46 | Atualizado há 10 anos

“Do infame, todos temem dar queixa, pois o que quer que digam, o poder é próprio da baixeza” (W. Goethe, escritor alemão)

No artigo desta última sexta ( 8.1.16 ,disponível em dmdigital.com.br )  citei, comparativamente,  casos de atendimento em um hospital de plano de saúde e um  hospital do governo. Vou continuar o artigo citando o atendimento ( situação 3 ) num hospital particular e depois comentarei tudo.

Situação médico-hospitalar 3 : Bruce, 9 anos, também com uma gasto-enterro-colite ( assim como as situações “1” e “2” ), diarreia, vômitos, etc,  é atendido em um grande hospital particular, tudo pago em dinheiro vivo. Ressonância magnética, tomografias, todo tipo de exames laboratoriais são feitos.

A família, aquela que faz parte do 1% da população brasileira que pode pagar este tipo de hospital de luxo, está muito satisfeita com o atendimento. Com o grande montante que entra , este hospital pode satisfazer todas as enormes demandas que as leis, regras, normas, que o Governo criou para eles.

Comentários Gerais : as pessoas cobram do hospital 1 ( plano de saúde )  – vide artigo de 8.1.16 – porque sabem que até indenização elas podem ganhar, ao passo que, dos hospitais do Governo , como diz o aforisma de Goethe aí acima, não costumam cobrar nada , porque sabem que a chance de serem enrolados pela burocracia é enorme. As  próprias instituições governamentais ( fiscais, promotores, juízes, funcionários, etc )  sabem que não se pode obter muita coisa mesmo ( um agente governamental me disse, ainda há pouco, durante uma fiscalização   que, “do governo não adianta cobrar, eles não são acionados, quando são acionados não respondem, quando respondem não dá em nada, quando dá em alguma coisa não pagam, quando pagam demora, e quando não demora, ninguém é punido ou responsabilizado e continua a mesma coisa”).

O hospital 1 ( convênios médicos ) , como vimos no artigo de sexta, é completamente cobrado, seja pelo paciente, pela mídia, judiciário, promotores, agencia nacional de saúde ( que regula os planos ), todos que exigem cada vez mais, quando o hospital recebe cada vez menos. Daí estarem quebrando e desaparecendo. Até os  médicos estão preferindo trabalhar no Governo mesmo, onde a chance de um processo dar em alguma coisa é remota ( todo podem se esconder sob o véu do Governo , e aí a coisa fica impessoal e diluída ).

É assim que a iniciativa privada está sendo dizimada no Brasil, com exigências e custos enormes, e , ao mesmo tempo, por causa da crise, inadimplência, inflação, etc, com entradas cada vez mais diminutas.

A tendência , então, será a de existência apenas de serviços governamentais – ( com qualidade sofrível por causa dos insolúveis problemas gerenciais ) – ao lado dos “hospitais para ricos”.

A classe média, então, vai migrar cada vez mais para o sistema público, e aí as reclamações aumentam. Os Governos tenderão a passar a atendimento para a iniciativa privada. No entanto isto não resolverá muito o problema – vide o “apagão na saúde do Rio”, onde quase 60% do atendimento já é feito por unidades terceirizadas. Os contratos entre governos e organizações sociais, terceirizadas,  serão cada vez mais problemáticos de de se administrar, pois tudo que se liga à administração pública é muito complicado, dá margem para distorções.

Enquanto isso, ninguém aventa para uma única saída viável, que seria o Governo desregular o setor, deixar a iniciativa privada vicejar, crescer, respirar, e desonerar a sociedade de impostos para que possa sobrar mais dinheiro para pagar serviços médico-hospitalares particulares. Os poucos e paupérrimos pacientes que sobrassem, aqueles que não derem conta dos custos médico-hospitalares, poderiam ser ajudados pelo Governo, que ressarciria médicos e hospitais livremente escolhidos por eles.

Os Governos criam uma situação médico-hospitalar completamente esquizofrênica, na qual aqueles que não têm recursos ( hospital 1 – planos de saúde ) são cobrados e sugados até o talo, ao passo que aqueles que tem ( ou deveriam ter, hospital 2 – do governo ) são poupados pelo povo e pelas instituições – a situação do “não adianta cobrar do Governo porque não dá em nada mesmo”.

A mãe do paciente “1”,  aquela farmacêutica no hospital 1, tem , de fato, todo direito de ter o melhor atendimento para seu filho, todo mundo tem este direito, até eu queria ter. No entanto, a população também tem de ter noção dos mecanismos que geram este caos, e passar a cobrar de quem o está produzindo – governos – e não de quem também está sofrendo com ele.

 

(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra)

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