Monastério de Tövkhön
Redação DM
Publicado em 9 de janeiro de 2016 às 21:24 | Atualizado há 10 anos
Saindo da capital Uulan-Baatar, na única estrada pavimentada da Mongólia, o 4×4 entra numa estrada de terra e depois não há estradas, só trilhas. Definitivamente, o país ainda encontra-se no século XIX. Devo dizer que o moderno carro estragou ali mesmo. E foi trocado por um jipe russo da Segunda Guerra, bem maior e mais desconfortável também. E veio com ele um velho guia mongol com “cara de poucos amigos”. Enrugado pelos anos de sol.
Nosso destino era sem destino. Uma aventura na Mongólia Central, bordeando o famoso deserto de Gobi. Cada dia um cenário. Cada dia uma novidade que se vislumbrava após uma alta montanha circundada, onde víamos longas estepes cheias de yurtas (aquelas barraquinhas brancas em que a maioria dos mongóis vive, pois são nômades) e depois florestas de pinho e depois montanhas rochosas e lagos também. A guia pouco falava, então tínhamos que ler nos nossos parcos guias as informações.
Na região do parque Nacional de Khangai Nuuru, no meio de uma floresta de pinheiros, fica o templo. A abordagem não é fácil. A trilha faz-se a pé e vamos chegar a 2.600 metros de altitude. O silêncio é ensurdecedor. O clima, frio. Não dá para saber onde se encontra o monastério de Zanabazar. Apenas subimos a montanha Shireet Ulaan Uul.
Mas para quem vem viajando sem GPS, sem mapa algum e sem celular – a guia diz que não pega e o motorista não fala inglês – uma caminhada de duas horas na mata não é nada. Encontramos pequenos iglus de meditação, feitos de madeira, ao longo do caminho. E aí chega o primeiro paredão.
Como havíamos subido o monte Elbrus, na Rússia, esse desafio foi até divertido. O vento aumentava e em algumas cavernas entalhadas nas rochas existiam placas de permanência dos monges locais. Eram de anos e anos. Em ínfimos espaços. Nenhuma palavra da nossa acompanhante. O ancião ficara no carro, a quilômetros dali.
O templo todo colorido – fora reformado em 97 – e é um dos mais antigos de todo o país, foi ficando para baixo. Corvos enormes rodeavam nossas cabeças. O cenário era surreal. Abaixo de nós o bosque, depois as pedras e depois as planícies sem fim. O lugar apresentava uma rocha enorme, como um trono. Chegamos. Perto do céu do país dos céus infinitamente azuis.
De repente, o tempo muda. Ficamos um tempo a observar a árvore sagrada de Mahakala e nem vimos o céu escurecer e a tempestade se aproximar. Quando nos demos conta só restávamos nós: João Mário, Humberto Furlanetto, a guia e eu, no topo do pico.
Descemos rápido, como cabras da montanha. Entretanto, a guia ficou para trás. Chovia muito e não há abrigo no templo, creio que somente uma meia dúzia de monges habita aquele lugar tão ermo. Não podíamos deixar a mocinha para trás. Ela que queimara nossa comida, que errara o caminho e que tinha pouquíssimo diálogo e interação conosco.
Como todo montanhista que se preza, nossas mochilas levavam casaco corta-vento e calçávamos confortáveis botas de aproximação. Apenas nos vestimos e prosseguimos. E ao olhar para trás, vi a menina tropeçar e se esparramar na enxurrada. Meu filho correu e lhe carregou facilmente. Ela tinha um tênis velho que se rasgou e não usava nenhum abrigo, pois fazia sol no início da tarde.
Colocamos uma bota reserva nela. Vestimo-la com um dos casacos. E a chuva agora era torrencial. Não havia trilha alguma, estávamos perdidos no meio dos imensos pinheiros. Só restava seguir o rumo d’água. Ou seja, para baixo.
De repente, do jeito que veio a chuva, ela cessou. Um sol estupendo veio nos acalentar e João Mário docemente colocou a guiazinha em um tronco. Ela apontou com um sorriso tímido a direção do nosso carro. Sem querer, acertamos o trajeto. Os campos cobertos de flores azuis nos brindavam com uma cena celestial. E ela virou-se para nós e disse:
– Obrigado. No mais perfeito português que um mongol possa pronunciar.
E desse dia em diante todos soubemos que a gentileza existe e pode ser utilizada em qualquer lugar, até mesmo no meio do estado de Övörkhangai, na Mongólia Central.
JB Alencastro médico é escritor)