Bicho certo
Redação DM
Publicado em 9 de janeiro de 2016 às 21:19 | Atualizado há 1 ano
Muitas famílias, ao adotar ou comprar um novo animalzinho no impulso ou sem conhecimento prévio acerca de seu temperamento, não conseguem lidar com ele ou acreditam ter escolhido o bicho errado para o contexto familiar.
Há, por exemplo, animais muito ativos, que precisam de passeios regulares e que não são indicados para pessoas que não têm tempo ou condições físicas de atender as necessidades dele. Mas como saber qual animal é ideal para o perfil do dono, da família e da casa?
Carolina Fernanda Castro, 39 anos, trabalha com animais há cerca de 30 anos. Atualmente é pet coach comportamental e pet coach para cinofilia. Ela trabalha com correção comportamental, adestramento e dá consultorias para famílias que têm dúvidas na hora de escolher o melhor animal para seu contexto familiar. Para ela, o objetivo do pet coach é dar mais qualidade de vida para os bichos e também para as pessoas ao estreitar as relações familiares por meio dos animais.
Carolina afirma já ter visto casais se separando por causa de animais, o que pode ser evitado. “É preciso estabelecer uma hierarquia dentro do lar. Os animais têm que estar em harmonia com as pessoas da casa, não em uma posição superior”, explica.
Antes do bicho

Saber das características da raça ou acompanhar o animal sem raça definida por um tempo antes de adotar, de modo a conhecer seu temperamento, pode evitar dor de cabeça depois da compra ou da adoção. O pet coach, por meio dos conhecimentos em cinofilia (estudo especializado em cães) pode ajudar a escolher o cachorro mais adequado para cada contexto e harmonizar a convivência dele com os humanos e com os outros animais.
Carolina Fernanda Castro, pet coach, explica que a escolha de um animal depende do perfil da família. Há fatores de influência: um determinado animal ou raça, pode ser mais adequado dependendo do local em que a família vive, o habitat que ela dedicará ao pet e a rotina das pessoas naquele lar.
“Por exemplo, não é aconselhável colocar um cão muito ágil e ativo com uma família que não tem tempo de passear e fazer atividades com o animal. O cão fica fora do contexto da família. O temperamento do cão, nesse caso, não é compatível com o do dono. Outro exemplo: se eu pegar uma raça que precisa de um pulso firme, com o comportamento dominante, [e colocar] com alguém [dono] submisso, mais passivo, o cão sempre vai mandar no dono, talvez a pessoa até perca a liberdade dentro de casa”, assevera.
Nesse caso, o pet coach vai avaliar se a adoção de determinado animal ou raça, vai promover qualidade de vida tanto para a família, quanto para o animal. Ele faz também o trabalho com finanças. “A pessoa não compra um cachorro sem saber quanto ela vai gastar com ele até o final”, explica Carolina.
Ela explica que um animal não pode ser adotado ou comprado no impulso, sem planejamento. “Eles não vivem só um ano. Pode viver até 18 anos se for cachorro. Se for gato pode chegar nos 24. É preciso que as pessoas tenham noção de responsabilidade e entendam que ter um animal não é questão de modismo”, defende a pet coach.
No caso de adoção, quando não se tem uma noção do temperamento do animal por meio da raça, existem testes que podem ser feitos que esclarecem sobre esse quesito. “Tentamos descobrir as misturas daquele animal, qual seu perfil morfológico, se ele tem mais aptidão para corrida, para olfato, caça, ou companhia, etc. Fazemos uma avaliação física, morfológica e de temperamento”, explica Carolina.
Depois do bicho

O animal já é parte da família, mas por algum motivo apresenta comportamento negativo que os donos não sabem como lidar. Há como fazer a correção comportamental do bicho com ações simples. Carolina Castro, pet coach, afirma que quando trabalha com correção comportamental, corrige 99% os donos e 1% o animal. “São duas horas com os donos, corrigindo os comportamentos dele em relação ao animal – e eles ainda erram os exercícios que eu passo e o cão acerta tudo logo de cara, em minutos”, explica ela.
Ela ainda esclarece que os animais fazem uma leitura completa corporal dos seres humanos. Todo posicionamento físico, tom de voz, tudo influencia para que ele entenda a mensagem que o humano está passando, e que em determinadas situações são erradas e devem ser corrigidas.
É importante frisar que em nenhum processo de adestramento ou correção o profissional ou o dono encostam no cachorro, porque, segundo a pet coach, o cão que aprende apanhando ensina batendo. Além disso, o dono não precisa mudar a rotina dele, mas o modo com que se relaciona com o cachorro.
Adestramento ou correção comportamental?

A pet coach Carolina Castro explica que correção comportamental é diferente de adestramento. “Adestramento normalmente se dá quando o animal é filhote, desde quando nasce até com mais ou menos 4 meses de idade. Ele pode ser adestrado depois, mas quando o animal já apresenta alguma complicação, mesmo quando filhote, o pet coach entra para fazer o trabalho de correção comportamental”, defende ela.
Para ela, a diferença fundamental entre adestramento e correção comportamental é: adestramento é ensinar onde o animal vai fazer o xixi, por exemplo, enquanto correção comportamental é proibir de fazer em determinados lugares. “Adestramento é para introduzir o bom comportamento, a correção é para retirar o mau comportamento”, finaliza.
Entrevista
Dúvidas comuns de criadores de cães e gatos são esclarecidas pela pet coach, Carolina Castro, em entrevista ao Diário da Manhã
DM: Meu cachorro não me obedece, chamo ele pelo nome e ele corre de mim, o que eu faço?
Carolina Castro:Pare de dar bronca usando o nome do cachorro. Quando você chama o nome dele para brigar, com tom de voz agressivo, ele vai associar o nome dele à bronca. Minha dica é passar a associar o nome dele com coisa boa, como por exemplo, dar petiscos dizendo o nome dele. Chama o nome, dá o petisco, chama o nome, dá o petisco. Faça isso muitas vezes, e brinque de esconder na sua casa, chamando o nome dele e dando petisco quando ele aparecer. Assim, quando ele fugir de casa, por exemplo, e você chamar o nome dele, ele irá voltar atentamente para você. Esse é um exercício que pode salvar a vida de um cachorro.
O cachorro é bonzinho dependendo da criação. Isso é verdade?
Carolina Castro:Em parte, pois há o lado genético do bicho, que também determina seu comportamento. Mas o meio é muito importante.
DM: É melhor adotar um filhote ou um cachorro mais velho?
Carolina Castro:As pessoas pensam que quanto mais novo melhor. Eu digo que é o contrário. Por que um cachorro um pouco mais velho, com uns quatro meses, já aprendeu com os pais o que precisava aprender, desmamou naturalmente, já passou da fase crítica de imunidade baixa, e é mais saudável, enfim.
DM: Qual a melhor idade para adestrar um animal?
Carolina Castro:A partir do momento que nasce já existem coisas que podem ser feitas para “moldar” o animal, dá para introduzir comportamentos e hábitos positivos, tanto no gato, quanto no cachorro.
DM: Como tratar um cão de guarda?
Carolina Castro:Quanto mais sociável o cão de guarda for, melhor. Tem gente que não faz carinho nos filhotes de cães de guarda, que os cria acorrentados, longe do convívio com humanos. Isso está errado.
DM: Vou ter um filho, tenho que me desfazer dos meus animais?
Carolina Castro:É preciso que todas as pessoas que têm animais, sendo eles quais forem e independente de uma gravidez, conheçam as zoonoses desses animais. Além disso, os donos precisam manter as vacinas dos animais sempre em dia. Quando uma mulher engravidar, a dica é que ela leve seus animais para fazer uma bateria de exames, para ver se está tudo certo com a saúde deles. Não precisa se desfazer de nenhum, isso é maldade com o animal. Eles têm é que estar muito bem cuidados. Além disso, é importante que a mulher procure um médico que goste de animais, porque alguns não gostam e vão dizer que é proibido.
DM: A convivência de crianças com animais é benéfica?
Carolina Castro:A criança que convive com animais melhora muito a saúde. A imunidade aumenta, há menos risco de problemas respiratórios. E a parte emocional é incontestável, o animal ajuda a criança a ser mais sociável, além de ajudar a desenvolver um maior senso de responsabilidade. As crianças começam a entender melhor o que é nascer, crescer, reproduzir e morrer, então elas aprendem a entender melhor a vida e a morte.
DM: Quando é melhor castrar?
Carolina Castro:A partir dos quatro meses, tanto em cães quanto em gatos.
DM: Quais os benefícios da castração?
Carolina Castro:São inúmeros. O aumento desregulado da população de animais é um problema grave, atenuado pela castração. Pensando na qualidade de vida do animai: diminui a quantidade de hormônios no animal, o que diminui a incidência de câncer. A castração aumenta a qualidade de vida do animal nos últimos anos e aumenta a perspectiva de vida do animal.
DM: Castração engorda?
Carolina Castro: Cachorro e gato vão engordar se o dono der muita comida calórica pra eles. A castração pode auxiliar a diminuir o metabolismo do animal, o que pode fazer com que ele engorde, mas nesse caso o dono deve equilibrar a ração.
DM: Adotar ou comprar?
Carolina Castro: Ambos. Eu sou contra a compra de animais de “cachorreiros”, que são as pessoas que têm um animal que é usado apenas para reproduzir e gerar lucro, sem a mínima qualidade de vida e de saúde. Isso é escravidão. Se for pra comprar de cachorreiro ou adotar, eu aconselho adotar. Agora se for comprar de um criador, que cuida da saúde física e emocional do animal, então tudo bem comprar.
DM: Qual a melhor ração?
Carolina Castro:Sem corante é melhor. Tanto para cães, quanto para gatos. Lembrando que o animal deve comer aquela ração que o dono conseguir pagar. Já conheci gente que deixava de comer para dar ração super premium para o cachorro. Isso é um absurdo. O importante é que o animal aceite bem a ração, sua pelagem fique bonita, que respeite o metabolismo do animal.
DM: Qual o melhor lugar para os animais fazerem as necessidades?
Carolina Castro:Importante manter a cama do bicho longe do local que ele normalmente faz as fezes. Para os cachorros, é importante que o dono sempre deixe um pouquinho de sujeirinha (pode ser xixi), para que o cachorro reconheça aquele lugar como o lugar dele fazer suas necessidades. Para o gato é o oposto. É preciso que as caixinhas de areia deles estejam sempre limpas. Por isso é aconselhável que os donos de gatos tenham duas caixinhas de areia para cada gato, porque se uma estiver suja ele vai para outra. E as caixinhas de areia não podem estar perto uma das outras, porque o gato vai achar que é uma só.
DM: E quando a casa tem um quintal grande, com espaço para os animais fazerem suas necessidades, mesmo assim é necessário ter um espaço com o jornal para o cachorro e duas caixas de areia por gato?
Carolina Castro:e ele for filhote, sim. Se for um animal que fica ora preso dentro de casa, ora fora, é preciso manter nos dois lugares. Se for adulto, pode manter só do lado e fora.
DM: Água e comida podem ficar perto?
Carolina Castro:Para os cachorros sim, para os gatos não. Os gatos vão evitar a água, que vai absorver o cheiro e o gosto da comida.
DM: Comida o tempo todo ou horário para comer?
Carolina Castro:Horário para comer. Tanto para cães, quanto para gatos. A comida não pode ficar disponível o tempo todo. Se o animal não tiver comido em uma hora, a comida deve ser retirada. A água tem estar disponível o tempo todo e tem que ser espalhada, com mais vasilhas do que apenas uma.
DM: Como reconhecer que meu animal está demonstrando amor por mim?
Carolina Castro:A demonstração maior de amor de um gato é quando ele mata um animal (inseto, passarinho, etc) e dá para o dono. A maior demonstração de amor que o cão tem pelo dono é a obediência. Cães obedecem melhor quem eles amam mais. Quanto mais obediente, mais ele te ama.
DM: Vermifugação com qual frequência?
Carolina Castro:A cada três meses.
DM: Adoção de animais mais adultos é positiva?
Carolina Castro:É sempre uma excelente ideia. Você consegue adestrá-lo e corrigir seus maus comportamentos com maior eficácia. Um filhote demora de três a quatro meses para ser educado completamente, um adulto demora um mês em média.
Saiba mais
Cenários possíveis e qual a melhor opção de animal:
DM: Família com crianças pequenas que moram em um apartamento com espaço reduzido, que querem dotar um cachorro. Qual escolher em uma feira de adoção?
Carolina Castro:Primeiro de tudo: escolher um cachorro que não demonstre nenhum tipo de agressividade, por conta das crianças. Segundo: é preferível um animal pequeno. Um cachorro menos agitado é mais indicado. É preciso que a família avalie suas condições financeiras, pois se o cachorro tiver pelo longo e precisar ir regularmente para o pet shop tomar banho e tosar, o orçamento vai aumentar. Logo, se a família quiser economizar, é preferível escolher um animal de pelo curto, que toma banho em casa.
DM: Um homem que gosta de esportes e mora sozinho em um apartamento pequeno. Qual animal adotar ou comprar?
Carolina Castro:Um cachorro de porte maior é mais indicado, pois vai fazer exercícios com ele. Um cachorro mais ativo e maior, independente do tamanho do apartamento do dono, pois eles vão estar sempre em movimento.
DM: Estudante independente que mora sozinha em uma cidade diferente da dos pais, precisa se deslocar sempre, viajar. Que animal adotar?
Carolina Castro:Um gato é uma boa ideia. Um menos ativo, tranquilo, pouco arisco, que se comporte bem em caixinha de transporte. Lembrando que a manutenção de gato é um pouco mais cara do que a de cachorro, mas ela é menos trabalhosa. Um cachorro pequeno também seria uma boa opção, de temperamento tranquilo e menos ativo.
Saiba mais
O que é cinofilia?
O termo ‘cinofilia’ pode ser entendido de dois diferentes modos: pode significar a pessoa que é apaixonada por cães, e pode significar também o estudo da criação de cães, que engloba a regulamentação das raças puras, as normas para a criação de cães, etc. Um profissional da área entende de comportamento, morfologia, temperamento, dentre outros aspectos, de todas as raças de cães.