A ciência do índio
Redação DM
Publicado em 10 de abril de 2016 às 01:59 | Atualizado há 10 anosTenho falado neste espaço sobre o riquíssimo manancial com que a flora, a fauna e as benzeções acodem o sertanejo nos seus achaq ues e macacoas, longe dos recursos da Medicina.
Carmo Bernardes (Quadra da Cheia, Cultura Goiana, 1995, pág. 21) do alto de sua inegável sapiência em matéria de medicina popular, diz, com muita propriedade:
“Achar que os remédios do campo não têm valor é revelar maciça ignorância e curteza de raciocínio. Pois se há os venenosos, com certeza a recíproca é verdadeira haverá também os que curam.
Antigamente, antes da indústria dos medicamentos haver desencadeado contra os raizeiros a perseguição mais encarniçada que já se viu, os médicos eram botânicos, e a não ser com um pouco de sais, todas as doenças eram curadas com as plantas medicinais. Assim, como hoje há os que indicam remédios e compram muito nas farmácias sem receita médica, no passado tam¬bém havia raizeiros que preparavam as garrafadas. Os médicos botânicos tratavam por métodos científicos. Possuíam equipamentos aperfeiçoados, como os alambiques, as retortas, recipientes de toda ordem com que preparavam as raízes, flores, folhas, entrecascas e frutos das plantas; e os charlatães faziam suas garrafadas. Ninguém morria à míngua de assistência médica.
Mesmo depois que os trustes dos remédios passaram a controlar, até as escolas de Medicina, transformando os botânicos em simples classificadores bisonhos de plantas, abriram a campanha gigantesca contra os remédios do mato. Mesmo na clandestinidade, os raizeiros medicavam seus doentes, e reconquistando o terreno de que foram usurpados. Principalmente depois que os laboratórios passaram a encher as farmácias de medicamentos que não curam coisa nenhuma. Em todas as feiras, nos mercados, nas esquinas mais movimentadas, as bancas de raízes se instalam. E cada um vendedor desses que sabem indicar para que servem suas raízes, suas sementes, resinas, flores e folhas, está satisfeito com o seu negócio. São os charlatães do passado que estão voltando, cumprindo-se o fenômeno da repetição da História. Naturalmente, numa escala mais evoluída.”
Não se pode dimensionar a valia de uma garrafada; nem é possível negar o valor das plantas para curar doenças, inexistindo na Medicina de faculdade substitutivos eficientes para, por exemplo: catarro na cabeça (que é curado com sementes de cabaça ou imburana torradas com rapé, que lá chamamos de torrado ou simonte), doenças renais (que tem no chá de quebra-pedra um excelente remédio), impotência sexual (catuaba) etc.
Descendo sertão do Tocantins abaixo, são lendários os curandeiros, os rezadores e os raizeiros; são comuns os remédios caseiros para quaisquer macacoas, parece que existe um consenso no respeitante à medicina popular, pois ao longo do território tocantinense, raros são os municípios em que determinada prescrição seja desconhecida, se é a aplicada em outro. Não raro, cada região tem seu rezador para quebranto e sempre se conhece alguém que possui mau olhado.
Mas um elemento, por sinal precioso na farmacopeia sertaneja acabou segregado a um segundo plano, devido à escassez de indivíduos, que estão fadados à extinção: o índio.
Na verdade, Carmo Bernardes, que andou convivendo com índios nas suas andanças pelo hoje Tocantins, sempre contava passagens que envolviam os nativos da terra, que, naturalmente, foram os que legaram aos raizeiros e curandeiros a ciência de livrar o sertanejo das doenças.
Como não tinha o que fazer, a não ser caçar, pescar e apanhar frutas do mato, o índio sempre foi um percuciente observador da natureza.
O índio não se envenena com frutas do mato, porque só come frutas que os animais comem. E usa de sua sabedoria para deixar para nós muitos mistérios: por que, por exemplo, não temos caso de um índio com calvície; da mesma forma, nunca se viu índio barbado; e, como se sabe, as doenças passaram a acometer os índios depois da chegada do homem branco, pois até então o pajé cuidava de tudo.
A propósito, minha cidade (Dianópolis, antigo Duro) era perto da extinta aldeia xerente de Missões, a pouco mais de uma légua da rua. E havia um velho índio que sempre trafegava por ali vendendo quibanes, bocapius e outros artesanatos que fazia na aldeia. Ninguém lhe sabia o nome; chamavam-no apenas de “compadre”.
Um dia, estávamos na porta de tio Casimiro Costa, velho e sábio patriarca lá do Duro, quando aprochegou o velho xerente com suas burundangas pra vender. E tio Casimiro perguntou-lhe a razão de índio não ter barba.
Sem falar quase nada, ele deu a entender que a ciência eram as cinzas de um arbusto. E pediu pra entrar no quintal de tio Casimiro, de onde voltou com umas folhas amassadas, que ele queimou ali mesmo e, pegando as cinzas, esfregou no braço peludo de tio Casimiro, e logo em seguida arrancou os cabelos, sem dor alguma, ficando liso o ponto onde tirara os pelos…
Quando o velho xerente saiu, o tio Casimiro mandou os meninos arrancarem folhas dos diversos arbustos do quintal, na inócua tentativa de descobrir que planta era, só tendo uma certeza: era um mato comum. Debalde fizeram cinza, pois nenhuma surtiu o efeito esperado.
Tio Casimiro morreu mais de vinte anos depois, com aquela parte do braço completamente lisa, pois não lhe nasceu mais um fio de cabelo.
(Liberato Póvoa é desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])