Cotidiano

Lula é vaiado em Paris por manifestantes: cidadão parisiense apresenta manifesto contra ex-presidente

Redação DM

Publicado em 5 de março de 2020 às 11:02 | Atualizado há 7 anos


Wilson T. Silva, cidadão de Paris e cineasta, afirma ao DM que a presença de Lula causa perplexidade nos franceses, já que se trata de uma figura condenada por corrupção. Daí a indignação de um grupo significativo de brasileiros e franceses com sua visita.  Wilson divulgou uma carta manifesto em francês para denunciar a presença de Lula (DM publica a tradução do documento).




A visita do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva provocou a ira de franceses e brasileiros que residem na França.  Condenado criminalmente por corrupção e investigado por vários outros delitos no âmbito da LavaJato, o petista foi questionado ao receber prêmio de cidadão honorário de Paris na última segunda-feira, 2.

A honraria foi entregue pela prefeita da capital francesa, Anne Hidalgo. Ao atacar o ministro da Justiça, Sérgio Moro, durante a solenidade, o petista chegou a ser vaiado por presentes, já que o grupo se organizou para protestar contra sua presença. Um vídeo com a visita de Lula viralizou nos grupos de Whats App.



Wilson T. Silva, cidadão de Paris e cineasta, afirma ao DM que a presença de Lula causa perplexidade nos franceses, já que se trata de uma figura condenada por corrupção. Daí a indignação de um grupo significativo de brasileiros e franceses com sua visita.  Wilson divulgou uma carta manifesto em francês para denunciar a presença de Lula (DM publica a tradução do documento).



Durante a terça-feira, a imprensa recebeu várias cartas em francês assinadas por moradores da França, que tentaram alertar a prefeita do que seria um “equívoco histórico”, já que Lula é um criminoso no Brasil julgado pela primeira e segunda  instância.  No evento, ele foi tratado como perseguido político. Cartazes e material contra Lula foi distribuído como alerta para os franceses, que conhecem pouco a figura do petista.

PROBLEMA

A viagem de Lula tornou-se um problema político para a prefeita, que terá que explicar os custos gastos com o evento. Anne Hidalgo declarou na terça-feira, 3, que não arcou com as despesas de Lula, mas o próprio ex-presidente teria bancado sua estadia, junto da comitiva.

O jornal “Valor” disse, via correspondente de Paris, que a “Viagem de Lula provoca polêmica na eleição de Paris”.

Por sua vez, reportagem da Rádio França Internacional  (www.rfi.fr) denuncia que existe a suspeita de que a prefeita teria combinado com Lula o uso de sua imagem na campanha eleitoral.

“A senhora recebe hoje, como prefeita de Paris, o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva para entregar, nos salões do Hôtel de Ville (sede da prefeitura) o título de Cidadão Honorário da cidade”, escreveram em uma carta coletiva alguns conselheiros da prefeitura (cargo equivalente ao de vereador).

Conforme a RFI, no grupo estão os mais destacados representantes do município, caso de Marie-Laure Harel (LREM), Eric Azière (UDI) e Olga Johnson (Movimento Radical de Esquerda).

O grupo questionou a lisura da união de Lula e Hidalgo: “Após essa cerimônia oficial, na qual a senhora atua na função de prefeita de Paris, haverá um comício na mesma noite no Teatro de Gymnase, que terá como convidado de honra o ex-presidente Lula, e no qual a senhora atuará como candidata”.  

POLÍTICA

A homenagem para Lula ocorre com a visita também da ex-presidente Dilma Rousseff e do ex-ministro da Educação Fernando Haddad.

A Justiça Francesa investigará se ocorreu uso da imagem dos políticos brasileiros no evento público correlacionado ao comício de Hildago, que disputa as eleições em menos de 15 dias.

Carta assinada pelo cineasta brasileiro radicado em Paris

Senhora Prefeita de Paris,

Paris é referência universal em contribuição para melhorar a realidade do mundo, bem como para a criatividade na ficção. Da realidade, herdamos Iluminismo, Direitos Humanos, Resistência. A ficção nos legou “Os Miseráveis”, “Ilusões Perdidas” e “Em busca do tempo perdido”.

A corrupção provoca um apartheid permanente e um genocídio constante, especialmente nos países subdesenvolvidos. É um golpe permanente contra a democracia, a república e a cidadania. Não é uma questão de direita ou esquerda. É apenas covarde, cruel, desumana.

A entrega do título de cidadão parisiense a um ex-presidente do Brasil, condenado pela maior rede de corrupção já descoberta na história da humanidade, é uma página de ficção absurda.

O sistema policial e judiciário brasileiro, assim como de outros países da América Latina, Estados Unidos e até da França, investigaram esse gigantesco escândalo, envolvendo, entre outros, organizações internacionais como o COI e a FIFA, ocasionando a prisão de ex-presidentes de outros países e até o suicídio de um deles. Não é uma ficção, é realidade.

O ex-presidente brasileiro não foi denunciado pela oposição “de direita”, mas por seus próprios parceiros íntimos na vida política e por cúmplices de acordos obscuros.

Ao justificar o título porque o ex-presidente tirou “40 milhões” de pessoas da miséria, a senhora revela que não está bem informada. Essa lenda urbana engana ingênuos e mal informados, pois durante anos  fortunas foram transferidas dos cofres públicos para agências de publicidade. Até um filme sobre a vida do ex-presidente foi feito com ele no poder. Nem Hitler, nem Mussolini, nem Stalin ousaram tanto.

Pesquisa da Universidade de Brasília mostra que a renda dos 5% mais ricos, que representavam cerca de 40% da renda total do país em 2006, aumentou para 44% em 2012. A Fundação João Mangabeira, do PSB, chegou à mesma conclusão e o pesquisador Thomas Piketty. Até o ex-presidente se orgulha de dizer que os banqueiros nunca ganharam tanto quanto em seus dias.

O que resta hoje no Brasil é a maior crise econômica de nossa história e uma profunda crise moral que continua decepcionando até aqueles que pensavam que o ex-presidente poderia ter sido uma alternativa à cleptocracia que domina o país.

A comunidade bem informada de eleitores brasileiros que votaram em Paris na última eleição brasileira, no primeiro turno, escolheu candidato progressista alternativo, com 31% dos votos. São números, uma realidade. Não é uma ficção.

Ao honrar um criminoso, ainda venerado apenas por uma mistura de máfia e seita religiosa, a prefeita desonra brasileiros que repudiam a corrupção e escreve  triste página de ficção, endossando atos opostos ao racionalismo e ao iluminismo, dos quais somos orgulhosos.

Um verdadeiro prisioneiro político morre todos os dias, muito perto de Paris, sem que a cidade manifeste uma posição mais firme. Em julho passado, pedimos à prefeita de Paris que apoiasse um ato em defesa de Julian Assange, preso no Reino Unido, e recebemos apenas uma resposta desanimadora e lacônica.

Como diz a eurodeputada Nathalie Loiseau, sobre um caso semelhante (Snowden), “estamos completamente fora de sintonia com os valores que carregamos”.

Paris, 19 de dezembro de 2019

Wilson T. Silva, cidadão de Paris


Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia