Mundo Livre S/A celebra obra-prima em disco ao vivo
DM Redação
Publicado em 29 de agosto de 2025 às 21:03 | Atualizado há 8 horas
Para Fred Zero Quatro, líder do Mundo Livre, “é massa ver como décadas depois formato estético e sonoridade não perderam relevância”
Marcus Vinícius Beck
No som, mais do que ironias e metáforas, ressoa atitude. Reflexão com suingue. Não é apenas rock. É ação antifa, é samba noise, é soul, é funk, é poesia social, é manguebit.
“O futuro é uma câmara de gás”, entoa o vocalista, compositor e guitarrista Fred Zero Quatro, 60, em “Homero, o Junkie”. A música abre o disco “Mundo Livre S/A – Ao Vivo no Sesc Ipiranga 16.8.24”, 15º título da série Sessões Selo Sesc — disponível nas plataformas.
Eis o “Samba Esquema Noise” — aqui ecoa forte o disco do Mundo Livre S/A inspirado na obra de Jorge Ben Jor. Sim, a banda pernambucana o revisita no registro gravado em São Paulo. Retoma o “esgoto esquecido da civilização pós-industrial”, para evocar Fred.
No encarte, o mangueboy explica: “Obra atormentada e impressionante, mas extremamente agradável […] que passou dez anos, isso mesmo, dez anos sendo concebida e testada clandestinamente em condições precárias num lugar fétido chamado Recife”.
Lançado em 1994, “Samba Esquema Noise” é celebrado em “Ao vivo no Sesc Ipiranga 16.8.24”. Para a jornalista Bia Abramo, em texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo” tão logo saiu o disco de estreia, é injusto falar de mistura para classificar o Mundo Livre.
Segundo Bia, não se trata de justaposição de samba e guitarras, de rock e influências regionais. “É samba, sim, mas feito com atitude roqueira. É rock também, mas pensado a partir da ‘Cidade Estuário’, título de uma das músicas”, disse a então editora da “Ilustrada”.
A elite cultural estabelecida no Recife era retrógrada e castradora, como salienta Fred — entre metais —na faixa evocada pela jornalista. “O mangue injeta, alimenta, abastece, recarrega as baterias da Veneza esclerosada, destituída, depauperada, embrutecida.”
Discursivamente, o Mundo Livre traz um léxico próprio da oralidade para a letra da canção popular. Sonoramente, efetua fusão melódica, rítmica e harmônica do samba de Jorge Ben com o rock ao estilo The Clash — duas referências para o som dos pernambucanos.
Ou seja, a banda cruza experimentalismo e criticidade — percebe-se, por exemplo, que a música é entendida a partir de uma perspectiva global e brasileira, cuja identidade se constrói no olhar ácido às instituições. E, além de tudo, certos versos dão forma poética à luta de classes.
“O recado é o seguinte: a hora é agora e vamo que vamo”, anuncia Fred, em “Livre Iniciativa”, precedendo a anáfora que dá conta da repetição proletária. “Trabalho, trabalho, novo/ trabalho, trabalho, novo/ trabalho, trabalho, novo/ trabalho, trabalho, novo.”

Marx, mangue e máquina
Karl Marx revive morto-vivo no túmulo operário. Todas as formas de produção capitalista, aponta o velho barbudo, mostram que não é o operário quem utiliza os meios de trabalho. “Ao contrário, são os meios de trabalho que utilizam o operário; contudo, somente com as máquinas é que esta inversão adquire, tecnicamente, uma realidade concreta”, argumenta.
Mas, por favor, voltemos à manguetown. “Quem se importa de onde vem a bala?/ Qualquer dia tu acorda cheio/ Quem se importa de onde vem a grana?/Tu tem que ter o bolso cheio”, vocaliza Fred Zero Quatro, trazendo na tal “Livre Iniciativa” o cavaquinho para o rock.
Em dissertação de mestrado defendida na UFPE, o crítico Moisés Monteiro afirma que a poesia de Fred possui uma “vertente punk”. “O trabalho mal remunerado, a tecnologia, a falta de perspectiva e a vontade de revolucionar são elementos constantes”, aponta.
Com “toques drummondianos”, nas palavras do estudioso, nota-se “uma homogeneização” do outro na faixa “A Bola do Jogo”, gravada no disco “Ao vivo no Sesc Ipiranga 16.8.24”. O sujeito poético da canção, segundo Moisés, se posiciona “numa espécie de outridade”.

Como que falando pelo outro, ou a partir do outro, a música retrata o trabalhador. “Diante dele, a nova geração, que exige novos rumos, nova política, questiona o poder de forma irreverente e sugestiva”, observa o pesquisador, contrapondo-se à hegemonia neoliberal.
Fred lembra que, quando o Mundo Livre gravou “Samba Esquema Noise”, não havia gravadora ou empresário. “A gente tinha um sonho e uma parceria concreta com algo que a gente via que tinha um potencial muito grande, que era essa concepção do manguebeat.”
Para o artista, “é massa ver como décadas depois o formato estético, a concepção sonora, a sonoridade não perderam a relevância”. Além de trazer quase todo o repertório de “Samba Esquema Noise”, “Mundo Livre S/A – Ao Vivo no Sesc Ipiranga 16.8.24” apresenta hits de outros discos, como “Meu Esquema”, “Pastilhas Coloridas” e “Computadores Fazem Arte”.
“Se a terra é um rádio, qual é a música?”, questiona Fred em “Manguebit”, a primeira faixa de “Samba Esquema Noise” e agora gravada em álbum ao vivo. Ao morar numa cidade em estado calamitoso, informações lhe entravam pela narina. “Da cultura sai mau hálito.”
MUNDO LIVRE S/A – AO VIVO NO SESC IPIRANGA
Músicas: 18
Gravadora: Selo Sesc
Avaliação: ótimo
Disponível nas plataformas de áudio