Goiânia cria plano ambiental de enfrentamento a crise climática
Léo Carvalho
Publicado em 10 de novembro de 2025 às 16:24 | Atualizado há 8 meses
A arquiteta paisagista Patrícia Akinaga, o arquiteto e botânico Marcelo T. Kubo e o professor da UFG Renê G. S. Carneiro lideram o masterplan ambiental de Goiânia | Foto: Divulgação
O avanço desordenado da urbanização e o agravamento dos extremos climáticos colocaram Goiânia diante de um desafio urgente: reinventar sua relação com o Cerrado e com a natureza que a sustenta. Dessa necessidade nasceu um masterplan ambiental (plano estratégico de ordenamento territorial) pioneiro desenvolvido na capital que acaba de ganhar destaque internacional ao ser apresentado na American Society of Landscape Architects em New Orleans nos Estados Unidos, a mais importante conferência mundial de arquitetura paisagística.
O projeto é liderado pela arquiteta paisagista Patrícia Akinaga e pelo arquiteto e botânico Marcelo T. Kubo, em parceria com o professor Renê G. S. Carneiro da Universidade Federal de Goiás. A iniciativa foi reconhecida pela forma como transforma ciência em ação prática, propondo uma Goiânia mais verde resiliente e integrada ao bioma do Cerrado.
O estudo parte de um diagnóstico contundente, que aponta a crise climática em Goiânia como resultado direto da expansão urbana sem planejamento. As secas mais longas, o aumento das temperaturas, a impermeabilização do solo e a perda de áreas verdes têm comprometido a oferta de água e a qualidade ambiental da Capital.
“Enfrentar as mudanças climáticas vai além do plantio de árvores. É compreender e fortalecer os serviços ambientais que realmente garantem água frescor e saúde urbana”, afirma Patrícia Akinaga.
Parques de Goiânia
Nesse contexto, os parques urbanos de Goiânia se tornaram pontos estratégicos de resistência ecológica. São eles que mantêm as últimas áreas de infiltração de água e a biodiversidade nativa que ajuda a equilibrar o clima da cidade.

O masterplan, intitulado Abordagem Ecológica para Aprimorar a Biodiversidade em uma Tree City of the World, traça um diagnóstico detalhado de 14 parques urbanos da Capital, propondo reconectar e restaurar as infraestruturas naturais da cidade. Entre as ações previstas estão a proteção de nascentes, a recomposição de matas ciliares e a criação de corredores ecológicos que ligam áreas verdes isoladas.
A estratégia parte de soluções baseadas na natureza: vegetação nativa, lagos urbanos e sistemas de drenagem natural capazes de reter a água da chuva, abastecer aquíferos e reduzir enchentes. Essas mesmas áreas funcionam como reguladores térmicos, amenizando as ilhas de calor e aumentando a umidade do ar.
“O diferencial do plano é transformar dados científicos em decisões concretas de manejo e investimento público. A cidade passa a planejar o futuro considerando a natureza como infraestrutura essencial”, explica Marcelo Kubo.
Biodiversidade goianiense
O projeto também resultou em um levantamento científico sem precedentes nas áreas verdes de Goiânia. Foram identificadas 345 espécies de cianobactérias e algas, 178 de zooplâncton e 37 de plantas aquáticas e terrestres, muitas delas nunca registradas antes em Goiás ou nas Américas. Além disso, foram catalogadas 243 galhas em 210 plantas, estruturas que indicam interações ecológicas vitais e revelam o papel dos lagos e fragmentos urbanos como refúgios da biodiversidade do Cerrado.
Para o professor Renê Carneiro da UFG, a experiência mostra o potencial de Goiânia em liderar políticas ambientais inovadoras. “Projetar no Cerrado é um exercício de articulação e criatividade. Goiânia pode se tornar exemplo de gestão climática integrada unindo ciência poder público e sociedade.”
A experiência goianiense foi apontada na ASLA 2025 como uma das referências globais em planejamento urbano ecológico. O reconhecimento veio tanto pelo rigor técnico quanto pela capacidade de articular pesquisa políticas públicas e desenho urbano.
Mantenedores da inovação
O projeto conta com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás e apoio da Agência Municipal do Meio Ambiente, o que tem garantido a execução de ações práticas como manejo de nascentes, revitalização de lagos, reestruturação de parques e campanhas de educação ambiental.
Mais do que uma proposta técnica, o masterplan representa uma nova visão para Goiânia: a de uma cidade que valoriza o Cerrado como parte da sua identidade e infraestrutura vital. “Valorizar o Cerrado dentro do espaço urbano é investir na própria sobrevivência das cidades e de seus habitantes”, resume Patrícia Akinaga. “Esse é o verdadeiro planejamento ecológico para o futuro,” acresenta Patrícia.