Federico García Lorca revive em trilogia rural no Teatro Goiânia Ouro
Redação
Publicado em 11 de novembro de 2025 às 20:23 | Atualizado há 7 meses
Espetáculo 'A Casa de Bernarda Alba' foi escrito 30 dias antes de García Lorca ser morto - Foto: Layza Vasconcelos
Marcus Vinícius Beck
O poeta espanhol Federico García Lorca revive neste fim de semana, no Teatro Goiânia Ouro, com o espetáculo “A Casa de Bernarda Alba”. A sessão acontecerá neste sábado, 15, às 21h, enquanto no domingo, 16, o público terá dois horários para apreciá-la— às 15h e às 20h.
Sob a direção de Altair de Sousa, a Cia de Teatro Sala 3 encenará também o drama “Bodas de Sangue”, famoso dentre os textos teatrais de Lorca. A montagem chegará ao Goiânia Ouro daqui a três semanas. Será apresentada na segunda, 1º, às 21h, e na terça, 2, às 14h30 e 20h.
Em janeiro, a companhia fechará a trilogia rural de Lorca com “Yerma”. As três obras foram publicadas pelo famoso autor durante os anos 1930, período em que a Espanha se dividia entre as Forças Progressistas e Conservadores num cenário pré-Guerra Civil.
“Nestes trabalhos, o autor espanhol denuncia uma sociedade que se degradava pelo peso de ideias e tradições antigas”, afirma Sousa. “O trágico é justamente o surgimento de forças de renovação e revolta que enfrentam a obediência e os cânones impostos à mulher.”
Com “A Casa de Bernarda Alba”, o Teatro Sala 3 se volta aos palcos e às vozes femininas, para analisar valores morais e éticos de uma sociedade que se prende à tradição. A obra foi escrita 30 dias antes de Lorca ser fuzilado por forças franquistas, em 19 de agosto de 1936.
Na época, o país ibérico estava em Guerra Civil. Lorca, um mês antes, declarara que a burguesia de Granada, onde nascera em 5 de julho de 1898, era “a pior de toda a Espanha”. Dias depois, o poeta teve sua sentença decidida pelo general Queipo de Llano.
“Café, deem-lhe muito café”, orientou Llano, num linguajar para suplícios. Lorca era tudo o que os extremistas odiavam: ator, diretor, pianista, guitarrista, ensaísta, pintor, dramaturgo e poeta. Seu rosto, ademais, se modelava em torno de sobrancelhas grossas e olhos grandes.

Dramaturgia
Antes da execução, no entanto, o escritor espanhol criou “A Casa de Bernarda Alba”. A personagem-título mantém as quatro filhas sob vigilância matriarcal. Por sua personalidade dominadora, a figura tencionou a casa na qual ela e as crias vivem num caldeirão a explodir.
Alba as impede de concretizar seus desejos matrimoniais e maternais, o que as torna mulheres aprisionadas pelo preconceito pretérito e pelos padrões morais vigentes. “Nesta casa não há sim nem não. Minha vigilância pode tudo”, sentencia a mãe de ferro.
Já “Bodas de Sangue”, a peça mais poética de Lorca, se estrutura em três atos — com sete quadros. A premissa é simples, mas eficiente: dois homens apaixonados pela mesma mulher. Foi inspirada num acontecimento real, ao qual o poeta se afeiçoou por meio da imprensa.
A história — como seria diferente? — emocionou Lorca. Em 1932, o poeta deitou-a numa poesia dramática encantadora, motivo pelo qual dilatou-se o universo dos personagens para torná-lo conflituoso. A música, além de tudo, revela-se bela — é onde se expressam as dores.
Com sua montagem, a Cia de Teatro Sala 3 homenageia o flamenco, paixão do escritor. A encenação junta som e visual para tecer — ou seria evocar? — sofrimento e desilusão. Cria, pois, sequidão, atmosfera social árida, ambiente opressor e desejo de liberdade amorosa.
Tudo ambientado por tons terrosos da cenografia de Adriana Rufino e dos figurinos de Dieferson Gomes. Maior escritor espanhol do século 20, García Lorca renasce nos tablados do Goiânia Ouro — com ingressos gratuitos pelo Sympla. Aprecie, pessoa leitora.