Suspeito de jogar esposa do 10° andar recebeu R$ 12 milhões da produtora do filme de Bolsonaro
Aline Drumond - Estágio DM
Publicado em 11 de dezembro de 2025 às 17:16 | Atualizado há 6 meses
Alex Leandro Bispo dos Santos agrediu e jogou a esposa do 10º andar na Zona Sul de São Paulo | Foto: Reprodução/Instagram
A prisão de Alex Leandro Bispo dos Santos, acusado de ter agredido a esposa instantes antes de ela cair do 10º andar do prédio onde moravam, na zona sul de São Paulo, fez vir à tona um amplo contrato firmado entre sua empresa e a Prefeitura da capital. A Favela Conectada, que pertence a Alex, prestou serviços dentro de um acordo milionário ligado à produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro, executada pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB).
Segundo apuração de Demétrio Vechioli, do Metrópoles, os documentos revelam que, o ICB repassou R$ 12 milhões à empresa de Alex. Esse dinheiro fazia parte de um compromisso muito maior, de R$ 108 milhões, assinado pela gestão de Ricardo Nunes para implementar cinco mil pontos de wi-fi gratuito em comunidades de baixa renda. O contrato foi formalizado com assinaturas de Alex, de sua esposa Maria Katiane, que aparece como testemunha, e de Karina Pereira da Gama, presidente do ICB e responsável pelo filme “Dark Horse”.
O processo de escolha do instituto já havia chamado a atenção do Tribunal de Contas do Município, que apontou irregularidades no edital, incluindo critérios considerados genéricos para selecionar uma ONG para um serviço técnico que poderia ser feito pela Prodam, empresa municipal especializada em tecnologia. Os valores pagos também não corresponderam, enquanto a Prodam cobra cerca de R$ 306 por ponto de wi-fi, o ICB recebeu R$ 1.800 pela instalação e mais R$ 1.800 mensais para a manutenção.
Outro ponto questionado é que a prefeitura aceitou como data-base de instalação o dia 30 de junho de 2024, embora relatórios indicassem que parte dos equipamentos só entrou em operação meses depois. Com isso, foram liberados R$ 26 milhões referentes à manutenção de redes que ainda não estavam funcionando. Dentro desse arranjo, a Favela Conectada assumiu parte da manutenção e recebeu R$ 712 mensais por ponto. Em um único repasse, a empresa foi remunerada por 12 mensalidades de 218 pontos que, na prática, funcionaram por pouco mais de dois meses.
A empresa de Alex foi contratada para instalar dois mil pontos e tem sede no mesmo prédio de um escritório cujo aluguel foi pago pelo próprio ICB. O cheque-caução de R$ 18 mil deste espaço aparece entre os documentos enviados pela entidade à prefeitura.
Investigação da morte de Maria Katiane
A descoberta do contrato ganhou repercussão após a morte de Maria Katiane Gomes da Silva. Imagens de segurança mostram Alex agredindo a esposa no estacionamento do condomínio e continuando as agressões dentro do elevador. Minutos depois, ela caiu da janela do apartamento do casal. O caso ocorreu na madrugada de 29 de novembro, e a prisão preventiva do suspeito só foi decretada em 9 de dezembro. A investigação, conduzida pela 89ª DP, trata a morte como feminicídio.
Posicionamento da Prefeitura de São Paulo
Procurada, a Prefeitura de São Paulo classificou como “irresponsável” qualquer relação entre o programa WiFi Livre SP e as autorizações concedidas ao ICB para filmagens. A gestão defendeu o projeto, afirmando que ele tem ampliado o acesso à internet para famílias de baixa renda. Também afirmou que o instituto cumpriu as exigências do edital e que a antecipação da instalação de roteadores buscou atender regiões com demanda urgente. Segundo o município, 3,2 mil pontos estão ativos e outros 1,8 mil devem ser concluídos até 2026.