Como o cerrado aparece em trilogia do escritor manauense Milton Hatoum
Redação
Publicado em 13 de dezembro de 2025 às 12:55 | Atualizado há 6 meses
Cotado ao Nobel: manauense atinge esplendor literário com “Dança de Enganos” - Foto: TV Brasil
Marcus Vinícius Beck
O escritor manauense Milton Hatoum, 73, volta às livrarias com “Dança de Enganos”, que encerra a trilogia “O Lugar Mais Sombrio”. Publicado pela Companhia das Letras, o livro desloca o ponto de vista narrativo para a personagem Lina, mãe do jovem Martim.
Ela reflete sobre a ausência do filho ao mesmo tempo em que rememora o passado durante o drama histórico-político dos anos 1960. Com isso, Milton constrói um texto permeado pela ausência e pelas dores. Essa habilidade narrativa o consagrou na literatura brasileira.
Como as sombras de um longo sonho, a narradora revive a relação com o irmão Dácio, as situações ao lado da mãe Ondina, os momentos junto à confidente Delinha, a paixão pelo artista plástico Leonardo. Mas é quando se ocupa da ausência do filho Martim, protagonista de “A Noite da Espera” e “Pontos de Fuga”, que a obra atinge seu esplendor literário.
Lina adentra um jogo ardiloso, embora não soubesse disso. Por inúmeras razões, conforme declara o autor à imprensa, a personagem não dimensiona o que está por trás desse jogo. Nem Milton Hatoum desvenda esses segredos. Deixa para que nós, leitores, o façamos.
Voltemos um pouco na trilogia, portanto. No primeiro livro, intitulado “A Noite da Espera”, o adolescente Martim muda-se com o pai para Brasília, onde estuda no CIEM, matricula-se no curso de Arquitetura da UnB, trabalha na Livraria Encontro e faz teatro amador, enquanto descobre o sexo, o amor, a amizade, a prosa de Flaubert, a poesia de Baudelaire.
Tudo isso erguido sob o signo da miséria brasileira: candangos, operários, artesãos e desempregados migraram para a periferia da cidade-monumento idealizada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Ao menos isso é o que assinala o narrador do conto “Flores Secas do Cerrado”, publicado no jornal “Rascunho” em abril de 2009. Milton Hatoum o assina.
Nesse romance de formação, Brasília emerge moderna: ruas e praças, cidades-satélites, bares, restaurantes, hotéis, cinemas, universidade, livrarias, moradores. As diferenças se acentuam entre a Asa Sul, mais etilizada, e a Norte, “de acabamento tosco, sem cor, no meio do barro e da tristeza, ocupados pela classe média”, como descreve o narrador-personagem.
“Como seria o Brasil ou Brasília se não houvesse existido o golpe militar e 25 anos de ditadura? Sem essa noite longa e infame, o país teria avançado socialmente? Haveria tanta miséria? A educação pública de qualidade — um sonho obstinado de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro — seria melhor?”, pergunta-se o imortal da Academia Brasileira de Letras.
Entre saudades e debandadas, nem tudo é suportável. Martim se põe no campo literário dessa forma. Está em Paris, essa “cidade gelada, nem sempre silenciosa”. Vive num exílio europeu. Dezembro de 1977: le mot juste. Brasília, janeiro de 1968: vertigem da distância.

Ônibus estacionado. Diante do personagem, a rodoviária de Goiânia. Aproxima-se de um motorista e lhe pergunta onde fica a avenida Goiás, ao que o homem lhe diz ser longe. “Não importa”, responde. Passa por um parque e segue na avenida larga. Chega ao Grande Hotel.
Sentado numa poltrona, Martim espera Lina. Lê a passagem de “A Educação Sentimental” na qual Frédéric e Mme se encontram às três da tarde. “Frédéric sonhava com esse encontro, e eu com minha mãe; eram três horas da tarde no romance de Flaubert e no hotel em Goiânia”, compara o narrador, que se torna, em certa altura, angustiado pela demora.
Como se dançasse em um salão apertado, o repórter sente o celular mover-se no bolso. Quase saca-o da calça jeans para calá-lo, ou espioná-lo, mas resiste à tentação. Quer saber, matuta, deixa pra lá. Anda pelo Centro. No fone, Lou Reed walking on the wild side.
Martim saltava frases, retornava ao início dos parágrafos; a vista ficou turva. Na tarde quente da capital goiana, caminhava pela avenida Goiás. Observava jogadores de dominó. Ao chegar à Praça Cívica, via um homem na base do Monumento às Três Raças. Dormia.
De volta ao hotel, o recepcionista lhe informa que Lina não virá. “Dessa cidade ainda recordo o canto melodioso de mulher, a leitura de um romance magnífico, um homem caído ao pé de um monumento, um parque vazio perto da rodoviária, um relógio branco”, diz.
Brasil desamparado, desiludido. O narrador se manda para São Paulo, onde ingressa na faculdade de Arquitetura da USP. Já estamos nos anos 1970 — Dinah, namorada do narrador, sentia a liberdade golpeada. Ela, seus amigos e Martim estavam acossados.
Agora, em “Ponto de Fuga”, Martim mora numa república de estudantes na Vila Madalena, em São Paulo — um grupo que lhe trará vivências e companheiros para a vida. Está distante do pai opressor e reacionário, afastou-se de Dinah, a atriz politizada com quem degustara no Planalto Central os sabores do amor pela primeira vez. A relação deles ficara estremecida.
Na vida política, a ditadura endurece. Martim saboreia as agruras e adversidades da vida adulta, assombrado pelo desaparecimento de sua mãe. Na prosa de Milton, citando a crítica Leyla Perrone-Moysés, o tom memorialístico não se confunde com falta de imaginação.
Ao jornal espanhol El País, o autor nobelizável recorre a Graciliano Ramos em “Memórias do Cárcere”, publicado após o Velho Graça ter sido preso pelo Estado Novo, ditadura comandada por Getúlio Vargas entre 1937 e 1945: “trata-se do ‘pequenino fascismo tupiniquim’.”
De certa forma, tal frase ecoa o pensamento do sociólogo Florestan Fernandes, quando analisou a adaptação para o cinema do livro escrito pelo alagoano. “Sair das prisões não é vencer as ditaduras. Para acabar com elas, no solo histórico da América Latina, seria preciso destruir o arcabouço colonial no qual elas se assentam”, aponta. Ainda bem que temos Milton.
Dança de Enganos
Autor: Milton Hatoum
Editora: Cia. das Letras
Gênero: Romance
Páginas: 256
Preço: R$ 79,90
