Feirão com 408 vagas para pessoas com deficiência só contratou três em Goiás
Léo Carvalho
Publicado em 23 de dezembro de 2025 às 09:04 | Atualizado há 5 meses
Entraves estruturais dificultam a efetiva inclusão de pessoas com deficiência no mercado formal de trabalho em Goiás | Foto: Divulgação
Após mais de 30 dias da realização de uma campanha de contratação de Pessoas com Deficiência (PCD), em Goiás, promovido pelo Sindicato das Empresas de Asseio, Conservação, Limpeza Urbana e Terceirização de Mão de Obra (SEAC-GO) em parceria com o Sindicato das Empresas de Segurança Privada, de Transporte de Valores e de Cursos de Formação (SINDESP-GO), o balanço da iniciativa aponta um desafio recorrente das políticas de inclusão no mercado de trabalho. Das 408 oportunidades ofertadas, apenas três pessoas permanecem contratadas um mês depois da ação.
O evento foi realizado em 11 de novembro e disponibilizou vagas em diferentes funções nos setores de asseio, conservação, vigilância e segurança privada. Apesar da ampla divulgação e da estrutura inclusiva, apenas oito pessoas compareceram, sendo uma sem deficiência. Entre os sete candidatos com deficiência entrevistados, três continuam empregados após 30 dias. As demais candidaturas não avançaram principalmente por questões relacionadas à localização dos postos de trabalho, horários oferecidos, dificuldades de deslocamento e falta de interesse nas funções disponíveis.
O presidente do SEAC-GO, Paulo Gonçalves da Silva, afirma que os números evidenciam a complexidade do processo de inclusão. “As empresas participantes disponibilizaram oportunidades reais e imediatas, mas os dados demonstram que a efetivação das contratações depende de uma série de fatores, como a compatibilidade entre o perfil do candidato e a função ofertada, as condições de deslocamento, os horários de trabalho e o interesse em dar continuidade ao processo seletivo. A inclusão exige articulação, diálogo e ações contínuas”, declarou.
Comparação com 2024
A iniciativa conta com o apoio do Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região (TRT-18) e integra uma ação anual das entidades sindicais com o objetivo de aproximar pessoas com deficiência das oportunidades de emprego e estimular um mercado de trabalho mais acessível. Na edição anterior, realizada em 2024, foram ofertadas mais de 530 vagas. Na ocasião, 31 candidatos participaram, sendo 28 pessoas com deficiência. Após um mês, sete contratações foram efetivadas. O comparativo entre os dois anos mostra a dificuldade persistente de conectar trabalhadores com deficiência às vagas existentes.
Para o presidente do SINDESP-GO, Ivan Hermano Filho, os dados reforçam a necessidade de continuidade das ações. “O setor produtivo tem demonstrado disposição para abrir portas e criar oportunidades reais para as pessoas com deficiência. Ao mesmo tempo, os números mostram que a inclusão no mercado de trabalho é um caminho que precisa ser construído de forma permanente, com diálogo, informação e engajamento de toda a sociedade. Seguiremos trabalhando para fortalecer esse ambiente e ampliar as possibilidades de acesso e permanência no emprego formal”, afirmou.
Goiás possui cerca de 482 mil pessoas com deficiência
Dados oficiais ajudam a dimensionar o cenário. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Goiás possui cerca de 482 mil pessoas com deficiência, o que representa aproximadamente 7% da população com dois anos ou mais de idade. Desse total, 7,8% são mulheres e 6,2% homens. Mesmo com a ampliação de vagas e o avanço de políticas públicas voltadas à inclusão, a inserção efetiva desse público no mercado de trabalho formal ainda enfrenta obstáculos relevantes.
Informações do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) indicam que mais de 101 mil goianos recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC) destinado às pessoas com deficiência. Embora o benefício cumpra um papel social fundamental, o cenário expõe um desafio estrutural. A transição do amparo assistencial para a autonomia e a inserção produtiva sustentável ainda é limitada por fatores como mobilidade urbana restrita, falta de orientação profissional, incompatibilidade de perfis e receio de perda de direitos.