François Truffaut tem obra revisitada em mostra no Cine Cultura; veja programação
Redação
Publicado em 4 de janeiro de 2026 às 20:33 | Atualizado há 5 meses
Alter-ego Jean-Pierre Léaud interpretando Antoine Doinel em "Os Incompreendidos", de 1959
Marcus Vinícius Beck
Se você me lê, talvez se lembre daquele diretor francês que, ao filmar o amor, entre 1959 e 1983, ensinou aos jovens uma pedagogia sentimental. Acha que estou de troça? Então veja a “Mostra Truffaut”, que começa no Cine Cultura nesta segunda e vai até o dia 15 de janeiro. Tem, o cineasta, uma filmografia de sensações — um acerto de contas consigo mesmo.
François Truffaut teve uma infância difícil, essa é a verdade. Largou o Exército (imagine se ele vestiria coturno e farda), quase converteu-se num delinquente. Resgatou-o o cinema, na figura do crítico André Bazin, que o adotou e lhe deu o amor negado pela família. Truffaut foi um escriba virulento, o mais influente dos anos 1950, o primeiro astro cinéfilo moderno.
Com sua pena admirável e temida, o jovem francês demoliu os diretores famosos dos anos 1940 e 50. No momento exato da publicação de seus textos na Cahiers du Cinéma e em Arts, segundo o biógrafo Antoine de Baecque, tornou-se o tributo crítico de seu tempo. “Truffaut encarnou o cinema: sua vida se fez unicamente disso”, afirmou Baecque à revista Cult.
Em cada um de seus 21 filmes, o diretor da nova onda recorreu à matéria biográfica, desde sua meninice, da qual recriou as provações — os pais distantes, os professores opressores e os pequenos delitos. Assim é, por sinal, seu primeiro longa, “Os Incompreendidos”, de 1959.
Dirigindo obras pessoais, senão autobiográficas, Truffaut compõe uma pentalogia com seu alter-ego Jean-Pierre Léaud interpretando Antoine Doinel. No primeiro filme da série, por meio do olhar desafortunado de Doinel, a vida não passa de uma sucessão de embaraços.
Ruas
Para o jovem parisiense, a saída é vagar pelas ruas com seu melhor amigo, cabulando aulas e cometendo pequenos furtos. Quando tudo dá errado, o herói acaba internado. Enviaram-no a um reformatório juvenil — ele conta 14 anos. Os pais o desprezam. E agora, meu rapaz? Doinel descobre a prosa de Honoré de Balzac. Não, isso não é possível — logo esse menino?
Eis o desfecho: o personagem vivido por Léaud corre à beira-mar. De repente, vira-se e vem em direção à câmera. No instante em que olha para a lente, o enquadramento fecha até o close. A imagem congela, surge a palavra “fin” (fim), mas fim de quê? Memorável, essa cena.
Como diz a jornalista Maria Mendes, Truffaut construiu, ao longo de 21 longas, uma filmografia diversa, marcada por uma inquietação emocional indissociável de sua curiosidade. “A série de Doinel, sob uma aparência leve e por vezes brincalhona, pulsa em paixões e contradições profundas”, analisa Mendes, no texto “Aprender a Sentir Vendo”.
Existem cinéfilos que cultuam Truffaut e sua série, é fato. Mas esses camaradas, não havendo como refutá-los, têm bons motivos para tanto. Afinal, a saga Doinel, em cinco capítulos, vê a educação sentimental desse herói truffautiano, acompanhando-o dos 14 aos 38 anos.

No entanto, “Jules e Jim” — um dos filmes da paixão, na definição do crítico Serge Toubiana — guarda um encanto próprio. Adaptado do romance do escritor Henri-Pierre Roché, narra a história de dois homens apaixonados pela mesma mulher. Jules e Jim, papéis dos atores Oskar Werner e Henri Serre, veem-se envolvidos com Catherine, criação de Jeanne Moreau.
Truffaut afirmou, a respeito de seu filme, que conduzira seus atores para o naturalismo: “Quis que o filme se parecesse com um álbum de fotos antigas.” E disse mais: “Catherine é fabulosa, se conhecêssemos uma mulher assim na vida, veríamos seus defeitos, mas o filme os ignora.” À frente de seu tempo, ela dorme um dia com Jules, outro dia com Jim.
Dane-se o ciúme, essa coisa burguesa. E, bem, veja aqui: Catherine, braço colado com Jim, sobe para o quarto. Ao pé da escalada, sopra: “Boa noite, Jules.” Que mulher! Agora, sobre a cama, Jules a observa retirar a maquiagem. Mira-a siderado pelo espelho, e o olhar dele (hipnotizado) é também o nosso (fascinado), para invocar o crítico Luiz Carlos Merten.
Enredo
De acordo com o que escreve Merten, o longa passa-se no século 20. “Em outra cena Truffaut mostra um cinejornal em que simpatizantes nazistas queimam livros. Esse ataque à cultura é certamente mais chocante do que o triângulo formado por uma mulher e dois homens”, anota, num belíssimo texto sobre a saudade e as imagens em preto e branco de Truffaut.
Talvez se possa dizer que, a partir daí, nasce um novo François Truffaut, aquele que se volta ao afeto e ao amor entre homem e mulher. Como um Henri Matisse, pincela sua imagem, açucarando-a. Despede-se do crítico, acena ao sedutor, ao homem que amava as mulheres.
Adepto do maoísmo, Jean-Luc Godard declarou que Truffaut havia se aburguesado. Em resposta, no melhor estilo polemista de outrora, o cineasta atacado deu a velha amizade por encerrada e partiu para o ataque: “Você é um merda.” A camaradagem virou inimizade.
A “Mostra Truffaut” é, em resumo, uma chance de conhecer, ou revisitar, o cinema do mestre francês. Morto precocemente por câncer no cérebro, aos 52 anos, em 1984, Truffaut veio ao mundo para filmar o amor. O Cine Cultura inicia o ano muito bem, obrigado.

Confira as sessões
05/01 – Segunda-feira
14h: A História de Adèle H. (François Truffaut, 1975, 96 min.)
16h: Uma Jovem Tão Bela Quanto Eu (François Truffaut, 1972, 98 min.)
18h10: O Garoto Selvagem (François Truffaut, 1970, 90 min.)
20h: Os Pivetes (François Truffaut, 1957, 18 min.) + Os Incompreendidos (François Truffaut, 1959, 99 min.)
06/01 – Terça-feira
14h: O Último Metrô (François Truffaut, 1980, 131 min.)
16h45: Fahrenheit 451 (François Truffaut, 1966, 113 min.)
19h15: Antoine e Colette (François Truffaut, 1962, 30 min.) + Beijos Roubados (François Truffaut, 1968, 90 min.)
07/01 – Quarta-feira
13h45: Jules e Jim (François Truffaut, 1962, 106 min.)
16h: A Noiva Estava de Preto (François Truffaut, 1968, 107 min.)
18h15: Domicílio Conjugal (François Truffaut, 1970, 97 min.)
20h15: Atirem no Pianista (François Truffaut, 1960, 85 min., cópia restaurada em 4k)
08/01 – Quinta-feira
13h45: As Duas Inglesas e o Amor (François Truffaut, 1971, 130 min., cópia restaurada em 4k)
16h15: A Mulher do Lado (François Truffaut, 1981, 106 min., cópia restaurada em 4k)
18h30: Um Só Pecado (François Truffaut, 1964, 119 min., cópia restaurada em 4k)
20h45: O Amor em Fuga (François Truffaut, 1979, 93 min.)
09/01 – Sexta-feira
14: De Repente, Num Domingo (François Truffaut, 1983, 110 min., cópia restaurada em 4k)
16h15: Na Idade da Inocência (François Truffaut, 1976, 104 min.)
18h30: O Quarto Verde (François Truffaut, 1978, 95 min.)
20h30: A Sereia do Mississipi (François Truffaut, 1969, 123 min.)
10/01 – Sábado
14h: O Garoto Selvagem (François Truffaut, 1970, 90 min.)
16h10: O Homem Que Amava as Mulheres (François Truffaut, 1977, 119 min.)
19h00: Na Idade da Inocência (François Truffaut, 1976, 104 min.)
11/01 – Domingo
14h: O Último Metrô (François Truffaut, 1980, 131 min.)
16h40: As Duas Inglesas e o Amor (François Truffaut, 1971, 130 min., cópia restaurada em 4k)
19h15: A Noiva Estava de Preto (François Truffaut, 1968, 107 min.)
12/01 – Segunda-feira
14h: Atirem no Pianista (François Truffaut, 1960, 85 min., cópia restaurada em 4k)
15h45: De Repente, Num Domingo (François Truffaut, 1983, 110 min., cópia restaurada em 4k)
18h: Fahrenheit 451 (François Truffaut, 1966, 113 min.)
20h15: O Quarto Verde (François Truffaut, 1978, 95 min.)
13/01 – Terça-feira
13h45: A Sereia do Mississipi (François Truffaut, 1969, 123 min.)
16h: A Noite Americana (François Truffaut, 1973, 116 min.)
18h15: Uma Jovem Tão Bela Quanto Eu (François Truffaut, 1972, 98 min.)
20h10: O Homem Que Amava as Mulheres (François Truffaut, 1977, 119 min.)
14/01 – Quarta-feira
13h45: Um Só Pecado (François Truffaut, 1964, 119 min., cópia restaurada em 4k)
16h: A História de Adèle H. (François Truffaut, 1975, 96 min.)
17h55: A Mulher do Lado (François Truffaut, 1981, 106 min., cópia restaurada em 4k)
20h: Jules e Jim (François Truffaut, 1962, 106 min.)
15/01 – Quinta-feira
13h45: Os Pivetes (François Truffaut, 1957, 18 min.) + Os Incompreendidos (François Truffaut, 1959, 99 min.)
16h: Antoine e Colette (François Truffaut, 1962, 30 min.) + Beijos Roubados (François Truffaut, 1968, 90 min.)
18h15: Domicílio Conjugal (François Truffaut, 1970, 97 min.)
20h15: O Amor em Fuga (François Truffaut, 1979, 93 min.)
Fotos: Divulgação