UE fecha acordo histórico com Mercosul após 25 anos de negociações
Léo Carvalho
Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 10:03 | Atualizado há 5 meses
Acordo entre União Europeia e Mercosul ainda precisa passar por processos de ratificação nos parlamentos dos dois blocos | Foto: Reprodução
A União Europeia (UE) e o Mercosul chegaram a um acordo político para a criação de uma ampla área de livre comércio, encerrando um processo de negociações iniciado em 1999. O entendimento, anunciado neste início de 2026, envolve os 27 países da União Europeia e os quatro membros plenos do Mercosul Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, e estabelece um mercado integrado com cerca de 700 milhões de consumidores.
O acordo prevê a eliminação gradual da maior parte das tarifas de importação entre os dois blocos. Produtos industriais europeus como automóveis, máquinas, equipamentos, produtos químicos e farmacêuticos terão redução significativa de impostos para acesso ao mercado sul-americano. Em contrapartida, países do Mercosul ampliarão o envio de produtos agrícolas e agroindustriais para a Europa, incluindo carnes, grãos, açúcar e etanol, dentro de cotas e regras específicas.
No setor agrícola, considerado o ponto mais sensível das negociações, o texto estabelece limites de exportação para determinados produtos, além de cláusulas de salvaguarda. Essas regras permitem a adoção de medidas temporárias caso haja impacto relevante sobre produtores locais. Também estão previstas exigências sanitárias, fitossanitárias e ambientais, que deverão ser cumpridas pelos exportadores do Mercosul.
Resistência europeia
O acordo não entra em vigor de forma imediata. Na União Europeia, o texto precisa ser aprovado pelo Conselho da UE e pelo Parlamento Europeu. O processo ocorre em meio à oposição de países como França, Áustria, Irlanda, Polônia e Hungria, que manifestaram preocupação com a concorrência de produtos agrícolas sul-americanos e com a aplicação de normas ambientais. Protestos de agricultores foram registrados em capitais europeias nos últimos dias.
No Mercosul, a ratificação depende da aprovação dos parlamentos nacionais. Governos da região avaliam que o tratado pode ampliar o acesso a um dos mercados mais relevantes do mundo e diversificar destinos de exportação, reduzindo a dependência de parceiros tradicionais como China e Estados Unidos. Ao mesmo tempo, setores industriais locais apontam riscos de aumento da concorrência com produtos europeus de maior valor agregado.
Pode ser o fim do retrocesso
As negociações entre UE e Mercosul atravessaram mais de duas décadas, com sucessivos impasses relacionados à agricultura, meio ambiente, compras governamentais e padrões regulatórios. Um acordo técnico havia sido anunciado em 2019, mas ficou paralisado nos anos seguintes. O novo entendimento incorpora ajustes políticos e compromissos adicionais exigidos por países europeus para destravar o processo.
Caso seja ratificado, o tratado será um dos maiores acordos comerciais já firmados pela União Europeia e pelo Mercosul, com impacto direto sobre fluxos de comércio, cadeias produtivas e investimentos entre os dois blocos ao longo dos próximos anos.