Momo se prepara para tomar as ruas de Goiânia com cores e alegria
Redação
Publicado em 11 de janeiro de 2026 às 19:33 | Atualizado há 5 meses
Foliões se articulam com poder público para garantir carnaval que deve entrar para a história da cidade
Marcus Vinícius Beck
No dia em que o deus Momo for exilado, o mundo se acaba. Boa prece, não é? Seu autor, amigo, chama-se Machado de Assis, ou Bruxo do Cosme Velho, cuja pena esteve sempre afiada, calibrada na folia. E esse é o espírito momístico das próximas semanas, vai vendo.
Não há como negar, ensina-me o mestre. Você pode pensar: e Goiânia, escriba? Bem, meu rapaz, aqui a Liga dos Blocos de Carnaval de Rua vem forte à avenida, para fazer o coração palpitar na terra, se me permite outro diálogo com Machadão — coisa de mentor pra pupilo.
Só voltaremos a pensar na vida e num mundo na Quarta-feira de Cinzas. Até lá, os foliões estarão espalhados pela cidade, embora o Centro da capital concentre blocos e música. Nos últimos cinco anos, a região se tornou um território povoado por efervescência criativa.
Quem se diz inimigo de Momo precisará de tomar o trem e partir para longe, como escreveu em fevereiro de 1949 a cronista Rachel de Queiroz na extinta revista “O Cruzeiro”. Segundo a autora cearense, não adianta ter bigode, ser desembargador, nem coronel e muito menos “gritar, sapatear, dar ataque”. O Carnaval não morre, não se acaba, não se retira das ruas.
Assim deve ser o espírito durante o tríduo de Momo em Goiânia. À frente da Liga dos Blocos, o produtor cultural Vitor Cadillac revela ao DM que haverá parceria com os bares da Rua 8 e do Lazer, que se mostram atores culturais relevantes na construção coletiva da festa.

Planejamento
Cadillac declara que os preparativos são conduzidos de olho em planejamento, diálogo e articulação institucional. Ele afirma que, além da organização junto aos blocos, existe uma negociação política em curso, na qual se tem a Prefeitura de Goiânia, comandada por Sandro Mabel (União Brasil), e o amparo legislativo do deputado federal Rubens Otoni (PT).
No último mês, Mabel se reuniu no Paço Municipal com 30 blocos filiados à Liga. Durante a conversa, acompanhada por secretários municipais e equipes técnicas da administração, os produtores avançaram na construção de um Carnaval histórico, com blocos tradicionais e modernos, incluindo samba, hip hop, black music e movimentos de bairros.
Conforme Cadillac, Otoni contribui para o alinhamento entre os organizadores e o poder público, viabilizando os encaminhamentos necessários. “O apoio do poder público é fundamental para que o Carnaval de rua aconteça de forma organizada e segura”, revela o produtor à reportagem, destacando a atuação integrada da prefeitura da capital goiana.
Antes do feriadão momístico, entre 14 e 17 de fevereiro, o clima carnavalesco se dissemina pela capital goiana. Em uma espécie de aquecimento, os bares, os blocos e as festas desenham o mapa sonoro do pré-Carnaval da metrópole, que se iniciará em breve.
Antes do feriadão, eventos agitam a cidade com shows

A galera dançando nas ruas, os blocos nas esquinas aglutinando geral, a música ecoando no espaço urbano, tudo isso já tem data para começar: dia 25 de janeiro. Segundo o Shiva, que fica no Setor Oeste, o pré-Carnaval reúne música nortista, surf music e a festa O Piranhão.
Dessa vez, a casa anuncia como destaque o paraense Felipe Cordeiro, um dos nomes mais festejados da cena amazônica. O artista é expoente da guitarrada, estilo que nasceu na região Norte a partir de elementos do carimbó e da cúmbia. Cordeiro está na estrada há 20 anos.
Além dele, o Shiva, conhecido pelo cardápio de shows alternativos, traz à capital goiana a banda alemã Mermaid Man. Com seu pop cinematográfico, o grupo agita o underground europeu nos últimos anos, misturando o garage psicodélico e soul — intrigante, no mínimo.
Já os cariocas do Beach Combers, entre surf music e lisergia dos anos 1960, levam seus três álbuns ao Shiva. Ainda no Bloco Esquina, os DJs Áureo Rosa e Gabi Matos vão discotecar durante a festa O Piranhão, à qual levarão brega, forró, funk e lambada, dentre outros sons.
Raízes
Por seu lado, o Blokinho Uai desfilará pelas ruas do Setor Marista no dia 7 de fevereiro, apostando na tradição do samba, na ocupação da cidade e numa festança segura. Para a 3ª edição do Blokinho, os organizadores confirmam os shows de Terra Samba e CDB.
Unido há anos à história do carnaval de rua goianiense, o produtor cultural Marcos Freitas acredita que a folia não é apenas entretenimento, mas também cultura e memória, bem como identidade e história. “É possível crescer sem perder a essência do carnaval de rua, que é a tradição, o encontro e o pertencimento. O Blokinho Uai sugere desse entendimento”, diz.
Na Praça Universitária, o Bloco Socialista começa no dia 12 de fevereiro com a cantora Flávia Carolina e, em seguida, a banda Mundhumano arrepia na dança fácil. O momento atual, afirma o produtor Vitor Cadillac, vem da organização e do diálogo desde 2018, mas “que hoje permite avançar na democratização da folia de forma mais estruturada e abrangente”.

Foto de destaque: Divulgação