‘Cem Anos de Solidão’: Netflix garante que 2ª temporada sai em agosto
Redação
Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 20:45 | Atualizado há 5 meses
Diego Vásquez faz personagem José Arcadio Buendía, conhecido pela curiosidade e capacidade de abstração
Foram só oito episódios, porém os literatos aprovaram e disseram: uai, e a nova temporada? Aqui está: “Cem Anos de Solidão” reestreia neste ano, com “as estirpes condenadas a cem anos de solidão [que] não tinham uma segunda oportunidade sobre a Terra”, para invocar Gabo.
A 2ª temporada da série chegará ao catálogo da Netflix em agosto. Baseada num clássico do realismo mágico, a adaptação tornou-se popular e, mais do que isso, foi bem falada entre os fãs do romance, obra-prima da literatura latino-americana publicada durante os anos 1960.
Sob direção de Laura Mora e Carlos Moreno, a produção será ambientada num cenário de disputa política. Embora no fim da 1ª temporada existissem um armistício e a assinatura do Tratado de Neerlândia, a paz não se vê: Macondo é acossada por conservadores e liberais.
Tentando reagir às ameaças do Coronel Aureliano Buendía, a elite arma um ataque que, de acordo com a sinopse da Netflix, levará para a cidade Fernanda del Carpio, vinda de uma família nobre. De repente, sem avisar, a moça se enamorará e se casará com Aureliano Segundo, gêmeo de Arcadio. Então Úrsula Iguarán, feliz, terá seus herdeiros legítimos.
O tempo, esse senhor de destinos, se preteriza: os anos 1950 foram decisivos e, sem afinidade com o curso de direito, um jovem deleita-se relendo “Luz em Agosto”, de William Faulkner. A mãe lhe pede que a acompanhe para vender a casa da família em Aracataca. No vilarejo, encara a placa diante de seus olhos: Macondo. Esta palavra chama sua atenção, inquieta-o.
Nas primeiras linhas, “Cem Anos de Solidão” descreve Macondo: “Era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitaram por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos.”
Ficção e memória
Segundo Gabo conta no livro “Viver para Contar”, a vida não é o que se recorda, e como se recorda para contá-la. Aquela palavra — Macondo — ficou ali, ressoando dentro dele pelos próximos 17 anos: “Só depois de adulto descobri que gostava da sua ressonância poética.”
Muitos anos depois, diante de dois intelectuais latino-americanos, o escritor Gabriel García Márquez haveria de apreciar aquele almoço na Piazza Nova, em Roma, na Itália, onde se encontrava para denunciar violações de direitos humanos. Gabo ajeitou-se na cadeira e, sem que pudesse pensar por um ou dois segundos, um tal brasileiro passou a questioná-lo.
O cineasta Glauber Rocha, talvez embalado pelo vinho, ou apenas eufórico por estar em tão ilustre companhia, inquiriu-o sobre a chance de levar “Cem Anos de Solidão” para o cinema. “Nunca”, disse o autor. “Sintetizar [em filme] essa história de sete gerações dos Buendía, toda a história do meu país e de toda a América Latina, da humanidade, é impossível.”
Em 432 páginas, o romance acompanha também a matriarca Úrsula, que viveu entre 115 e 122 anos. Seu marido, José Arcadio Buendía, “cuja desatada imaginação ia sempre mais longe que o engenho da natureza”, tinha insaciável curiosidade e alta capacidade de abstração. A esposa, enquanto isso, tratava de cuidar do “raquítico patrimônio familiar”.

Estudiosa diz que Gabo era ‘esgrimista’ das palavras
Se os Aurelianos são pacatos e introvertidos, descreve o narrador, os José Arcadio têm características impetuosas e extrovertidas. Essas descrições revelam um esgrimista das palavras, que as maneja de modo a fixá-las na memória do leitor, para citar a crítica literária Suziane Carla Fonseca, autora de uma tese de doutorado sobre “Cem Anos de Solidão”.
Para a pesquisadora, o romancista criou imagens que ficaram impressas em nossa memória tal qual a passagem do tempo. “Imagens que permanecem inscritas profundamente em nós como a doce melodia da infância, a qual não nos abandona mesmo na velhice”, pontua Fonseca, em “Os Espaços de Memória e a Morte Como Imagem em Cien Años de Soledad”.
Defendida na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a pesquisa parte da premissa de que a literatura de Gabo se assenta em uma “potência visual”. O escritor, diz a estudiosa, manuseava, “como poucos”, temas pertinentes à literatura, maturando sua prosa poética.
Não bastava falar de amor, das mortes, de sangue e violência, ou até mesmo da beleza e das maravilhas. “Era preciso reinventar o modo de dizer, de duelar com os vocábulos criando, como dito anteriormente, imagens de grande apelo visual”, assinala a especialista.

Livrarias
Com 8 mil cópias impressas, a primeira edição de “Cem Anos de Solidão” evaporou assim que fora exposta nas livrarias. Publicado em 1967 pela editora argentina Sudamericana, cuja sede ficava em Buenos Aires, o romance projetou seu autor no cenário internacional e, de quebra, melhorou a condição financeira dele e de sua esposa, a fiel Mercedes Barcha.
Toda a obra foi escrita com Gabo descapitalizado. Conta-se que o escritor entregara US$ 1,5 mil a Mercedes e pedira que ela administrasse esse dinheiro até que colocasse o ponto final no livro. Afirmou ser necessário “apenas” seis meses para terminá-lo, mas levou 18.
Ao editor Francisco Porrúa, o colombiano endereçou em 1965 uma carta na qual dizia trabalhar num romance. “Apesar das dificuldades com que trabalho neste livro há 15 anos, estou me esforçando para finalizá-lo o mais tardar em março”, disse. Porrúa, lendo o manuscrito, chegou a jogá-lo para o ar — tamanha a qualidade do que via em suas mãos. Não sabia se Gabo era gênio ou louco. Talvez fosse os dois.
Foto de destaque: Netflix