Ratos de Porão lança nas plataformas disco ‘Feijoada Acidente? – Brasil’
Redação Online
Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 14:50 | Atualizado há 6 meses
Discurso engajado: banda paulistana grita versos críticos sobre sociedade do consumo e seus bens descartáveis
Já é noite: odiamos John Travolta. No Martim Cererê, esse oásis goianiense, roqueiros e proletários formam suas rodas. Como se estivesse queimando a caduquice, os cigarros esfumaçam a conversa, abastecida por chopes ou aquele uisquão. É um show punk.
Para os gatões e suas cocotinhas, o Ratos de Porão diz: “Essa musiquinha é em homenagem ao seu ídolo/ O pobre, o sujo, John Travolta.” João Gordo domina o palco e, enquanto a galera vibra e ulula, caminha pra cá e pra lá, meneando a cabeça e microfonando a revolta.
Parecia um show no CBGB. Mas aí o repórter, com os olhos atentos e corpo suspenso no ar, embrenha-se na falácia do sonho realizado, na mentira do conceito de vitória, na estupidez de que precisamos competir e vencer numa sociedade que dita que você será alguém se fizer sucesso ou ganhar uma grana e ficar rico. “Ganância e ambição”, vocaliza João Gordo.
Senhores, que banda de três acordes! A música é insana: “Só o dinheiro é o que importa/ Capitalismo/ Um mal incurável/ Capitalismo/ O homem é irresponsável/ ca-pi-ta-lis-mo.” Mais louco ainda, “Feijoada Acidente? — Brasil” chega ao streaming pelo ONErpm.
Saiu em 1995, o álbum. É um relançamento que, pensando um pouco, torna o catálogo do grupo acessível para os jovens. A chama da anarquia não irá se apagar. Vida longa a João Gordo (vocal), Jão (guitarra), Boka (bateria) e Juninho (baixo). O hardcore não morre. O punk não morre.
Era 1982: o punk rock, no Brasil, tem como marco zero o festival “Começo do Fim do Mundo”, ocorrido no Sesc Pompeia, em São Paulo. O Brasil levava a sério o título de vanguarda do atraso terceiro-mundista: futebol, economia e política eram um fracasso.
Havia uma falta de perspectiva generalizada, uma angústia permanente. Anos antes, em 1979, a Lei da Anistia livrara os militares da cadeia pelos crimes cometidos durante a ditadura. Restava a fúria, a revolta, o punk — e poucos, só os privilegiados, tinham grana.
Criado nesse contexto, o Ratos batalhou no underground sem abrir mão de sua criticidade, sonoridade agressiva e diálogo entre punk, hardcore e metal. Nas últimas décadas, o grupo se colocou como nome influente do rock brasileiro. Fez discos clássicos, barulhentos.
“Feijoada Acidente? – Brasil” possui tal status. As 19 faixas tornam a obra um título especial entre os fãs, com suas canções elementares à formação musical do grupo, apresentadas em versões diretas, cruas e fiéis ao espírito original, mas com uma produção encorpada. O nome escolhido pelos paulistanos brinca com “The Spaghetti Incident?”, do Guns N’ Roses.
Para João Gordo, a obra retorna às raízes punk. “A gente estava meio perdido porque tentamos carreira internacional e não deu muito certo. A gente tinha lançado ‘Just Another Crime in Massacreland’, um disco em inglês, bem gravado, bem produzido, mas era meio esquisitão, muita mistura de estilo que as pessoas não entenderam muito”, explica.
Ratos tornou-se referência do punk brasileiro

Até “Feijoada Acidente? – Brasil”, o Ratos de Porão comeu poeira na estrada. O primeiro disco, “Crucificado pelo Sistema”, de 1984, tem músicas que viraram sucessos instantâneos, tanto aqui, onde são presença certa em festivais, quanto lá fora, em cujos palcos enfileiram fãs de música alta.
O Ratos, bravíssimo, seguiu em frente. Em 1986, o sombrio metalpunk “Descanse em Paz” definiu a identidade estética do grupo. Nos próximos anos, saiu a trilogia crossover, “Cada Dia Mais Sujo e Agressivo” (1987), “Brasil” (1989) e “Anarkophobia” (1990).
Assim estava o Ratos: vivendo sua fase mais intensa. É por esses anos que o grupo apresenta a receita mágica. Com a precisão do thrash metal, os caras fabricam hardcore cuja realidade nacional surge em tom às vezes satírico, às vezes jornalístico — um documento, digamos.
Sobre “Feijoada Acidente?”, João Gordo afirma que voltar a tocar punk rock e hardcore foi “extremamente importante”. O disco se destaca pela regravação definitiva de “Beber Até Morrer”, bem como se transforma em um registro malucão do underground brasileiro.
“Cara, essa música eu fiz em um dia que estava bêbado, na casa de uma amiga. Quando eu acordei, a letra estava pronta em cima da mesa”, lembra o artista. “Então ela representa, assim, um hino da banda. Na verdade, muita gente acha que beber até morrer é a solução, mas não é, cara. Parar de beber depois de certo tempo é bem importante para a saúde.”
No momento, os punks percorrem o país com a turnê de 40 anos, que também marca o lançamento do álbum “Necropolítica”, desenvolvido durante a pandemia. Esse disco, aliás, fertilizou-se ao longo do negacionismo do governo de Jair Bolsonaro. Vida longa ao Ratos de Porão.