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Grammy 2026: Caetano e Bethânia concorrem ao gramofone de música global

Redação

Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 21:43 | Atualizado há 4 meses

Bethânia e Caetano: fases da música brasileira
Bethânia e Caetano: fases da música brasileira

Marcus Vinícius Beck

Onde queres descanso, desejo. O quereres e o estares sempre a fim. Caetano Veloso e Maria Bethânia concorrem neste domingo (1º/1) ao Grammy Awards 2026 na categoria de Melhor Álbum de Música Global. Será na Crypto.com Arena, em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Se, como dizia esse compositor de destinos, a vida é real e de viés, ele encontra a mais justa adequação. Tem métrica e rima, quase nunca dor. Faz-me querer-te bem, querer-te mal.

Vitrolada ligada, agulha no ponto: “E onde queres mistério, eu sou a luz.” Tá certo, Caetano. O Grammy 2026 terá transmissão ao vivo pela TNT e pela plataforma HBO Max, a partir das dez da noite. “Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor”, sopra-me o baiano.

Aquele 9 de novembro de 2024 é para nunca desaparecer da memória. Nunca mais. Não foi apenas libertador mirá-lo ao lado da mana Maria Bethânia, foi certeza de que o Brasil tem o fino som do quereres. Onde querias ternura, eram tesão. Brasília se odarizou, digamos.

Foi no Mané Garrincha, com olhares compenetrados de 40 mil pessoas. Delineado pelos traços da arquitetura moderna, o estádio recebeu Caetano às nove e vinte da noite. Começou entoando “Alegria, Alegria”, fundadora do tropicalismo ao lado de “Domingo no Parque”.

Testemunhou-se o artista e seus versos na noite brasiliense. Na letra, documenta o princípio do movimento ao qual se ligaria, sob o coro dos fãs. Em 1967, mandava a ditadura. Era nesse contexto que se declamava: “Caminhando contra o vento/ Sem lenço, sem documento”.

Tempinho depois, Bethânia recita com sua voz ancestral: “O Sol nas bancas de revista/ Me enche de alegria.” Explodia o verso jornalístico: “Quem lê tanta notícia?” Matriz e motriz, como tudo o que se viu na turnê e agora se ouve no disco “Caetano e Bethânia Ao Vivo”.

O arranjo, seja no álbum ou nos shows, segue a sonoridade desenhada pelos diretores musicais Jorge Helder e Lucas Nunes. Entre o samba-jazz, samba-reggae e maracatu-jazz, a banda de 14 instrumentistas articula a sensualidade dos sopros e a malícia das percussões.

Foi bonita a interpretação, pá, geral ali comovido. Só para variar, Caetano e Bethânia se mostraram seguros. Eis a sequência de canções: “Os Mais Doces Bárbaros”, “Gente” e “Oração ao Tempo”, além de “Alegria, Alegria”, que abriu o concerto no Distrito Federal.

Durante duas horas, os irmãos dividiram os vocais em meio a clássicos, hits radiofônicos e homenagens a outros compositores. De Raul Seixas, esse maluco beleza, a dupla interpretou “Gita”. De Roberto Carlos, esse rei sentimental, “As Canções que Você Fez Pra Mim”.

Sincretismo religioso se manifestou durante turnê

Bethânia e Caetano dividem palco por duas horas em disco que eterniza turnê

É como se Bethânia murmurasse: “chegou até comigo, vai voltar comigo.” Caetano, sob a dádiva de Dona Canô, acompanhou-a ao Rio, quando ela fez, em 1965, sua estreia com o show Opinião. Despedida? Não se sabe. Há, todavia, um tom de adeus — ele tem 83; ela, 79.

Caetano, em tom provocador, acena aos evangélicos ao cantar “Deus Cuida de Mim”, gospel gravado com o pastor Kleber Lucas em 2022. O artista se diz “não propriamente religioso”, embora respeite os neopentecostais. Muita gente passou a criticá-lo pela canção cristã.

Na dúvida, pegue o lenço. O sincretismo religioso surge em disco e show. Qual uma orixá dos ventos e raios, a cantora ressoa versos de “Fé”: “Hoje eu só vim agradecer por tudo o que Deus me fez/ Quem me conhece sabe o que vivi e o que passei.” Haja veneno, Bethânia. 

Horas antes do show, em um fim de tarde ensolarado, casais sorriam — trocavam beijos. Bate até uma felicidade neste cronista caetaneado. Bem ali, um homem e uma mulher, 40 e tantos anos, talvez cinquenta, trocam o pão com manteiga do cotidiano pelo caviar anti-monotonia. 

Chegou o dia, nem acreditam. Mas Caetano, em “Sozinho”, de Peninha, quase sempre fica ali sonhando acordado. “Eu fico imaginando nós dois”, diz. Vai em frente cantando “Você Não Me Ensinou a Te Esquecer”, entre sussurros e soluços, com o Mané Garrincha em coro. 

Naquela noite brasiliense tingida pelas cores da paixão, Caetano volta a Bethânia. Cada qual em um canto. Iniciam-se os acordes de “Baby”, aqui uma declaração à cantora Gal Costa. Vibra “Vaca Profana”, que teve refrão vocalizado — com saudade — pela drama-rainha. 

Tudo se acabou em “Uma Baiana”. E tudo pode acontecer no Grammy 2026, até Caetano e Bethânia vencerem Siddhant Bhatia, Burna Boy, Youssou N’Dour, o supergrupo indo-jazz Shakti e Anoushka Shankar e conquistarem o gramofone. Onde queres descanso, desejo. 

Foto: Fernando Young/ Divulgação


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