Entre tradição e inflação a Semana Santa eleva consumo e custo dos alimentos
Giovanna Gonçalves - Estágio DM
Publicado em 31 de março de 2026 às 15:30 | Atualizado há 4 meses
Alta na demanda por pescado durante a Quaresma movimenta a economia, mas encarece produtos típicos e impacta consumidores | Foto: Reprodução
Abstinência de carne vermelha durante a Quaresma se tornou uma prática recorrente entre brasileiros, inclusive entre aqueles que não seguem o catolicismo. Dados da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) apontam que a Semana Santa está entre os períodos mais relevantes para o consumo no país, especialmente de itens como peixes e ovos. Ao mesmo tempo em que impulsiona a cadeia produtiva, o aumento da demanda também pressiona os preços e impacta o bolso do consumidor.
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A tradição católica de se abster de carne na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa serve como preparação para a Páscoa e baseia-se no tripé: jejum, oração e esmola (caridade).
No entanto, mesmo que o período seja voltado para a penitência e a renúncia, a moderação não se reflete nos preços. Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), em 2025, os preços do bacalhau subiram 9,6% e o azeite de oliva, 9%. No geral, a cesta de produtos típica do período ficou, em média, 7,4% mais cara em relação a 2024.
Na prática, esse impacto já é sentido pelos consumidores.
Tradição que se sobressai
A reportagem do DM Online conversou com a estudante de jornalismo Daniella Bruno, de 19 anos, sobre seus hábitos e da sua família durante a Semana Santa.
Daniella explicou que, mesmo não sendo católica nem frequentando a igreja, ela e a família mantêm o hábito de não consumir carne vermelha na Sexta-feira Santa. Em vez disso, optam por proteínas de peixe.
Ao ser questionada sobre o impacto econômico da substituição da carne vermelha pelo peixe, a estudante destacou o custo mais elevado. “Peixe é bem caro”, explica. Segundo ela, o costume da família é consumir camarão ou bacalhau. “Tanto o peixe quanto os preparos acabam gerando um gasto maior.”
Ela afirmou que tem uma relação tranquila com essas tradições, apesar de não ter crescido em um ambiente religioso, mas destacou que não atribui grande importância à prática. “Não faço muita questão, para mim não faz muita diferença fazer ou não”, disse.
Segundo Daniella, o costume foi passado pela mãe, que foi criada num ambiente de tradição católica. “Ela não me criou religiosa, mas gosta de passar algumas dessas tradições. Desde sempre me lembro de comer peixe na Sexta-Feira da Paixão”, ressaltou.

Consumo concentrado de pescado
A alta demanda da Sexta-feira Santa – que em 2026 cai no próximo dia 3 de abril – impulsionou um aumento de mais de 53% no consumo de pescado ao longo da última década, de acordo com a Associação Brasileira da Piscicultura (PeixeBR). Dados de 2025 apontam um aumento de 20% nas vendas de peixes frescos nos supermercados nesse período. Para este ano, no período da Quaresma, o consumo do peixe deve crescer, em média, 30% no país, segundo a PeixeBR.
O impacto econômico da Semana Santa se estende por toda a cadeia produtiva. O Ministério da Pesca e Aquicultura aponta que a data movimenta desde a produção até a comercialização, envolvendo pescadores, distribuidores e supermercados.
Nesse contexto, a tilápia se consolidou como o peixe mais consumido no país, representando cerca de 68% da produção de cultivo nacional, segundo dados do setor aquícola. Por ser produzida em larga escala, apresenta preços mais estáveis e se torna uma alternativa durante períodos de alta demanda.
O consumo de pescado no Brasil cresceu mais de 50% na última década, impulsionado pela expansão da piscicultura. Ainda assim, o consumo médio anual permanece relativamente baixo. Dados do Instituto de Pesca de São Paulo indicam que o brasileiro consome, em média, cerca de 9 kg de peixe por ano, o que reforça o caráter sazonal desse consumo.
Essa diferença fica mais evidente quando comparada a espécies tradicionais da Semana Santa, como o bacalhau. Segundo levantamento da CNC, o preço do produto registrou alta de cerca de 9,6% em relação ao ano anterior (2025).
Diante disso, peixes nacionais e mais acessíveis ganham espaço. Espécies como sardinha, merluza e a própria tilápia passam a substituir o bacalhau nas mesas brasileiras.
Segundo análise do setor supermercadista divulgada pela ABRAS, a busca por alternativas mais baratas cresce justamente em períodos de pressão inflacionária, como o atual, em que a cesta de produtos da Páscoa deve ficar, em média, 7,4% mais cara.