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Procissão do Fogaréu acende as ruas históricas da Cidade de Goiás

Redação Online

Publicado em 30 de março de 2026 às 20:32 | Atualizado há 4 meses

Igreja do Rosário brilha em meio a luzes e chamas - Foto: Secom/ Governo de Goiás
Igreja do Rosário brilha em meio a luzes e chamas - Foto: Secom/ Governo de Goiás

Marcus Vinícius Beck

À meia-noite desta quarta (1°), quando as luzes se apagarem e as pessoas se reunirem nas ruas históricas, a Cidade de Goiáshttps://goias.gov.br/semana-santa-na-cidade-de-goias-conta-com-investimentos-de-r-200-mil/ se transformará ao som dos tambores. A luz das tochas, com sua beleza e força primitiva, vai iluminar nesta Semana Santa a demonstração da fé.

A Procissão do Fogaréu leva aos becos e vielas vilaboenses elementos cênicos geradores de tensão, tais como o fogo, as trevas, a água que dissipa as chamas, o ritmo do tambor, a melodia marcial, o diálogo tenso entre o personagem Nicodemos e o coro dos farricocos.

Encenada desde 1745, a Procissão foi trazida a Goiás pelo padre espanhol João Perestello de Vasconcelos Spíndola. É considerada um dos eventos litúrgicos mais fascinantes da Semana Santa no País. Milhares de turistas se dirigem à histórica cidade goiana nesta época.

Em 2026, a programação religiosa e cultural faz 281 anos. As atividades têm apoio financeiro do Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), que direciona R$ 200 mil para a realização do evento — um destino de turismo religioso procurado país afora.

De acordo com Yara Nunes, é necessário preservar uma das tradições religiosas e culturais mais marcantes de Goiás. A titular da Secult diz que a manifestação integra a identidade da população vilaboense, além de a Semana Santa aquecer e movimentar a economia local.

“O investimento do Governo de Goiás é fundamental para garantir a estrutura necessária à realização das celebrações e para acolher moradores e visitantes que participam desse momento tão significativo”, destaca a secretária de Estado da Cultura, sobre a Procissão.

Programação religiosa e cultural faz 281 anos em 2026 – Foto: Hegon Corrêa e Júnior Guimarães/ Governo de Goiás

Festividades

As festividades tiveram início com a Semana dos Passos, no último dia 16. Em seguida, houve o Setenário das Dores, de 22 a 28 de março, tendo missas em igrejas da Cidade de Goiás. Depois da Procissão, entre 6 e 7 de abril, vai haver a Folia do Divino Espírito Santo.

Sede da Folia do Divino, a Catedral de Sant’Ana passou por reformas. Foi entregue aos vilaboenses no ano passado. Ao todo, o Governo investiu R$ 4,6 milhões para revitalizá-la. Construída de forma rudimentar em 1743, é conhecida pelo estilo arquitetônico neoclássico.

Antes disso, a Procissão do Fogaréu vai simbolizar a busca e a prisão de Jesus Cristo. Uma das encenações religiosas mais festejadas no Brasil, a Procissão vai começar às 23h59, em frente ao Museu de Arte Sacra da Boa Morte, no Centro Histórico da Cidade de Goiás.

O clímax dramático, segundo a historiadora Ana Rêgo, ocorre quando Jesus Cristo é capturado pelos soldados romanos. Quarenta farricocos andam pelas ruas de pedra, com suas vestes longas e coloridas, chapéus pontudos e tochas exuberantes.

Entre angústia e esperança, evento atrai olhares

Procissão é reconhecida como patrimônio imaterial pelo Iphan – Foto: Marcello Casal Jr/ ABr

Para Ana Rêgo, homens fortes, altos, carregam archotes, vestindo túnicas e capuzes que, mesmo explodindo em cores, lembram imagens inquietantes de algozes, carrascos e inquisidores. Eles marcham sem hesitação e tampouco desviam seus olhares das pessoas.

Em sua tese de doutorado, defendida na Universidade de Brasília (UnB), a pesquisadora diz que a Procissão traz um discurso que oscila entre a angústia e a esperança. “Não há como ignorar a representação explícita do aparato repressivo: trata-se, afinal, de uma perseguição que vem sendo encenada há dois mil anos”, afirma a historiadora. 

Desde 2020 — ano no qual as tochas se apagaram por causa da covid —, a encenação é reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio imaterial. Renata Barros, do Iphan-GO, explica a relevância cultural da peça.

“O trajeto começa na frente da Igreja da Boa Morte, passando pelas Igrejas do Rosário e de São Francisco de Paula, tendo seu ritmo ditado pela fanfarra que, com diferentes tipos de toques, impõe a marcha dos farricocos”, disse Barros, para o Ministério da Cultura (MinC).

Presidente da Organização Vilaboense de Artes e Tradições (Ovat), Guilherme Antônio destaca as dimensões da Semana Santa. “A litúrgica, conduzida pela Igreja; a paralitúrgica, marcada por novenas e orações; e a cultural, sob responsabilidade da OVAT, que preserva tradições como a Procissão do Fogaréu, a dos Penitentes e o Descendimento da Cruz”.

Segundo Guilherme Antônio, essa integração garante que fé, memória e cultura caminhem juntas e mantenham viva uma celebração que atravessa séculos de história. Como um pulsar dionisíaco, a paixão ganha a cena, as ruas e os olhares. As emoções estão afloradas.


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