Economia

Economia receberá R$ 742 bilhões em estímulos, mas riscos fiscais aumentam

Aline Drumond - Estágio DM

Publicado em 6 de abril de 2026 às 17:28 | Atualizado há 2 meses

Gastos extras em ano eleitoral elevam riscos fiscais, segundo especialistas e investidores | Foto: Reprodução
Gastos extras em ano eleitoral elevam riscos fiscais, segundo especialistas e investidores | Foto: Reprodução

A atividade econômica brasileira deverá receber em 2026, ano eleitoral, estímulos que somarão R$ 742 bilhões, um crescimento de 139% na comparação com 2025 e equivalente a 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB).

A estimativa é da gestora ARX Investimentos, que aponta que o montante é puxado pela concessão de mais crédito pelo BNDES, pela expansão do consignado privado e pelo caixa de estados e municípios. Lideram a lista ainda o uso pelo governo de fundos públicos e privados com participação da União para turbinar gastos e crédito, além da ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000.

O cálculo leva em conta apenas os gastos não obrigatórios, projetando os estímulos adicionais do governo à demanda, que inclui o consumo das famílias e os investimentos. Inclui os incentivos fiscais contabilizados no Orçamento e estima as medidas parafiscais, aquelas promovidas pelo governo, mas sem impacto no resultado primário, além daqueles via crédito.

Impactos dos estímulos na inflação e nos juros preocupam especialistas

“Esse excesso de estímulos à demanda mantém a economia crescendo em ritmo incompatível com o seu equilíbrio, pressionando a inflação, que corrói a renda, e produzindo juros mais elevados”, diz Gabriel Barros, economista-chefe da ARX.

“Isso amplia o custo financeiro e o comprometimento de renda das famílias, piorando a trajetória da dívida pública.”

Para o economista André Perfeito, a série de incentivos à atividade econômica, que se alia a um cenário de desemprego em mínima histórica, pode não gerar o efeito desejado sobre a economia por causa da taxa básica de juros elevada, hoje em 14,75% ao ano.

“Estimular investimentos de longo prazo é importante. Mas o Brasil vive um momento de sobreaquecimento da economia. É muita energia no motor, mas ela não se reflete em tração na roda, porque os empresários não conseguem investir e as famílias estão endividadas pelos juros altos.”

Para este ano, a projeção de especialistas em contas públicas é que a alta das receitas com royalties do petróleo ajudará o governo a cumprir a meta fiscal, mesmo com subterfúgios, como o abatimento de precatórios.

Mas o cenário fiscal se complica a partir de 2027: a relação dívida/PIB, hoje em 79,2%, caminha para iniciar o próximo ano acima de 83%. “Todos os pré-candidatos precisam ter consciência de que será inescapável um plano de contenção de gastos”, alerta Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e ex-secretário da Fazenda de São Paulo.

Riscos políticos e impactos do populismo fiscal

O temor do mercado financeiro é que a polarização política amplie ainda mais o arsenal de medidas para estimular a economia. A mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada em 7 de março, mostrou Flávio Bolsonaro (PL) empatado tecnicamente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em simulação de segundo turno, com 46% contra 43% do rival.

Entre os principais riscos, segundo Barros, estão possíveis incentivos aos caminhoneiros devido à alta do diesel e eventuais ações para limitar os juros do cartão de crédito, como defende Lula.

“O governo tem buscado caminhos para transferir mais renda às famílias e manter a economia aquecida. Isso pesa no cenário para 2027. Como há muitos benefícios concedidos, é difícil, do ponto de vista político, retirar depois”, diz Barros, reforçando que o aumento de gastos em anos eleitorais não é privilégio de nenhum partido.

Estudos históricos mostram que, durante anos eleitorais, os governos costumam ampliar gastos públicos, muitas vezes usando mecanismos para encobrir o aumento de despesas. Alexandre Manoel, ex-secretário nos ministérios da Fazenda e da Economia, explica: “O governo usa o fiscal para impedir que perdas de bem-estar atinjam os trabalhadores, protegendo o seu capital eleitoral.”

O atual cenário político conturbado também incentiva maiores gastos. Ricardo Campos, CEO da gestora Reach Capital, afirma: “Há uma guerra interna, com o caso Master, extraordinário pelo volume de dinheiro envolvido, atingindo os três Poderes. E, em um cenário em que um leão está solto, você põe o tênis para correr.”

Apesar das preocupações fiscais, a dívida pública não está tão ameaçada pelo câmbio, já que o Brasil é grande exportador de petróleo, o que ajuda a amortecer choques de preço da commodity. Além disso, a atratividade do país cresce diante de incertezas institucionais em outras economias emergentes.

O Ministério da Fazenda destacou que, em 2025, os gastos públicos tiveram efeito negativo sobre a economia, em consonância com o ciclo mais aquecido e a política monetária. Para 2026, espera-se um impulso positivo, “em coordenação com o ciclo econômico e a política monetária”. A pasta reforçou que as regras fiscais vigentes garantem previsibilidade e disciplinam o crescimento das despesas, inclusive em anos eleitorais, e que a estabilização da dívida está no horizonte.

(Maeli Prado/Folhapress)


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