Brasil

Investigação sobre PCC cita empresa com contratos no Ministério da Saúde

Giovanna Gonçalves - Estágio DM

Publicado em 9 de abril de 2026 às 15:32 | Atualizado há 2 meses

Distribuidora contratada pelo Ministério da Saúde aparece em investigação sobre infiltração do crime organizado na economia formal | Foto: Reprodução
Distribuidora contratada pelo Ministério da Saúde aparece em investigação sobre infiltração do crime organizado na economia formal | Foto: Reprodução

A distribuidora de medicamentos Star Pharma, contratada por R$ 190 milhões pelo Ministério da Saúde, teve até o fim de 2025 como única sócia uma mulher que também representa alvos da Operação Carbono Oculto, que investiga a inserção do PCC (Primeiro Comando da Capital) na economia formal.

Andrea Cristina Alves Borges recebeu procurações de ao menos cinco empresas de diferentes ramos, como formulação e distribuição de combustível, lojas de conveniência e uma investidora. Investigadores consideram todas elas ligadas a Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo, que está foragido e negocia um acordo de delação premiada.

Andrea também comandou duas outras empresas transferidas a ela por Amine, irmã de Mourad. Um dos empreendimentos é um motel, repassado em 2025 para um ex-gerente de postos de gasolina, também alvo de buscas e de bloqueio de bens na Operação Carbono Oculto.

Na representação que embasou a operação, deflagrada em agosto de 2025, o Ministério Público incluiu a Star Pharma em uma lista com dezenas de empresas que seriam ligadas “direta ou indiretamente” ao Primo, mas a distribuidora não foi alvo de buscas ou outras medidas.

A investigação mira a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis e no mercado financeiro. Primo é apontado como “epicentro” do esquema, que se vale de “centenas de empresas constituídas sob a titularidade de terceiros” para ocultar e lavar dinheiro, segundo a representação.

Até o momento, as ações não tiveram como foco empresas com contratos do SUS. A Star Pharma fornece, desde 2024, insulina e preservativos ao governo federal. Andrea deixou de ser sócia da companhia no ano passado.

Em nota, a atual administração da Star Pharma afirmou que qualquer suspeita não se relaciona com a gestão atual e que todas as suas relações comerciais são pautadas pela regularidade, transparência e conformidade.

O Ministério da Saúde informou que a empresa assinou contratos após apresentar descontos de até 30% em licitações. A pasta afirmou que a distribuidora cumpriu exigências previstas na legislação e que “supostas práticas criminosas” dos acionistas eram desconhecidas e não constariam no processo de contratação.

A reportagem tentou entrar em contato com Andrea por telefone, mensagem e e-mail na semana passada, mas não recebeu resposta.

Relatórios de inteligência financeira produzidos pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) indicam que Andrea teve procuração da formuladora de gasolina Copape e da distribuidora Aster. As duas empresas foram compradas por Primo em 2020 e são investigadas por fraudes fiscais e contábeis. Segundo investigadores, elas teriam sido usadas para lavar dinheiro de atividades criminosas do PCC.

As ligações de Andrea se estendem a outras empresas da família de Primo. Ela representou a rede de lojas de conveniência Khadige e a investidora Insight Participações, da qual teve procuração para movimentar contas, segundo o Coaf.

Os relatórios não informam o período em que Andrea representou os investigados.

A Folha de S.Paulo localizou em cartório de São Paulo duas procurações do fim de 2021 permitindo que ela comprasse imóveis para a Insight (já citada pelo Coaf) e outra para uma empresa que pertencia a Tharek Bannout. Cunhado do primo de Mourad, ele é apontado pelos investigadores como dono de postos de gasolina e padarias usados no suposto esquema. As procurações seguem válidas, segundo o cartório.

Além disso, os relatórios do Coaf citam a Star Pharma como beneficiária de recursos do fundo Mabruk II e do BK Bank, também investigados. Os documentos não detalham os valores das transações.

Em nota, o BK Bank afirmou que não recebeu ou enviou recursos em nome da Star Pharma e que as transações feitas por meio de sua plataforma são identificadas e registradas nas contas individualizadas dos clientes.

A Star Pharma foi criada em Niterói (RJ), em 2021, e transferida no ano seguinte para Barueri (SP). A empresa tem mais de R$ 150 milhões em contratos para entrega de insulina ao ministério, produto que não tem registro da Anvisa e foi adquirido sob o argumento de escassez no mercado nacional. A distribuidora também fornece preservativos.

A Star Pharma também aparece em uma operação frustrada de entrega de R$ 87 milhões em imunoglobulina ao SUS, em 2023, que seria financiada pela Insight e fornecida por outra empresa, a Farma Medical.

Em setembro daquele ano, a Insight emitiu um documento afirmando que a Farma Medical deveria transferir R$ 2,62 milhões para a conta da Star Pharma para amortizar a dívida pela compra do produto. Uma advogada que hoje defende a Star Pharma representou a Insight na assinatura.

Em 2025, Andrea deixou a empresa, que passou a ter como única sócia a farmacêutica Emanuela Medrades, que já atuava na companhia ao menos desde 2023.

Documentos obtidos pela reportagem mostram diálogos em que Roberto Leme, conhecido como Beto Louco, reclama a Emanuela Medrades sobre o pagamento da imunoglobulina. Como mostrou a Folha de S.Paulo, a compra não foi concluída após a Anvisa interditar a carga.

“Precisamos resolver isso. Muita grana, e está ruim entrar essa grana logo, entende? Entrando esta grana ficamos bem, sensação boa, entende? Está foda esta exposição”, disse Beto Louco, em conversa de outubro de 2023 à qual a reportagem teve acesso.

Medrades afirma que a Insight foi indicada pela Reag — gestora que também foi alvo da operação e acabou liquidada por causa da relação com o Banco Master — para financiar a compra de imunoglobulina, e que atuou no processo de forma “técnica e pontual” após o “insucesso da operação”.

Em nota, a Reag negou relação com a Insight e afirmou que não financiou a compra.

Beto Louco também está foragido e negocia delação. Ele era gerente da Copape e da Aster e teria papel de coordenação no esquema criminoso, segundo a investigação.

Medrades depôs à CPI da Covid, em 2021, no caso envolvendo a venda da vacina indiana Covaxin ao governo de Jair Bolsonaro (PL), pela empresa Precisa Medicamentos, da qual era diretora.

Procurada por mensagem na manhã do dia 31 de março, a defesa de Beto Louco não se manifestou. As defesas de Primo e de Tharek não foram localizadas. A Aster e a Copape também foram procuradas por e-mail na semana passada, mas não responderam.

(Folhapress/Mateus Vargas, José Marques e Thaísa Oliveira)


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