Ex-presidente do BRB recebeu 6 imóveis como propina para comprar carteiras do Master
DM Redação
Publicado em 16 de abril de 2026 às 12:16 | Atualizado há 2 meses
Brasília (DF) — Folhapress/Raquel Lopes, Constança Rezende e Adriana Fernandes
O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, teria recebido vantagem indevida por meio da transferência de seis imóveis de alto padrão localizados em São Paulo e no Distrito Federal para viabilizar a aquisição de carteiras consideradas fraudulentas no caso do Banco Master.
Segundo o Ministério Público, Costa “foi peça essencial” na viabilização da aquisição dessas carteiras. A informação consta na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a prisão de Costa e do advogado Daniel Monteiro.
Os seis imóveis são avaliados em R$ 146,5 milhões, dos quais cerca de R$ 74,6 milhões já teriam sido efetivamente pagos, conforme os elementos reunidos até o momento.
“Na condição de então presidente do BRB, foi peça essencial para viabilizar a aquisição das carteiras fraudulentas e, em contrapartida, recebeu vantagem indevida consistente em seis imóveis de alto padrão em São Paulo e Brasília”, diz a decisão.
Conversas telefônicas
Os diálogos extraídos dos aparelhos telefônicos dos investigados, especialmente entre Costa e outro diretor, indicam que, desde o início das operações, já havia conhecimento de inconsistências relevantes nas carteiras ofertadas.
Ainda assim, as aquisições teriam sido conduzidas de forma acelerada, com sucessivas flexibilizações de procedimentos e pressão por liquidação rápida, em aparente desprezo aos controles prudenciais.
A decisão afirma ainda que, mesmo após a constatação, em junho de 2025, de que o BRB havia adquirido aproximadamente R$ 12,2 bilhões em carteiras falsas do Banco Master, a instituição teria persistido na parceria e seguido comprando novos ativos.
Paralelamente, a Polícia Federal aponta que Costa iria receber um valor estimado de R$ 146,5 milhões em imóveis.
O advogado Cléber Lopes, responsável pela defesa de Costa, afirmou que seu cliente não praticou crime algum e que a prisão foi um exagero por parte da Justiça. “A defesa continua firme na convicção de que Paulo Henrique não cometeu crime algum”, disse Lopes ao deixar o apartamento do ex-presidente do BRB, no bairro Noroeste, em Brasília, onde ocorreu a prisão.
A decisão aponta que, para operacionalizar o pagamento e ocultar a titularidade real dos bens, houve a atuação do advogado Daniel Monteiro, que também foi preso na operação. Ele teria recebido R$ 86 milhões para participar de todo o esquema do Master.
Beneficiário oculto
O documento o descreve como “agente-chave da vertente jurídica da estrutura criminosa, especialmente na formalização das operações entre Master, Tirreno e BRB e na ocultação do beneficiário real das aquisições imobiliárias”.
Para esconder o real beneficiário dos imóveis, ele teria operado uma estrutura de empresas de fachada e fundos de investimento. As investigações indicam que Monteiro indicou o próprio cunhado, Hamilton Edward Suaki, para figurar como diretor das empresas adquirentes.
Ele também atuou na frente jurídica para dar aparência de legalidade a operações envolvendo carteiras de crédito fictícias vendidas pelo Master ao BRB, incluindo a elaboração e o ajuste de contratos, extratos e documentos que o Banco Central posteriormente identificou como inconsistentes ou artificiais.
Após Daniel Vorcaro tomar ciência de uma investigação sigilosa realizada pelo Ministério Público Federal, em abril, sobre o possível pagamento de propina, ele teria ordenado a Monteiro que “travasse tudo” em maio.
A reportagem ainda não conseguiu localizar a defesa de Monteiro.
Validação de imóveis
A documentação aponta que os bens eram tratados como um “cronograma pessoal” de Costa. Segundo os registros, o investigado visitava ou validava os imóveis selecionados, acompanhava de perto o andamento das aquisições e chegou a manifestar preocupação com a ausência de formalização do arranjo — o que reforça a indicação de que tinha ciência do caráter dissimulado da operação.
A decisão aponta que a prisão de Costa e Monteiro se justifica diante do risco concreto de ocultação e destruição de provas. Segundo o documento, há “elevada possibilidade de eliminação e manipulação de documentos” capazes de esclarecer as práticas investigadas, além do risco de evasão do país, em razão da elevada capacidade financeira dos envolvidos.
O aprofundamento das investigações pela PF confirmou as suspeitas de que o ex-presidente do BRB teria falsificado documentos posteriormente para sustentar as decisões de compra de carteiras do Master negociadas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, como antecipou reportagem da Folha de S.Paulo publicada em fevereiro.
Naquela época, Paulo Henrique mantinha conversas com a PF e dizia a interlocutores que pretendia prestar um novo depoimento, o que não chegou a ocorrer.
Em outra reportagem, publicada semanas depois, a Folha mostrou que as investigações haviam avançado contra Costa, que insistia em prestar um depoimento técnico para demonstrar a legalidade das operações.
Daniel Vorcaro
Com base na extração de dados telemáticos do celular de Daniel Vorcaro e de outros envolvidos, além da documentação apreendida, a PF já havia colhido evidências robustas de que ele teve participação central na produção massificada de documentos artificiais — envolvendo planilhas, contratos, extratos, procurações e cláusulas de mandato — destinados a conferir aparência de regularidade a ativos sem lastro.
Há, inclusive, referência a uma apresentação interna do próprio Banco Master descrevendo uma verdadeira linha de produção voltada à criação e circulação dessas carteiras fraudulentas, de acordo com a representação que levou à prisão do ex-dirigente do BRB.
Entre as provas encontradas pelos investigadores, também são mencionados ajustes manuais de extratos, documentos antedatados, confecção seriada de instrumentos contratuais e uso de procurações atípicas, assinadas por agentes do banco em substituição aos supostos tomadores de crédito.
Desde o seu afastamento do comando do BRB, após a primeira fase da operação Compliance Zero, Costa reuniu documentos — que levou consigo ao deixar o banco — na tentativa de demonstrar que não sabia que as carteiras eram falsas e sustentar a tese de que foi o próprio BRB que comunicou ao Banco Central a existência de problemas na documentação desses ativos, o que teria levado à devolução ao Master.
Para a PF, no entanto, os diálogos obtidos a partir dos celulares dos investigados indicam que, desde o início das operações, já havia conhecimento de inconsistências relevantes nas carteiras ofertadas.
Apesar disso, as aquisições teriam sido aceleradas, com sucessivas flexibilizações de procedimentos e pressão para liquidação rápida das operações, “em aparente desprezo aos controles prudenciais” pelo BRB.