Brasil

Brasília aos 66 anos: da utopia modernista ao centro das tensões políticas do Brasil

Léo Carvalho

Publicado em 21 de abril de 2026 às 15:32 | Atualizado há 2 meses

Vista da Praça dos Três Poderes, em Brasília, símbolo do poder político e das tensões institucionais | Foto: Divulgação
Vista da Praça dos Três Poderes, em Brasília, símbolo do poder político e das tensões institucionais | Foto: Divulgação

A Brasília completa 66 anos nesta terça-feira (21), data que coincide com o Dia de Tiradentes, em homenagem ao inconfidente Joaquim José da Silva Xavier, símbolo da luta por liberdade no país. Planejada para representar o futuro e a integração nacional, a Capital nasceu como projeto político e urbanístico no governo de Juscelino Kubitschek e segue, décadas depois, como centro das decisões e tensões do Brasil contemporâneo.

Imagem mostra estaca do Marco Zero de Brasília | Foto: Arquivo Público do DF

Erguida em tempo recorde no coração do país, Brasília nasceu como símbolo de modernidade e integração nacional. A transferência da Capital do litoral para o interior era um projeto antigo, concretizado durante o governo de Juscelino Kubitschek sob o lema “cinquenta anos em cinco”.

O plano urbanístico ficou a cargo de Lúcio Costa, vencedor do concurso que definiu o traçado da cidade. Já os edifícios monumentais foram projetados por Oscar Niemeyer, cuja arquitetura marcou a identidade estética da nova capital.

Urbanista que planejou Brasília, Lucio Costa (à direita) e o presidente JK (à esquerda). — Foto: Arquivo Público-DF/Divulgação

A construção mobilizou milhares de trabalhadores vindos de diversas regiões do país. Conhecidos como “candangos”, esses operários foram responsáveis por erguer, em condições precárias, a estrutura da cidade inaugurada em 21 de abril de 1960.

Enquanto o projeto previa uma cidade organizada e funcional, a realidade social tomou outro rumo. Os trabalhadores que construíram Brasília não foram plenamente incorporados ao plano original e acabaram formando cidades ao redor do Plano Piloto.

Essas regiões cresceram de forma desigual, revelando um contraste persistente entre o centro planejado e a periferia. A capital que nasceu como símbolo de integração passou a refletir também desigualdades sociais históricas do país.

Caminhão transporta operários para obra em Brasília | Foto: Arquivo Público do DF/Fundo Novacap/Divulgação

Operários tomam café da manhã em Brasília | Foto: Arquivo Público do DF/Divulgação

Poucos anos após sua inauguração, Brasília tornou-se o epicentro de um dos períodos mais turbulentos da história nacional: o regime instaurado após o Golpe de 1964.

Durante a ditadura, os edifícios projetados para simbolizar a democracia abrigaram decisões autoritárias. O Congresso Nacional foi fechado em momentos distintos, e a capital consolidou-se como centro do poder político, mesmo sob restrição de direitos.

Congresso Nacional, em Brasília, em 1964, quando ocorreu o golpe da ditadura militar | Foto: Arquivo/Agência O Globo

Com o fim do regime militar, Brasília voltou a ser palco de mobilizações populares e decisões institucionais relevantes. A Constituição de 1988 marcou a retomada democrática, consolidando a cidade como centro político do país.

Desde então, a capital tem sido cenário de manifestações, crises políticas e mudanças de governo, refletindo tensões da sociedade brasileira.

Estudantes da UnB são detidos pela polícia dentro do campus em agosto de 1968, na ditadura militar | Foto: Arquivo Central/AtoM/UnB

Nas últimas décadas, Brasília esteve no centro de episódios que evidenciam instabilidade política. Processos de impeachment, investigações de corrupção e disputas entre os Poderes marcaram a dinâmica institucional do país.

O ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, deixou o cargo em março de 2026 em meio a investigações relacionadas ao chamado “Escândalo Master”, que apura suspeitas de irregularidades envolvendo o Banco de Brasília (BRB), incluindo a compra do Banco Master e possíveis desvios de recursos. Durante a crise, ele transferiu o comando do governo para Celina Leão.

O governador Ibaneis Rocha (MDB) entregou o cargo à vice, Celina Leão (PP), no dia 30 de março de 2026, em meio a desgastes da compra do Banco Master pelo BRB (Banco de Brasília) e incertezas sobre a sucessão no governo do Distrito Federal | Foto: Divulgação

Antes disso, após os atos de 8 de janeiro de 2023, Ibaneis já havia sido afastado do cargo por 90 dias por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, sob a justificativa de possível omissão na segurança pública.

O episódio, marcado pela depredação das sedes dos Três Poderes na Praça dos Três Poderes, expôs o grau de tensão política e institucional no país.

O 8 de janeiro, para além da politização e da cooptação, revelou um fenômeno novo: a radicalização de policiais e militares | Foto: Wilton Júnior/Estadão

Oscar Niemeyer, arquiteto dos edifícios monumentais de Brasília | Foto: Arquivo Público do DF

Aos 66 anos, Brasília permanece como centro das decisões políticas do Brasil e símbolo institucional do país. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios urbanos e sociais, especialmente fora do plano original.

A cidade preserva o legado arquitetônico de Niemeyer e o conceito urbanístico de Lúcio Costa, enquanto convive com contrastes entre planejamento e crescimento real.

Mais do que capital, Brasília segue como expressão das transformações políticas, sociais e históricas do Brasil.

No coração do Brasil, a “Cidade do Futuro” planejada se destaca pela liderança em inovação e alta qualidade de vida | Foto: Divulgação
A cidade (Brasília) no Brasil planejada que virou referência em viver bem com liderança em inovação e qualidade de vida no coração do país | Foto: depositphotos.com / Eduardo1304

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