Trump rejeita estender trégua com Irã e eleva risco de conflito
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 21 de abril de 2026 às 15:52 | Atualizado há 2 meses
Donald Trump comenta possível retomada de ataques após fim da trégua com o Irã | Foto: Chip Somodevilla/AFP
O Paquistão, mediador nas negociações da guerra no Irã, pediu aos Estados Unidos que prorroguem o cessar-fogo de duas semanas, mas o presidente Donald Trump voltou a afirmar que não pretende estender a trégua, que expira na noite desta terça-feira (21).
A TV estatal iraniana afirmou que o cessar-fogo em vigor desde 8 de abril termina às 3h30 de quarta-feira em Teerã (21h de Brasília). Nesse horário, acabaria o período de 14 dias de trégua anunciado pelos países – embora Trump tenha dito recentemente que o cessar-fogo iria até quarta-feira (22) à noite.
Em reunião com a encarregada de negócios dos EUA no Paquistão, Natalie A. Baker, o ministro das Relações Exteriores, Ishaq Dar, enfatizou a necessidade de diálogo entre os EUA e o Irã e disse que o Paquistão instou ambos os lados a considerar a extensão do cessar-fogo, segundo comunicado do ministério.
Pressão por ação militar
Em entrevista à TV americana CNBC na manhã desta terça-feira, Trump afastou a possibilidade de extensão e disse que os militares americanos estavam “loucos para agir” caso as negociações não fossem bem-sucedidas.
Questionado sobre a possibilidade de estender a trégua, Trump disse ao canal: “Não quero fazer isso. Não temos tanto tempo assim”.
“Acho que vou bombardear, porque acho que é uma atitude melhor”, acrescentou. “Mas estamos prontos para agir. Quero dizer, os militares estão loucos para agir.”
A porta-voz do governo iraniano, Fatemeh Mohajerani, por sua vez, afirmou: “Não queremos ser atacados novamente, mas se tais ataques ocorrerem, definitivamente responderemos com mais firmeza do que antes”, segundo a agência de notícias estatal IRNA.
Até o momento, não há, porém, confirmação sobre a participação do Irã na negociação em Islamabad. As autoridades paquistanesas disseram que, se as delegações comparecerem às negociações, não chegarão até a quarta-feira.
Trump falou pouco depois de os militares dos EUA anunciarem que haviam abordado um petroleiro iraniano em alto-mar, em águas internacionais. A ação pode dificultar a retomada das negociações de paz com o Irã, que já afirmou que não negociará enquanto Washington mantiver um bloqueio de seus portos.
Interceptação
Os militares dos EUA disseram que abordaram o petroleiro Tifani, ligado ao Irã, “sem incidentes”. A embarcação reportou sua última posição na manhã desta terça-feira como próxima ao Sri Lanka, no oceano Índico, de acordo com dados de rastreamento da MarineTraffic. Ela estava quase totalmente carregada com 2 milhões de barris de petróleo bruto e havia sinalizado Singapura como seu destino.
“Como deixamos claro, buscaremos esforços globais de fiscalização marítima para interromper redes ilícitas e interceptar embarcações sancionadas que fornecem apoio material ao Irã onde quer que operem”, disse o Comando Central dos EUA.
Nas redes sociais, Trump disse que o Irã havia cometido inúmeras violações do cessar-fogo, sem dar mais detalhes. Ele disse à CNBC que o bloqueio havia sido um sucesso. “Vamos acabar fechando um grande acordo… eles não têm escolha.”
Ele manteve o discurso otimista, dizendo que os EUA estão em uma “posição de negociação muito forte”, acrescentando: “Não estamos lidando com o grupo mais simpático de pessoas, mas estamos lidando com eles com muito sucesso”.
Estreito de Ormuz e impacto global
O Irã bloqueou o estreito de Ormuz para todos os navios, exceto os seus. Havia anunciado na última semana que reabriria a passagem, mas reverteu essa decisão no sábado (18) depois que Trump se recusou a suspender seu bloqueio aos portos iranianos.
Mas o presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, postou no X dizendo que o Irã tem “se preparado para mostrar novas cartas no campo de batalha” nas últimas duas semanas e “não aceitará negociações sob a sombra de ameaças”.
Os preços do petróleo recuaram cerca de US$ 0,30 e as ações se recuperaram na Ásia com expectativas de que as negociações de paz serão retomadas, com as ações europeias também em alta. O petróleo havia saltado cerca de 6% na segunda-feira devido a dúvidas sobre as negociações.
Programa nuclear iraniano é questão crucial
Trump quer um acordo que impeça novas altas nos preços do petróleo e choques no mercado de ações, mas insistiu que o Irã não pode ter os meios para desenvolver uma arma nuclear. Ele quer que o Irã abra mão de seu estoque de urânio altamente enriquecido, que pode, caso enriquecido ainda mais, ser usado para uma ogiva nuclear.
Isso deixou o estreito fechado e privou o mundo dos 20 milhões de barris de petróleo que normalmente o atravessavam a cada dia.
Uma primeira sessão de negociações, há dez dias, não produziu acordo, e Teerã vinha descartando uma segunda rodada depois que os EUA se recusaram a encerrar seu bloqueio e apreenderam um navio de carga iraniano no domingo (19). Trump ameaçou atacar a infraestrutura civil do Irã se nenhum acordo for fechado.
Um funcionário iraniano disse na segunda-feira (20) que Teerã estava “avaliando positivamente” sua participação, mas enfatizou que estava esperando para ver se suas exigências seriam atendidas, incluindo o reconhecimento de seu direito de enriquecer urânio.
Já Teerã espera explorar seu controle do estreito para fechar um acordo que evite a retomada da guerra e suspenda as sanções, enquanto mantém seu programa nuclear, que afirma ser para fins pacíficos.
Em publicação em rede social, Trump mencionou mais um tema de negociação nesta terça-feira: pediu que o Irã liberte oito mulheres que estariam presas, cumprindo pena de morte no país, embora não tenha especificado quem seriam. Em resposta, o Irã negou que essas mulheres estejam condenadas à morte.
“Aos líderes iranianos, que em breve estarão negociando com meus representantes: gostaria muito que essas mulheres fossem libertadas. Seria um grande começo para nossas negociações”, escreveu.
Milhares foram mortos por ataques americano-israelenses ao Irã e por uma campanha paralela de bombardeios israelenses e invasão do Líbano. A guerra causou um choque histórico no fornecimento global de energia e temores de que a economia global possa ser empurrada à beira de uma recessão. (FOLHAPRESS)