Ataques a papa reavivam histórico anticatólico nos EUA
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 24 de abril de 2026 às 08:28 | Atualizado há 2 meses
Basílica de Santa Maria, na Virgínia, guarda registros de episódios anticatólicos no século 19 | Foto: Reprodução Wikimedia/Commons
Um episódio ocorrido em abril de 1898 ilustra um período de forte hostilidade religiosa nos Estados Unidos. Naquele dia, uma pessoa entrou na igreja de Santa Maria, em Alexandria, no estado da Virgínia, e despejou ácido carbólico nas pias de água benta. Uma frequentadora percebeu o odor e conseguiu alertar a tempo de evitar que a substância tóxica ferisse os fiéis.
O caso é citado no site da atual Basílica de Santa Maria como exemplo da onda anticatólica que se espalhou pelo país na segunda metade do século 19, período marcado pela chegada de imigrantes irlandeses, italianos e poloneses.
Tensão atual reacende memórias
A recente sequência de ataques da Casa Branca ao papa Leão 14 trouxe à tona essas memórias, especialmente entre descendentes desses grupos. Para o historiador Scott Appleby, o conflito público pode estar alimentando uma nova onda de sentimento anticatólico.
“Não vejo precedente, na história do relacionamento da Igreja com o governo dos EUA”, afirma Appleby, ao comentar declarações feitas após Donald Trump acusar o pontífice de ser liberal demais e “fraco em crime”.
Leão 14, primeiro papa americano, é o segundo pontífice a enfrentar críticas diretas de Trump. Em 2016, ainda candidato, o republicano chamou o papa Francisco de “agente” do México, devido às críticas do argentino à política anti-imigração.
Em maio passado, após a morte de Francisco, Trump publicou um meme gerado por inteligência artificial em que aparecia vestido como papa. Questionado, disse que gostaria de ser eleito o próximo pontífice.
Relação histórica de desconfiança
Segundo Appleby, a desconfiança em relação ao Vaticano remonta à própria fundação dos Estados Unidos, no século 18.
“Os EUA foram fundados como uma espécie de fusão entre um cristianismo puritano inglês e pensadores deístas do Iluminismo”, explica. “Figuras como Thomas Jefferson, Benjamin Franklin e George Washington viam o catolicismo como uma força de regressão e irracionalidade.”
Esse padrão de suspeita aumentou com a chegada de imigrantes católicos entre as décadas de 1840 e 1880, intensificando a hostilidade.
Política, religião e disputa de influência
Após a eleição de Leão 14, houve a percepção de que ele reconquistou a confiança de católicos conservadores. Trump, por sua vez, recebeu a maior parte do voto católico nas três eleições que disputou.
Appleby destaca que a Igreja Católica, apesar de não atuar diretamente em política partidária, tem tradição de engajamento em temas globais. “A Igreja é chamada a pregar a mensagem de Jesus Cristo em voz alta e firme, sempre interagindo com líderes políticos.”
O historiador também aponta que setores da extrema direita tentam redefinir o catolicismo e assumir uma espécie de autoridade doutrinária leiga. O vice-presidente J. D. Vance seria um exemplo.
“Vance não possui credenciais. Ele leu alguns textos de Santo Agostinho e acredita que é um especialista”, afirma.
Repercussão e opinião pública
Após o papa minimizar o conflito com Trump, Vance publicou mensagem agradecendo ao pontífice por reduzir a tensão, que atribuiu à “narrativa midiática”.
Convertido ao catolicismo em 2019, o vice-presidente chegou a sugerir que o papa deveria ser “cuidadoso” ao tratar de questões teológicas, em referência ao conceito de “guerra justa”.
A declaração gerou críticas de católicos, que destacaram a formação acadêmica do pontífice, incluindo estudos em matemática, filosofia e doutorado em direito canônico.
Pesquisa Reuters/Ipsos aponta que 60% dos americanos aprovam o papa Leão 14, enquanto 36% aprovam o presidente, a quem Vance pretende suceder. (Lúcia Guimarães/FOLHAPRESS)